Cinema e afins

O Maniqueísmo em Star Wars

Para quem assistiu Star Wars, mesmo não sendo um/uma fã, pode facilmente identificar que existe uma clara divisão entre “heróis” e “vilões” nos filmes: o maniqueísmo, a divisão entre o Bem e o Mal. Mani, o Profeta-Filósofo de uma religião surgida por volta do século III no Oriente Médio (mais especificamente entre o Iraque e o Irã), agregou elementos de diversas religiões para “criar uma pra chamar de sua”. Podemos identificar elementos do Masdeísmo persa, Judaísmo, Cristianismo e até mesmo do Hinduísmo e Budismo, embora essas duas últimas religiões não possam ser caracterizadas como teologicamente propensas a dividir o mundo entre o Bem e o Mal. Essa divisão é a que mais fácil impregna nossa cultura e quando digo cultura é no sentido de “cultura judaico-cristã” que  nem mesmo o dito Iluminismo e toda a sua racionalidade conseguiu apagar ou mesmo se desvincular, para isso bastando observar o desenvolvimento de ditas culturas avançadas (civilizadas e propensas ao bem) e primitivas (bárbaras e propensas a selvageria e ao mal) na leitura de cientistas sociais do século XIX e XX (será que não do século XXI?).

A atração psicológica e força do maniqueísmo vem da facilidade com que podemos enquadrar os comportamentos sociais e individuais. A realidade tenderia a ser “preto & branco”, sem espaços que pudessem ultrapassar essa esfera, seja na política e muito menos na religião. A ideia de “infiel”, existente entre diversas das religiões monoteístas como o Islã, o Cristianismo e o Judaísmo, não importa qual de suas variações, por exemplo, é baseada complemente na “ausência do Outro” e pela necessidade de imposição de “valores corretos” por parte de quem os detém. Há, claro, mecanismos que fogem a essa dicotomia. O Islã os têm claramente no Corão, quando o Profeta Muhammad exorta aos muçulmanos que protejam “os Povos do Livro”, ou seja, aqueles povos que deteriam “revelações mais antigas” e também válidas.

Mas que tem Star Wars de Maniqueísta, então? 

jedi sith

Sem duvida, Star Wars se desenvolve com fortes traços maniqueístas, pois aparentemente a divisão entre “o Lado Luminoso” e o “Lado Escuro” da Força eram associados – e até incentivados pela filmografia – a serem visualizados na luta entre o Bem e o Mal. Ligar essa divisão entre as duas religiões, Jedi e Sith, retratadas na Trilogia Sagrada (Episódios IV, V e VI) e a Nova Trilogia (I, II e III) de maneira vinculada é quase um passo necessário. Mas assim como existem inúmeras passagens nos filmes que demonstram que essa dicotomia existe, há também outras que apontam suas fragilidades. Por exemplo, o diálogo entre Mestre Obi Wan Kenobi e Anakin Skywalker no Episódio III – A Vingança dos Sith quanto a “se você não está comigo, está contra” é permeado dessa dicotomia. O que é o bem ali? É claro que Anakin Skywalker representa não o Equilíbrio da Força, mas sim seu Desequilíbrio, desequilíbrio este que se configura na ausência de distinção entre o que é o bem e o mal para o Cavaleiro Jedi. Chegamos, neste ponto, ao velho debate de que “os fins justificam os meios” que tantas atrocidades permitiram, do ponto de vista da sua absorção ideológica e mesmo teológica.

É interessante notar que é no Episódio III – A Vingança dos Sith que essa dualidade maniqueísta é mais questionada. Seja por um Mestre Jedi (como Obi Wan o faz), seja por um Mestre Sith (Palpatine/Darth Sidious ao narrar a tragédia de Darth Plagueis). Será o caminho para o bem maior um caminho exclusivamente Jedi?

A atração pelo Maniqueísmo em Star Wars se reproduz, inclusive, na maneira como a própria identificação entre o Bem, representado pela Aliança Rebelde e sua diversidade de espécies, e o Mal, representado pelo Império e sua homogeneidade de espécies (uma alusão inconsciente à limpeza étnica tomada em proporções galácticas? teria sentido uma resposta afirmativa). Identifique, na Trilogia Sagrada (Episódios IV, V e VI), alguma espécie que atua no Império que não seja humana! Quando são retratadas junto a agentes do Império, são sempre mercenários ou gangsteres (o mais famoso, Jabba – the Hutt). 

Por fim, me chama a atenção do poder da linguagem nesse debate sobre Maniqueísmo. Poderia dizer como se diz, “Lado Negro da Força”, mas não seria assumir, mesmo que inconscientemente, que o Negro é vinculado ao Mal? Prefiro não compartilhar nessa armadilha da língua portuguesa que coloca “negro” como algo sempre ruim, afinal, o próprio conceito original em inglês é Dark e não Black, o que faz sentido nessa discussão sobre Maniqueísmo.

Maniqueísmo não é exclusividade de Star Wars, mas é muito bem representado nos filmes. E cabe a cada um e cada uma refletir sobre o alcance do Maniqueísmo na leitura que fazemos da nossa realidade. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s