História em Quadrinhos

A Invisibilidade social nas Histórias em Quadrinhos (atualizado)

Ao ler o título deste post você, leitor/leitora do Cabaré das Ideias, pode pensar que se trata de um post sobre personagens invisíveis das histórias em quadrinhos, especialmente a Mulher Invisível, Sue Storm, do Quarteto Fantástico ou o Caçador de Marte da Liga da Justiça, mas não. Não é sobre personagens cujo poder é a invisibilidade, mas sim sobre a invisibilidade nas histórias em quadrinhos. Mas de que invisibilidade falo? A invisibilidade das minorias. Ela existe. E é reforçada a cada ano que passa, com novas publicações de personagens clássicos ou novos, nos quadrinhos autorais e independentes ou no mainstream da DC e da Marvel. Minorias étnicas e sexuais aos poucos são incorporadas em personagens clássicos ou novos das histórias em quadrinhos. Não é algo usual. Longe disso. Essa incorporação não é feita sem pressão e revolta por muitos e muitas que acreditam que é “bobagem essa coisa de representar minorias”. Será?

Pensemos em alguns exemplos e na balbúrdia e muito chorume que se espalhou pela internet quando foi anunciado que o novo Homem Aranha do Universo Ultimate seria negro. E “pior”, negro e latino com um nome como “Miles Morales”.  Essa incorporação étnica, em minha leitura, foi um acerto da Marvel, muito bem elaborada por Brian M. Bendis. Afinal, o Homem Aranha, independente de quem esteja usando sua máscara e colante, sempre foi um personagem “marginal” nas histórias em quadrinhos, seja o garoto nerd que apanha na escola ou o garoto afroamericano pertencente a uma minoria étnica, ainda que demograficamente significativa, mas sem os mesmos recursos econômicos e sociais que a maioria branca, seja num universo paralelo ou no “nosso”. Essa mudança de status étnico causa tanta revolta que, recentemente, quando anunciado o reboot do filme do Quarteto Fantástico, houve quase uma polvorosa recalcada ao se constatar que o ator escolhido (Michael B. Jordan) para viver Johnny Storm, o tocha humana, era negro. Sua resposta (extraída a tradução no site do Omelete) aos que o detrataram e consideraram um erro para interpretar o personagem?

Você meio que sabe qual será a reação se as pessoas estão acostumadas a ver uma coisa de uma determinada maneira. É uma questão de continuidade acima de tudo. As pessoas não gostam muito de mudanças. Mas [ao ponto de deixá-las] irritadas? Você meio que tem que aceitar, é assim que é. Você não pode fazer todos felizes. Você apenas tem que saber disso e aceitar.

Michael-B-Jordan-

Lúcida, não. Agora tive até vontade de ir assistir a esse filme no cinema.

Nem só o Homem Aranha Ultimate e o Tocha Humana do cinema foram alterados etnicamente (não vou usar o termo racial porque não há base biológica para adotar esse termo). Como disse, os dois personagens não foram os únicos personagens “mexidos” para seus fãs estadunidenses (e do mundo além do Planetamérica), veja o caso do Lanterna Verde Alan Scott da Sociedade da Justiça. Após o reboot da DC, a Sociedade da Justiça, como a conhecíamos, não existia mais. Os tradicionais heróis criados e criadas na década de 1930 e 1940 viviam agora numa Terra Paralela denominada Terra 2. A simples premissa de uma outra Terra para comportar os heróis e heroínas já deixou muito fã nervoso, mas o “clímax” foi o anúncio de que o primeiro Lanterna Verde, Alan Scott, seria gay nessa Terra. Foi o estopim para a ira de muitos. James Robinson, o escritor da série no período, inclusive, se irritou com a homofobia latente dos brasileiros e ironizou o “recalque”, afirmando que criaria um namorado brasileiro para Alan Scott. A ira foi tanta que teve até um blog que publicou, à época, quase um grito de guerra (I Survive) dizendo que o Lanterna Verde NÃO ERA GAY. Podem ler, se tiverem paciência, clicando aqui. Eu achei engraçada a busca por reafirmar, de toda forma, que era Alan Scott e não Hal Jordan o Lanterna Verde gay.

