História em Quadrinhos/Uncategorized

Pílulas Azuis de Frederik Peeters: resenha com cointreau

Há muito digo (e gosto de repetir) que o universo das histórias em quadrinhos é bem mais rico que pode supor a vã filosofia de quem acredita que só existem seres fantasiados nesse mundo da nona arte. Definitivamente não. Há inúmeras HQ’s que apontam que há uma diversidade muito grande realmente, com belíssimas histórias autorais, ficções científicas, jornalismo em quadrinhos, etc. Poderia discorrer todo esse post sobre essa riqueza (coisa que fiz aqui), mas estou resenhando uma das melhores HQ’s biográficas que li em toda a minha vida nerd: Pílulas Azuis de Frederik Peeters.

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A história de “Pílulas Azuis” remete a um dos temas socialmente mais delicados da nossa contemporaneidade: o HIV/AIDS. Como professor na área de Saúde Pública, trabalho com um artigo intitulado “AIDS e infecção pelo HIV no Brasil: uma epidemia multifacetada” define o HIV/AIDS de maneira precisa do ponto de vista público:

A identificação, em 1981, da síndrome da imunodeficiência adquirida, habitualmente conhecida como AIDS, tornou-se um marco na história da humanidade. A epidemia da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e da AIDS representa fenômeno global, dinâmico e instável, cuja forma de ocorrência nas diferentes regiões do mundo depende, entre outros determinantes, do comportamento humano individual e coletivo. A AIDS destaca-se entre as enfermidades infecciosas emergentes pela grande magnitude e extensão dos danos causados às populações e, desde a sua origem, cada uma de suas características e repercussões tem sido exaustivamente discutida pela comunidade científica e pela sociedade em geral.

É quanto a esse último aspecto, o social, que a HQ trata, de certa forma. Frederik Peeters escreve uma HQ biográfica e nela relata algo extremamente íntimo: seu casamento. Ao mesmo tempo em que a AIDS é um problema de saúde pública, reconhecido na HQ, ela é retratada de forma pessoal. De uma maneira em que o HIV/AIDS não é algo distante, mas algo que pode ser próximo de cada um e cada uma. É claro que ao retratar sua história pessoal, conhecemos o contexto de Frederik, Cati (sua esposa soropositiva) e o filhinho dela (também soropositivo). Dizer que Peeters retratou de maneira humana o HIV/AIDS é verdade porque antes de serem soropositivas, elas são pessoas com sonhos, desilusões, desejos (sim, desejos, incluindo aí o sexual), vontades e tudo o mais que qualquer pessoa pode e sente ao estar simplesmente viva.

frederikecati1E não, não há nada de piegas na forma como Peeters retrata sua história com Cati. Ao contrário. Li a HQ e a cada página me surpreendia com a leveza e a belíssima narrativa empregada por Peeters e a todo momento me perguntando como reagiria ao me apaixonar por uma garota soropositiva. É fantástico como Peeters nos traz suas dúvidas, angústias e inquietações de maneira fluida, para não dizer “fechada” e por fechada digo no sentido da capacidade de me fazer estar no desenrolar daquelas páginas. Dúvidas como: “como é viver sendo soropositiva?”, “há vida sexual entre alguém soropositivo e alguém que não é soropositivo?”, “quanto tempo de vida a mulher que ama terá?”, são estas e inúmeras outras perguntas que são ditas direta ou indiretamente. “Pílulas Azuis”, definitivamente, é uma HQ para ser lida de maneira tranquila, porque acredito que o intuito dela é nos fazer refletir e nos questionar na forma de vermos esse mundo e mesmo de nos relacionarmos nele.

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Ao final, temos os depoimentos de Cati, do menininho (agora um jovem) e da filha. Filha? Pois é. Mesmo sendo um casal no qual a esposa é soropositiva, Peeters e Cati tiveram uma filha. E explicam como. Achei o final da HQ fantástica. Não é de se estranhar que tenha recebido prêmios mundo a fora. Li a HQ pelo “Social Comics”, mas a HQ impressa publicada pela Nemo também é excelente e recomendo fortemente para a gibiteca pessoal. Um dos maiores méritos dessa HQ é justamente trazer a dimensão mais próxima de todos nós. Mesmo como professor (meu alter ego, na verdade) que leciona com artigos que tratam do tema do ponto de vista das Políticas Públicas, aprendi muito com essa HQ e a recomendarei certamente para minhas turmas. Será mais que um ganho profissional, será um ganho pessoal para quem a ler.

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