Literatura

O Demonologista de Andrew Pyper: resenha com cointreau

Se há um mérito indiscutível no livro “O Demonologista” de Andrew Pyper é a publicização a um público jovem de uma das maiores obras literárias de todos os tempos: O Paraíso Perdido de John Milton (1608-1674). Digo que é um mérito porque Andrew Pyper constrói toda sua narrativa amparando-se na obra de Milton, como personagens de um livro tendo a importância real em outra obra, ou poderia dizer, uma obra dentro da obra. E, de certa forma, um reforço na necessidade de não abandonarmos os clássicos da literatura (aqui poderia citar obras diversas como Hamlet ou Memórias Póstumas de Brás Cubas ou A Divina Comédia, entre tantas outras), imortalizados justamente pela sua qualidade que venceu e ainda vence séculos e mudanças sociais. “O Paraíso Perdido” de Milton é um personagem no livro de Andrew Pyper, o que me permite mais um elogio a iniciativa do autor em dar à literatura clássica uma voz nestes tempos modernos. O livro, como é possível ler no site da editora DarkSide Books, foi premiado (e com prêmios significativos):

“Este é um daqueles livros que você não consegue largar até acabar a última página, ainda que vá precisar de muita coragem para seguir em frente. O livro ganhou o Prêmio de Melhor Romance do International Thriller Writers Award (2014), concorrendo com autores como Stephen King. Entrou em diversas listas de melhores livros de 2013, foi finalista do Shirley Jackson Award (2013) e do Sunburst Award (2014), chegou ao topo da lista dos mais vendidos do jornal canadense Globe and Mail e foi publicado em mais de uma dezena de países.”

capa_Demonologista

Feitos os principais elogios, vamos dissecar um pouco a obra de Pyper, “O Demonologista”. Basicamente temos uma trama que pode e remente aos atuais “thrillers” de ação na literatura como “O Código Da Vinci” ou “Anjos e Demônios”, ambos de Dan Brown. Mas a semelhança entre os “thrillers” de Pyper e Brown param por aí mesmo: no modelo da trama. Enquanto Brown brinca o tempo todo com a metafísica, Pyper não brinca com ela. Ela é parte de sua história. O demonologista, que sabemos não exercer exatamente esse “ofício”, também é um professor universitário da Columbia University (eles, sempre eles, exercendo um papel de investigação, algo que é característico da Ciência e é o “pé” na realidade empírica que os deixa mais fascinantes ao encarar o desconhecido pouco ou nada empírico do sobrenatural), seu nome é David Ullman e, para ser direto, o que ele entende da obra de Milton é proporcional a sua incapacidade de entender o que se passa a sua volta, especialmente com seu casamento que desmorona e sua filha, Tess, cópia exata de si mesmo (no bom e no mau sentido, já que lidamos com juízos morais o tempo todo em O Paraíso Perdido e mesmo em O Demonologista).

Gustave Doré, Representação de Satanás, a personagem central de Paraíso Perdido de John Milton

Gustave Doré, Representação de Satanás, a personagem central de Paraíso Perdido de John Milton

A trama de Pyper não inova nem um pouco neste sentido: Ullman é capturado por uma rede de situações que o fazem atravessar o Atlântico com sua filha Tess em direção à Veneza para uma “consultoria” que, verdadeiramente, nos apresenta o sobrenatural no livro: uma possessão demoníaca. Não vou entrar em detalhes porque não quero entregar spoilers, mas acreditem, o sobrenatural apresentado por Pyper, ao menos em mim, não infligiu o medo ou aquela sensação de angústia como quando li “O Caso de Charles Dexter Ward” de H. P. Lovecraft. E a falta dessa sensação, no transcorrer das páginas que retratavam lugares, situações, angústias das personagens envolvidas é uma falha na narrativa de Pyper.

O drama em torno de Ullman e Tess, pai e filha, é importante, mas não consegui sentir-me preso a essa angústia. E até mesmo a importância do “vilão” da história e suas motivações não fazem sentido. Mas espere! poderá me dizer: e tem de fazer sentido lógico uma história sobre o sobrenatural? Para mim, como leitor, precisa sim. Justamente por tratar o horror na sua forma “empírica” ou real, é preciso que o narrador (no caso, a narrativa é feita a partir da perspectiva de Ullman) nos inflija a mesma sensação que passa e, neste sentido, Pyper deixa a desejar no livro. As motivações que levam os personagens a viajar pelos Estados Unidos e Canadá não fazem sentido algum, verdade seja dita e o drama que deveria nos instigar a realmente percorrer o mundo para resolver um problema sobrenatural envolvendo sua filha não fisga. Pensando aqui sobre a parte “on the road” da trama, talvez mais sentido houvesse em percorrer os bairros de New York para se deparar com as manifestações do demônio, a não ser que o mesmo seja acionista da Shell, Texaco ou outra dessas companhias de petróleo. Se Pyper queria mostrar que o horror está em todo lugar, mas principalmente em nossa memória afetiva e temos de nos preocupar com ele, poderia ter caprichado mais no desenvolvimento da narrativa.

Por fim, tenho de dizer que o trabalho editorial da DarkSide Books é espetacular: o formato do livro, seu acabamento, as ilustrações do Paraíso Perdido, tudo. Nota 10. É o tipo de livro pra ter na prateleira e não em um e-reader. Você pode comprar o livro clicando aqui. E boa leitura!

De toda forma, que mais livros de horror e terror sejam publicados no Brasil. Nós precisamos encarar o demônio da ausência de livros com essa temática de frente.

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