História em Quadrinhos

Pagando por Sexo de Chester Brown – resenha com cointreau

“A experiência de pagar por sexo não é vazia quando a gente paga para a pessoa certa”

pagando por sexoQuando encontrei, na prateleira de comics da Livraria que frequento aqui em Maceió, o gibi “Pagando por Sexo” de Chester Brown me desafiei a ler suas páginas. Vou explicar melhor o por que desse “desafio”: havia acabado de terminar a leitura do quarto e último volume de Sandman – Absolute que a Panini havia lançado e não resisti (embora já tivesse lido as edições de Sandman ainda pela Editora Globo), daí ler alguma história em quadrinhos sem comparar a todo momento? Quem conhece Sandman sabe bem do que estou falando. Pois então, é óbvio que a “necessidade” quase fisiológica de ler outra HQ boa  e interessante se alastrou por minha mente e contaminou cada precioso neurônio habilitado a responder por conectar minha vontade. Selecionei duas HQ’s: “Você é minha mãe?” de Alison Bechdel (que não gostei e vou explicar em outro post o porque) e “Pagando por Sexo” de Chester Brown que, surpreendentemente, me fisgou a leitura.

Me lembro que na minha adolescência, ser considerado nerd era uma espécie de ofensa, afinal, quem o/a acusava com essa “palavra” o declarava um princípio ambulante de má socialização e incapacidade de interagir com outras pessoas, pois seu “único objetivo” seria estudar, ler HQ’s, falar sobre filmes de ficção científica e outras “cabulosidades” para essas estranhas pessoas normais que se recusavam minimamente a falar de outras coisas que não fossem da vida particular dos outros ou de quem “comia ou queria comer alguém”. Daí, ao ler “Pagando por Sexo” de Chester Brown, me trouxe todo aquele antigo cenário escolar da minha vida. Então se trata disto a HQ? Não. Mas se trata de algo que desde aquela época penso a respeito: a difícil capacidade de criar vínculos com outras pessoas. E mais: a habilidade – ou ausência dela – de viver com as pessoas sem, necessariamente, as transformar em “ferramentas” de prazer. E quando digo ferramenta é no sentido de instrumento mesmo, de algo que você usa até a capacidade funcional do produto e depois o descarta. Essa “instrumentalização” das relações é algo que a leitura de “Pagando por Sexo” me trouxe.  É óbvio que é mais fácil você instrumentalizar alguém, assim como é natural, nessa lógica, que alguém o/a instrumentalize e, se e quando necessário, o/a descarte.

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Mas “Pagando por Sexo” retrata uma “biografia” em comics de um quadrinista que busca prazer. E a pergunta que o autor fez e outros fizeram para ele é: é correto pagar por sexo?

Adianto que esse tipo de pergunta é espinhosa para o autor, para inúmeros filósofos e filósofas e para qualquer um e qualquer uma que pense sobre si e sobre o outro. Numa visão mais “romântica”, sexo deve vir acompanhado de amor, mas é verdade? Para Chester Brown a resposta é não. Pensemos: é correto dizer que não? Sexo deve ser algo como um tipo de necessidade fisiológica que deve ser sanada, pagando-se ou não?

Vem minha resposta: sim e não. Sexo é algo fisiológico, permite dar e receber prazer (se, claro, for consensual e as pessoas envolvidas buscarem dar uma a outra esse prazer), ajuda no bem-estar físico e psicológico, etc. Poderia acrescentar detalhes dos benefícios, mas o que penso é: sexo deve ser moralizado? Como assim? Sabe, determinado como deve ser válido para ser reconhecido, com quem deve ser e o que do sexo resultar, entre outras perguntas, mas e pagar por ele, é moralmente válido? É uma relação de consumo?

Eis uma pergunta que Chester Brown se faz em diversos momentos. Ele inicia a sua jornada de sexo pago devido ao fim de um relacionamento monogâmico e se nas primeiras páginas de sua jornada ele a faz com relutância, nas últimas ele é um assíduo “usuário” de garotas de programa. Se no início seu medo o impelia a fazer perguntas às garotas (como idade, de onde veio, etc) e, principalmente, a si mesmo, no andar das páginas o que lhe importa é gozar. A ideia de pagar por sexo é colocada contra a parede na interlocução com seus amigos, que o questionam e, senti, minimizam o valor humano das garotas de programa. E daí a pergunta que faço é: devemos julgar moralmente mulheres e homens que “alugam” seus corpos para proporcionar prazer a alguém? Minha resposta (e acredito que a de Chester Brown) é que não, não há sentido em atribuir um valor moral e muito menos considerar aético ao que alguém decide fazer com seu corpo. É claro que, envolvendo-se ética e moral (que são construtos conceituais diferentes e uma boa leitura de obras de Nietzsche ou de Peter Singer pode ajudar e muito) nada é fácil de “fechar” o debate. E nem precisamos, necessariamente, mergulhar em debates filosóficos para entender essa minha preocupação e o motivo é simples: quem “aluga” seu corpo tem autonomia para tanto, partindo-se do pressuposto que essa pessoa tem o direito de fazer o que bem entender de seu corpo, desde que não prejudique outros sujeitos de direito constituído (por isso a aberração da proposta da bancada fundamentalista religiosa chamada “Estatuto do Nascituro).

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Mas verdade seja dita: quem não julga pessoas que se prostituem? Raras são as pessoas que não acabam enveredando por esse caminho e quem usufrui de seus serviços sexuais também são julgados (o que ocorre com Chester Brown). Mas como digo: prostituição não é destino, mas muitas vezes também não é escolha (é só observar as travestis e transexuais que a sociedade empurra para a prostituição, julgando-as por “não serem homens”, por “não serem mulheres”, não oferecendo oportunidades de trabalho que não envolva seus corpos e, ainda assim, as tratando como “mercadorias” de valor reduzido e facilmente descartáveis (é só contar o número de homicídios de travestis no Brasil).

Pagar por sexo é errado? Não. Isso significa que todos e todas que precisarão pagar por sexo? Não. E é esse aspecto que, tanto na HQ quanto nessa resenha, interessa: você não é obrigado a usufruir de sexo pago e se o faz é por sua escolha. Mas chegamos ao ponto, no debate sobre moral e ética, imprescindível a essa resenha: olha-se o usuário que paga pelo sexo, mas quem recebe financeiramente pelo sexo dado? O que tem? poderia alguém me perguntar. Tanto quem paga quanto quem recebe carrega trajetórias que os/as levaram até ali e vejo diferenças substanciais nesse aspecto. Muitas vezes quem se encontra nessa situação não gostaria de estar, por todos os riscos envolvidos e mesmo pela “validade” do trabalho. Mas até que ponto podemos intervir – nós, outros – se não envolver casos de prostituição forçada (como se dá nos casos de tráfico de mulheres com números assustadores)?

Não tenho ideia de como encerrar esse post, até mesmo porque não sei como encerrá-lo, verdade seja dita, a única certeza que tenho é que misturar sexo e moral mais prejudica que ajuda as pessoas. Para além dessa prerrogativa que uso para pensar e viver nesse mesmo mundo de pessoas que pagam ou não pagam por sexo, ainda tenho de pensar e muito.

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