História em Quadrinhos

Alan Moore, H. P. Lovecraft e o Neonomicon

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Há autores que dialogam verdadeiramente entre si mesmo sem nunca terem existido no mesmo momento do tempo. Talvez por isso seja interessante pensar que se encontram num mesmo continuum espaço – temporal. Se os escritores em questão são um pouco ou completamente desajustados, o diálogo talvez seja ainda mais interessante e perturbador. O desajuste, verdade seja dita, é sempre interessante no campo literário, ou melhor, artístico. A arte possibilita soltar os diversos pesadelos e sonhos contidos dentro de cada um (a) e, com isto, nos remete, muitas vezes, a realidades completamente distintas ou simplesmente “alteradas”. Tenho dúvidas se é o horror ou a ficção científica quem melhor – enquanto campo literário – possibilita esse passeio pelas “realidades alteradas” pois acredito que, ainda que o campo literário como um todo seja rico, são os autores específicos que nos permitem transitar pelos devaneios e sairmos, ao final da jornada, ainda vivos – embora não necessariamente lúcidos.

Considero H. P. Lovecraft como um dos maiores escritores de Horror e Ficção Científica que já passou por uma dessas inúmeras Terras Paralelas. Talvez seu grande feito tenha sido – em minha opinião – dar ao Horror – enquanto gênero literário – um caráter de ficção científica (em suas obras mais tardias, claro). “Nas Montanhas da Loucura” é um exemplo magistral dessa capacidades e me permitiu viajar, quase literalmente, para outras épocas da Terra, junto aos Grandes Anciãos. Lovecraft criou toda uma mitologia própria que apenas grandes autores conseguem fazer, no campo da fantasia, do horror ou da ficção científica. Posso citar Tolkien, Frank Herbert, George R. R. Martin, Burroughs, etc. E ao criar toda essa mitologia própria – um verdade universo, mas auto contido? – é impossível não perceber, ao longo do tempo, as homenagens e muitas vezes verdadeiros plágios criativos estabelecidos a partir da obra magistral de Lovecraft (que alguns consideram uma literatura “burocrática”, o que discordo veementemente), mas são as homenagens que verdadeiramente interessam. E um dos maiores autores de histórias em quadrinhos de todos os tempos, o mago barbudo Alan Moore, criou uma belissima homenagem a Lovecraft na ensandecida HQ “Neonomicon”.

Acredito que dizer “ensandecida” é aplicar o melhor termo possível a essa história em quadrinhos. Tudo que remete a Lovecraft está nessa HQ: personagens desajustados (uma agente do FBI viciada em sexo, um outro agente do FBI com extremo de paranóia, um traficante surreal, etc), ambientes (uma casa, um prédio, uma piscina, etc) que inspiram e projetam horror, criaturas não humanas e, principalmente, a sensação de despreparo e até mesmo de inevitabilidade. Alan Moore ao escrever “Neonomicon” reforçou muito esse aspecto de “inevitabilidade” em torno da história. Você começa a ler e já tem a sensação de que vai dar merda aquilo tudo. É a mesma sensação que Lovecraft imprimiu em seus livros. Essa inevitabilidade, entretanto, não significou – seja nas páginas dos livros de Lovecraft ou na HQ homenagem de Alan Moore – que o inevitável não traga consigo a sensação de mistério que precisa ser desvendado.

A HQ “Neonomicon” contém cenas fortes, em especial um estupro inter espécies. O sexo, inclusive, é algo especialmente acentuado na segunda parte da HQ – dividida em torno de uma mesma investigação – e quando digo acentuado, quero dizer realmente que o sexo, diferentemente das obras de Lovecraft, é visível e selvagem e, acredito, furioso. Essa ausência de sexo – ou sua quase invisibilidade nos livros de Lovecraft – foi completamente extirpada na HQ de Alan Moore. Nela, o sexo é algo selvagem e que permite poder. Mas a forma como é retratado está longe do sexo romantico de outras HQ’s e outras mídias. Cru e visceral como, talvez, eu nunca tenha visto em outra HQ, seja do próprio Alan Moore (e olha que Lost Girls é de uma devassidão excelente). E o final é elegantemente assustador pelo tom sóbrio do diálogo entre os agentes do FBI no Hospital Psiquiátrico.

Neonomicon de Alan Moore e Jacen Burrows é ítem obrigatório, tanto para fãs de Alan Moore quanto para fãs de H. P. Lovecraft. A edição completa da série foi publicada no Brasil pela Editora Panini, mantendo um padrão de qualidade e preço razoável para @s nerds sebent@s. O valor é de R$ 24,90 com 188 páginas de delírios lovecraftianos lapidados pela barba do mago inglês Alan Moore. 

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3 pensamentos sobre “Alan Moore, H. P. Lovecraft e o Neonomicon

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