Literatura/Realidade Overpower

Blogagem Coletiva: Livros que Marcaram a Infância

Me lembro que, embriagado de vinho barato, discutia energicamente com meus amigos e minhas amigas da Velha Guarda uma máxima de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância”. As razões do debate em torno da ontologia do filósofo espanhol me escapam à memória, mas ela me fez pensar, agora que me debruço sobre outras memórias, o quão correto também é especificar essa circunstância: “Eu sou eu e minhas leituras”. São elas que contribuem – e muito – para seu desenvolvimento enquanto pessoa e mais: como agente de seu próprio destino. O convite de Lady Sybylla, Capitã do Momentum Saga (puxadinho virtual da Enterprise), para escrever e compartilhar minhas primeiras experiências de leitura foi instigante e, como toda imersão, nos faz revisitar coisas boas. E coisas não tão boas e até mesmo ruins. E participar de uma blogagem coletiva é sempre uma experiência interessante, como se mostrou outra que realizamos: Blogagem Coletiva: 10 coisas que eu tenho que fazer antes de ser abduzido

Então vamos lá: como tudo começou?

 

Em geral a leitura e, especialmente o gosto por ela, começam em casa, principalmente com os pais. No meu caso, tenho dificuldades em identificar, exatamente, com quem começou. Minha mãe foi uma leitora voraz em sua adolescência e graças a Força (e a minha insistência com filhotrocínio de livros) voltou a cultivar essa dependência literária (sim , dependência literária. Não a deixe sem dois livros na fila pra ler, porque, caso ocorra, o desespero será grande), mas é meu pai quem me deu (pelo menos é o que lembro) um gibi para ler, inaugurando minha dependência das letras (e, no caso, também das imagens). Me lembro que era um gibi do Hulk. Tenho vívida memória de sua primeira página, com o Dr. Bruce Banner precisando impedir o lançamento de um foguete. Eu tinha uns 4 anos de idade. Lembro da leitura me deixar extasiado. Devorei aquele gibi vorazmente (e devo ter parado de encher o saco dos meus pais ou algo do gênero) e queria outro e outro e outro…

Sim, meus caros e minhas caras leitores/leitoras do Cabaré das Ideias, minha participação na blogagem coletiva não terá foco ipsi literis com “livros”, a não ser que você, como eu, considere as histórias em quadrinhos como literatura em imagens, por que, afinal de contas, tudo no fim se trata de como contar histórias. Mas adianto: a experiência com a leitura, desde a tenra idade, não se deu apenas com as histórias em quadrinhos, mas também com uma diversidade de experiências narrativas que, muitas vezes, eu duvido mesmo que tenha experimentado. Por exemplo: adorava ler, quando fazia a terceira série, as histórias do cachorrinho Samba. Coisa de criança mesmo. Sei lá, como na época meus pais já estavam separados, morávamos numa cidade nova e sem família alguma e minha mãe tinha de ir trabalhar, precisava orientar minha irmã e, claro, me orientar, as histórias do cachorrinho Samba (lia por meio dos livros didáticos) eram um alento, algo leve, mas o que gostava mesmo eram histórias mais densas, como a que vou contar abaixo.

Mas vamos começar por aquela HQ que, considero, “encerrou” a maneira lúdica que tinha de visualizar “o mundo”.

Batman – o Cavaleiro das Trevas

BRTDK

Imaginem vocês, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, um garoto de 09 anos, fã do desenho “Superamigos”, vai a uma banca de revista e se depara com um gibi com essa imagem aí acima. Foi o que aconteceu comigo. Me lembro de pensar: “Ma.Ma.Mas…o Batman e o Super Homem…eles são…eles são amigos…” E essa imagem do Batman chutando o rosto do Super Homem é o oposto do que uma criança está habituada a ver (ao menos não era comum na década de 1980) nos gibis, na TV, nos filmes, em todas as mídias que esses personagens apareciam. E essa HQ foi um marco pra mudar esse conceito. Em Batman – O Cavaleiro das Trevas, temos um Bruce Wayne aposentado, com seus 55 anos embebidos de vinho e champagne, amargurado e com um morcego entranhado na alma que não lhe permite paz. É um mundo a beira do caos, com um Super Homem subserviente a ditadura “democrática” de Ronald Reagan e um crime se alastrando pelas cidades estadunidenses feito uma pandemia de violência. E Gotham, claro, não estava de fora, o que termina por trazer esse Batman aposentado de volta a ativa e é nessa premissa que temos uma das melhores HQ’s de todos os tempos (autoria de Frank Miller antes de ser abduzido). Como gosto de dizer, aos 09 anos, definitivamente as histórias mais infantis perderam a graça. O que terminou de matar qualquer possibilidade de ler algum livro, qualquer que seja, da série Vagalume. Essa leitura de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” me levou a ler outras HQ’s mais adultas, dos 09 anos em diante na distante década de 1980, entre elas Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons), Monstro do Pântano (Alan Moore), Crise nas Infinitas Terras (Marv Wolfman e George Perez), o Demolidor (Frank Miller) e outras tantas. 

