História em Quadrinhos

“Guadalupe” de Angélica Freitas e Odyr: resenha com cointreau

Nos últimos meses procurei ler cada vez mais histórias em quadrinhos autorais. É claro que não deixei de ler as HQ’s de super-heróis, mas a verdade é que a maioria delas – com poucas exceções na DC e na Marvel – não têm despertado tanto minha curiosidade. Aquelas “mensais” que mais gostava de acompanhar, como a Mulher Maravilha do Brian Azzarello e Cliff Chiang ou a Action Comics do Grant Morrisson e Rags Moraes, encerraram seu ciclo e, verdade seja dita, nada de melhor apareceu (na Marvel há a ótima série do Gavião Arqueiro) e tudo fica no “mais do mesmo” de sempre. Como devem ter observado, as séries de super-heróis têm cansado um tanto (e não sou apenas eu, basta acompanhar a flutuação de criação e cancelamento de séries de super-heróis nos EUA) e muito desse cenário de “estagnação” se deve ao modelo de publicação existente nos EUA (e que reflete aqui no Brasil e em outros países) e quem busca superar esse “mais do mesmo”, como a Image (a DC busca inovar, sim, mas sempre por meio de seu selo Vertigo), vem colecionando inúmeras excelentes HQ’s (Saga é uma delas e que, finalmente, será publicada no Brasil). Estou “desabafando” para poder dizer que, nessa busca por HQ’s autorais, me deparei com um excelente exemplo de história em quadrinhos autoral produzida pela dupla Angélica Freitas (roteiro) e Odyr (ilustração): “Guadalupe”.

guadalupe-e1346468115342

Para quem frequenta esse Cabaré, sabe que vivi um tempo na Cidade do México (e sempre que posso retorno) e que tenho uma estima enorme pela Cidade do México e pelo país (que viveria muitos anos se fosse possível). Dada essa informação, não é de se estranhar que, ao retirar o exemplar de “Guadalupe” da prateleira da livraria e ler sua sinopse, me senti imediatamente fisgado pela história. A premissa da HQ de Angélica Freitas e Odyr é simples (como são as boas histórias): Guadalupe é uma jovem prestes a completar seus 30 anos, trabalha no sebo de Minerva, seu tio travesti e leva uma vida “no automático”, entre algumas cervejas e mezcal e tacos e enchilladas. Ao perder a sua (figuraça) avó num acidente de moto, Guadalupe sente a necessidade de cumprir uma promessa que fez a velhinha motoqueira: levar seu corpo para Oaxaca e enterrá-la ao som de música.

guadas3

Temos aí um road movie. E um bom road movie, na verdade. Essa jornada de Guadalupe é em meio ao seu “retorno de Saturno”, que se estende entre os 29 e 33 anos, um período de questionamentos sobre quem somos em transformação através do espelho, quando somos o que aparentamos ao olhar para frente e para trás e onde estamos de verdade ao fixarmos nossos pés. Mas o mais interessante da HQ é mostrar o desenvolvimento de Guadalupe como mulher, distante da mãe e pai, criada por Minerva e por sua avó e podemos perceber seu desenvolvimento em flashbacks e também nos diálogos, aparentemente simples, que revelam inúmeras descobertas sobre quem a cerca, como a história de sua avó. A jornada da Cidade do México até Oaxaca (conheci Oaxaca durante um mochilão que fiz ao país, você pode ler minhas impressões da cidade clicando aqui) feita por Guadalupe é introspectiva, mas não é realizada sozinha. Minerva, na HQ, funciona como “Virgílio” conduzindo Dante na Divina Comédia, mas as comparações devem parar por aí. Essa jornada de Guadalupe, que lhe oferta conhecimento sobre si mesma e também sobre suas origens, é permeada por elementos da mitologia “asteca” e, por isto, Minerva funciona como uma “guia dos perplexos”, já que também Minerva precisou saber que papel desempenhar na jornada de Guadalupe (o que demandou alguns alucinógenos, por acaso) e uma confrontação com uma divindade sedenta por espíritos (quem Minerva se torna para enfrentar esse “adversário” e quem ela conclama para o enfrentar foi uma das melhores partes da HQ). O mais interessante da HQ é mostrar que nesse “retorno de Saturno” muito longe de qualquer maniqueísmo de “bem” e “mal” nas nossas decisões, quando tomadas, implicam abandonar aquilo que nos é seguro. É como se o “destino” nos ofertasse uma escolha: mantenha o que tem. Mas o “destino” é sorrateiro e o é com Guadalupe e também oferta outra escolha (numa ótima metáfora com o espelho): mantenha o que tem aí dentro e siga adiante. Quase a mesma coisa, não? Pois é.

“Guadalupe” de Angélica Freitas e Odyr custa R$ 34,00 no site da Companhia das Letras e, caso lhe interesse, pode clicar aqui.

Anúncios

Um pensamento sobre ““Guadalupe” de Angélica Freitas e Odyr: resenha com cointreau

  1. Pingback: 5 Histórias em Quadrinhos Sem Capa e nem Cueca por cima da Calça | Cabaré das Ideias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s