Literatura

Kafka à beira-mar de Haruki Murakami: resenha com cointreau

“Mentalidade tacanha e intolerância. Teorias infundadas, palavras vazias, ideais usurpados, sistemas inflexíveis(…). É muito importante saber o que é certo e errado. E erros de julgamento individuais são na maioria das vezes passíveis de correção. São reparáveis, desde que haja coragem para reconhecer o erro. Mas a mentalidade tacanha e a intolerância resultantes da falta de imaginação são como parasitas: transformam seus hospedeiros, metamorfoseiam-se e continuam a existir. Não há salvação para elas (…)”
Oshima, personagem de Kafka à beira-mar, sobre pessoas vazias.

Haruki Murakami foi uma das melhores surpresas literárias que tive nos últimos anos. Devorei cada página da trilogia 1Q84 e me embebedei com seu realismo fantástico como há muito não fazia. Para ser franco e exato, desde minhas leituras de Gabriel Garcia Marquez e, assim como o autor colombiano, Murakami me fisgou definitivamente, me impelindo a continuar a ler suas obras. E foi, naturalmente, o que ocorreu: encontrei numa livraria Kafka à beira-mar e não resisti, comprei-o e, findadas leituras anteriores, me dediquei a desbravar a história de Kafka Tamura e Nakata. E, confesso aos leitores e as leitoras do Cabaré das Ideias: valeu muito a pena! Minha única experiência literária com Haruki Murakami havia sido 1Q84 e, tolamente, acreditei que não seria possível que o autor japonês pudesse se superar em maestria aquela estonteante trilogia literária que resenhei aqui mesmo para o Cabaré das Ideias. Mas “Kafka à beira-mar”, desculpem-me a sinceridade, superou e muito sua trilogia mais famosa.

kafka

A trama envolve dois protagonistas, o adolescente de 15 anos, Kafka Tamura, envolto numa terrível profecia edipiana; e Nakata, um idoso e bondoso senhor vítima, décadas antes, de um evento “sobrenatural”(?), que lhe rendeu um analfabetismo impossível de ser vencido pela educação e uma fantástica capacidade de conversar com gatos. Aparentemente distantes, as jornadas de ambos são muito similares: o auto-conhecimento, cada qual a sua maneira e com seus respectivos objetivos.

Murakami é um escritor que esculpe sua história com poderosa meta-linguagem. Ela nos captura e, definitivamente, não nos permite abandona-la em “Kafka à beira-mar”. Acompanhamos a narrativa de Kafka, em primeira pessoa, descrevendo seus sentimentos de dúvidas e inquietações diante do desconhecido que sua jornada em busca de sua mãe e irmã o impõe (dialogando com o Menino que se chamava Corva, numa projeção consciente de um típico arquétipo junguiano que nos apresenta o desconhecido), mas com Nakata temos um indivíduo “vazio”, que se expressa de maneira exógena a si mesmo, como se existisse um abismo entre quem é e quem projeto ser.

capa_haruki_murakami1Como disse antes, Murakami esculpe sua história de maneira a nos enganar, enquanto leitores e leitoras. Conforme avançamos na leitura, passamos da impressão de uma ficção científica para um fantasia urbana e de volta a um realismo fantástico que nos prendeu no primeiro capítulo. Se no início da obra temos diversos “narradores”, é com o passar das páginas que descobrimos um afunilamento da história que não permite mais a intromissão de outros pontos de vista sobre fenômenos vivenciados pelas personagens. As viagens de descoberta de Nakata (como ri dos diálogos com o gato Kauamura!) e de Kafka (sua imersão na literatura como um portal de fuga e, ao mesmo tempo, de leitura da realidade que o cerca) são verdadeiras odes à jornada do herói, mas não apenas deles, seus e suas coadjuvantes (Sra. Saeki, Oshima, Sakura, a gata Mimi, Hoshino, o gato Kauamura, etc) também muito contribuem para a riqueza da trama, até mesmo porque se há algo que Murakami deixa claro na trama é que ninguém é uma ilha. Assim como na nossa vida boas (e más pessoas) surgem, nos acompanham durante um período, cooperamos e entramos em conflito, assim o é em “Kafka à beira-mar”. Murakami, neste sentido, brinca o tempo todo com a necessidade de sabermos distinguir o certo do errado, mas sem nos infligir o maniqueísmo torto e barato que, tão facilmente, pode nos surgir. E talvez esse aspecto tenha sido um dos quais mais me chamou a atenção: em “Kafka à beira-mar” os conceitos ganham vida, nos prejudicam, nos ajudam, nos fazem crescer e enfrentar situações das quais não queremos nem chegar perto, podem surgir na forma de uma marca de uísque ou de fast food ou num arquétipo de uma tragédia grega.

Ao terminar a leitura agora a pouco, na verdade menos de 30 minutos atrás, tenho a impressão que Haruki Murakami objetivava neste livro nos abrir “pedras de entrada” (leiam o livro e entendam) para que possamos encarar e vencer nossas lembranças, verdadeiras maldições que podem nos perseguir se alimentadas com nosso rancor. O interessante é que para abrir e fechar nossa “pedra de entrada” não podemos fazer sozinhos e sozinhas, precisaremos das pessoas. E na maioria das vezes nos são desconhecidas que passam a compartilhar de nossas vidas, mesmo que por um período curto, mas sempre a carga maior será nossa e porque não seria? Elas mesmas possuem suas cargas e, no compartilhar da vida, não estamos todos diminuindo as cargas uns dos outros? Me faço essa pergunta especialmente pela série de intempéries vividas por Nakata. São engraçadas, mas trágicas pelos preços pagos pelo idoso senhor.

“Kafka à beira-mar” é uma leitura que recomendo fortemente. Daqui a pouco sigo pra livraria, espero que consiga resistir a não comprar o próximo livro de Haruki Murakami, mas vício é fóda. O livro pode ser adquirido na Livraria Cultura por R$69,90.

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3 pensamentos sobre “Kafka à beira-mar de Haruki Murakami: resenha com cointreau

  1. Achei bacana essa parte de superar seus problemas com o apoio dos outros, é realmente tão difícil aceitar essa ‘intromissão’ alheia mas as vezes tão necessária porque pode ser uma luz pra um caminho escuro demais pra atravessar sozinho.

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  2. Aconselho vivamente que leiam o Impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo também do Haruki Murakami, foi o primeiro livro que li deste escritor e é definitivamente o meu preferido. Acho que para uma melhor compreensão deste livro é importante lê-lo porque ambos têm bastante em comum. Existem conceitos, ideias e até acontecimentos narrativos bastante semelhantes, como por exemplo, ambos apresentam uma floresta que representa o mundo interior ou fazem parte da personagem, onde não existem nomes, onde o vento tem um papel importante e a cima de tudo onde se encontra uma civilização isolada do mundo por uma muralha. Também é alvo de discussão a importância da sombra e como somos incompletos sem ela.

    O que é que acham que o corpo que Hoshino tem que matar representa? e as flautas?

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