 

10 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO

 

dezdiasEstava desesperado por ler. Todos os gibis que tinha já tinham sido lidos e relidos. Ficava imaginando e reinventando histórias de super-heróis, mas não aguentava mais. A dependência era grande. O que decidi fazer? Feito um viciado, fui revirar as coisas da minha mãe para ver se encontrava algo para ler. Abri seu guarda-roupa e encontrei esse livro de John Reed, 10 Dias que Abalaram o Mundo. Era uma edição capa dura e o livro era velho, o que achei bem interessante. Levei-o até meu quarto e comecei a ler. Tinha uns 11 anos na época, se muito. Já tinha aulas de História, espera, acho que era Estudos Sociais, de toda forma considerava uma chatice sem tamanho, considerava muito superficial o conteúdo que tínhamos de ler. Comecei a devorar as páginas e fui descobrindo sobre um país que nem fazia ideia de onde ficava: Rússia e, pra ser mais preciso em relação ao conteúdo do livro, a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. John Reed escrevia de um jeito adulto para adultos, me lembro de pensar, mas de certa forma tinha um elemento de aventura naquilo tudo narrado naquelas páginas. Obvio que minha mãe descobriu, dias depois, que aquele livro (que ela havia emprestado de alguém estava em mãos de seu filho) e o tomou, me deu um sermão que nem faço ideia do conteúdo, mas sei que não levei a sério, e logo depois voltei a ler o livro, no quarto dela, e deixando o livro na mesma posição que havia encontrado pra minimizar problemas, o que de fato se tornou bem sucedido. Digo que este livro me influenciou e muito em desejar viajar para outros países e também estudar Política. 

 

Coisas que percebi com a Blogagem Coletiva

 

Devo ter sido uma criança muito introspectiva mesmo e, talvez pelas circunstâncias (olha o Ortega y Gasset de novo aí), “forçada” a buscar amadurecer e entender melhor o mundo dos adultos o mais rápido possível, quase num modo Bourne infantil de refletir o mundo que me cercava. Não me interessava em ler “livros para crianças” e não tive essa experiência, verdade seja dita. Mas como disse no início do post, “Eu sou eu e minhas leituras” e isso para bem e para mal, se é que podemos fechar nossa retro-análise numa dicotomia tão confortável como esta. 

 

 

 

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7 pensamentos sobre “Blogagem Coletiva: Livros que Marcaram a Infância

  1. Poxa! Livro de responsa, hein?

    Quanto a quadrinhos, pra mim é literatura sim. Acho que quem tenta desqualificar os quadrinhos é porque não entende a mensagem que eles passam e o modo como isso nos atinge. Quem ataca é porque, provavelmente, nem conhece algo deste universo de HQs.

    Interessante a análise que você de ter amadurecido e lido coisas que não são típicas do universo infantil. Ainda assim, você não perdeu o caráter lúdico da coisa, que é o mais importante.

    Muito bom, Ben, adorei! 😀

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  2. Olá, Ben!
    Achei a sua leitura bastante amadurecida, ainda mais sendo um menino. Em geral, os meninos costumam se interessar pela leitura mais tarde do que as meninas e, você com 4 anos lia Hulk? Visualmente nesse tipo de gibi, o desenho é “poluído” para crianças pequenas e geralmente somente à partir dos 8 anos há um certo entendimento. Você é um menino prodígio, parabéns!!
    Quando eu estava com 4 anos, o meu irmão tinha o dobro da minha idade e lia para mim o que estava escrito nos balõezinhos dos quadrinhos de Asterix e Obelix. Também não era algo fácil para o entendimento de uma criança, mas eu tinha um irmão muito paciente 😀
    “Os Dez dias que abalaram o mundo” é um marco no jornalismo moderno e eleito pela Universidade de NY o melhor trabalho jornalístico do século XX. Se com 11 anos você lia algo sobre o “Outubro Negro”, o que você lê agora?

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    • Huahahuaha grato, Luma! Realmente desde cedo lia e muito.
      Escrever esse post na blogagem coletiva foi uma experiência psicológica interessante pra revisitar esse “eu” passado. Realmente, o livro de John Reed é impressionante. Minhas leituras hoje transitam entre Ficção Científica, Fantasia e Realismo Fantástico e livros técnicos de Meio Ambiente, Economia e Políticas Públicas, além de gibis e vez ou outra Cosmologia e novamente Filosofia. Inclusive terminei mês passar um excelente livro de Cosmologia, A Realidade Oculta, muito bom.
      Valeu pelo comentário!!! 🙂

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  3. Pingback: Livros que marcaram a infância | Marta Preuss

  4. Eu também me considero uma dependente química de livros, atualmente estou lendo uns 20 livros e não lembro quando foi diferente, tem livros por toda parte nesse momento no meu quarto e isso é um para mim é uma forma de felicidade. Eu comecei a ler gibis na escola na segunda fase da adolescência, os meninos me emprestavam “Homem Aranha”, “X-mens”, “Super-Man” e “Batman” eu gostava, era interessante outra forma de contar histórias e eu nunca gostei da serie Vaga-lume. Eu também descobrir minha paixão por história pela literatura e completava o conteúdo do que aprendia na sala de aula através de livros, foi lendo que me tornei uma pessoa minimamente politizada.

    Eu também fui uma criança com tendencias introspectivas, apesar de não ter problemas de comunicação acho que vez ou outra eu precisava de isolamento do mundo exterior, mas sem o peso da solidão absoluta e os livros me davam isso em abundancia e ainda me dão.

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