Literatura

Sono de Haruki Murakami: resenha com cointreau

Que faz um livro simples ser profundamente impressionante? Talvez, melhor, provavelmente essa pergunta não tem razão alguma. A simplicidade na literatura, na verdade, impressiona. Impressiona, claro, desde que essa simplicidade na trama seja apenas um desfecho de elegância literária, elegância esta conduzida habilmente pelas mãos de um mestre da literatura como o é Haruki Murakami. E ao conto “Sono”, ilustrado de maneira sublime por Kat Menschik, cabe perfeitamente a alcunha de leitura fluída que só mestres e mestras da literatura possibilitam.

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Desde “Kafka à beira-mar” estou impressionado com sua forma de contar histórias. Murakami prende a atenção de seu leitor e sua leitora com algo que poucos daqueles que leio conseguem: transformar algo do cotidiano numa verdadeira epopéia para os sujeitos de sua arte. Sujeitos este que são objeto e sujeito num eterno retorno do mesmo. Por que estou dizendo isto? Em “Sono” Murakami consegue destilar sua literatura de maneira ainda mais introspectiva que em “Kafka à beira-mar” – mas nem por isso este último deixou de ser meu livro preferido do autor japonês. Em “Sono” acompanhamos a verdadeira odisséia de uma mulher em tensa e profunda insônia. Ela diz: “eu estava literalmente vivendo em estado de sonolência”. Tensa porque essa insônia, como não podia deixar de ser, é reflexo de algo muito mais profundo. É uma insônia que é descrita (em primeira pessoa) de uma forma que não causa desespero (ao menos em mim), mas uma angústia leve. Não é a insônia que causa desespero, é o que começa a emergir da vida dessa mulher que, verdadeiramente, aflige quem lê as páginas de “Sono”. Está tudo lá: um casamento sem graça, uma rotina verdadeiramente sufocante, uma falta de sonhar. Aí reside um bom trocadilho com o próprio título da obra, “Sono”. Se a essa mulher sobra a falta de sono, a sua capacidade de sonhar, ou melhor, voltar a sonhar é cada vez maior na medida que as horas, os dias, as semanas passam sem que consiga se desligar do mundo.

SONO-Murakami-Ilustracoes-KatMenschik

Como leitor, comecei a ler “Sono” de maneira despretensiosa, mas a cada página queria saber mais da vida dessa mulher, do porque ela ter deixado de sentir prazer na cama com seu marido, do porque ter abandonado hábitos que a tornavam que ela era de verdade, sendo a leitura a principal fonte de identidade (e Tolstoi seu farol de identidade). A falta de diálogo em casa, sim, diálogo e não monólogo foi algo que me deixou triste, como se a narrativa dela fosse um pouco minha e talvez até sua, leitor ou leitora. A anulação que ela aceita cobra o preço e esse preço chega na forma dessa insônia destroçante e que a faz se perguntar: quando mudou? E aí reside a estranha sensação que as páginas de “Sono” me causaram: até quando é você? E que faz da realidade algo tangível para entendermos nossas mudanças?

Ao terminar de ler “Sono” fui invadido por uma sensação que ter vivido uma experiência literária junguiana. Ao ler, reler e visualizar as ilustrações de Kat Menschik essa sensação é ainda maior. Que a mulher, aquela que se perde de olhos abertos para se encontrar de olhos fechados, enfrentou sua Sombra num processo de individuação poderoso, mas nem por isso menos doloroso.

“Sono” de Haruki Murakami foi publicado no Brasil pela Editora Alfaguara numa edição belíssima, verdadeiramente dedicada a apreciadores e apreciadoras da literatura de Murakami que, devo concordar com a crítica do Chicago Tribune, “é um gênio”.

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