Mas vamos lá: A maior diversificação de personagens reflete uma mudança social básica nos EUA, afinal, é na terra do Tio Sam que a maior parte das histórias ocorrem: há uma diversidade étnica, sexual, de gêneros, de religiões que os antigos personagens não comportam mais. Essa mudança é inexorável, se depender do que indicam os estudos sobre demografia nos EUA. Politicamente, ela já é essencial para se vencer eleições nos EUA.

Mas me chama a atenção a inclusão de pessoas transexuais. Que há nas HQ’s que podemos perceber de inclusão de pessoas trans neste mundo nerd? Você conhece algum ou alguma personagem transexual nas HQ’S? Tente se lembrar de um/uma que seja. Se parou a leitura e foi buscar em algum recôndito da memória, não tem problema. Ainda estou aguardando.

Cri, cri, cri.

wanda2Nada, não é? Nem uma personagem transexual surge. Sei o quão é difícil porque eu mesmo tive dificuldade de lembrar de alguma, mas com muito, mas muito esforço, me lembrei de uma em “A Game of You”, um dos mais interessantes arcos em Sandman, sob a magistral escrita de Neil Gaiman [havia esquecido de Lord Fani, uma xamã travesti membro d’os Invisíveis de Grant Morrisson, mas ela merece um post só pra si 🙂 não é?!]. A personagem é Wanda. E, arrisco dizer, é uma das maiores heroínas vistas em Sandman. E quando digo heroína é no sentido mais clássico do termo heroísmo: a capacidade de enfrentar a adversidade em nome de outra (s) pessoa (s). Não é meu intuito resenhar a história de Barbie, Thessaly, Hazel, Fox, Cuco, etc. Minha intenção é apontar a única história em quadrinhos que me lembro que uma personagem trans é retratada de maneira construída e não caricata. É claro, vocês poderiam me dizer que se trata de Neil Gaiman, então é muito provável que o nível seja outro. OK. O nível é outro mesmo. Mas temos de ler essa história e perceber o quão interessante foi essa construção. Wanda é uma mulher aprisionada num corpo de homem, tem uma história trágica de não aceitação em sua família (o que é mais comum, afinal, a transfobia é tão ou mais perversa que a homofobia e se disfarça muito bem até em pessoas “esclarecidas”), é uma das melhores amigas de Barbie (a protagonista de “A Game of You”), etc.

Há um diálogo entre George (no momento, uma língua, olhos e face pregados à parede do apartamento de Barbie) e Wanda que me chama a atenção sobre a força de vontade de Wanda em meio a um cenário de loucura. Segue o diálogo:

(Wanda) – Por que me deixaram pra trás cuidando da Barbie?

(George) Essa é…hã…bem fácil. É porque você é homem. Aquela parada que fizeram com…hã…a lua…aquilo era coisa de mulher.

(Wanda) – Eu não sou homem.

(George) – Talvez não para você, mas tem…hã…sabe como é…aquele treco nojento de macho.

(Wanda) – Escuta aqui: eu fiz eletrólise. Estou tomando hormônios. Tudo que restou foi uma protuberanciazinha, mas nada disso importa. Por dentro, eu sou mulher!

(George) – Ela [a Lua] acha que não. Tipo assim…hã…gênero não é algo que a gente possa escolher…no que diz respeito aos deuses.

(Wanda) – Ah, é? Pois essa é uma ideia que os deuses podiam pegar e enfiar fundo em seus retos sagrados. Eu sei o que sou.

O diálogo continua, mas me chama a atenção a forma como Neil Gaiman fecha a argumentação sobre “escolha” e, o melhor, sobre a interferência da religião em torno de algo psicológico e físico. A resposta de Wanda, claro, é a melhor possível. Sua história, embora com destino trágico tem, de certa forma, um final feliz. E a Morte (ah, que simpatia como sempre) está ao lado de Wanda num sonho para Barbie. Quem leu “A Game of You” , digo que vale a pena reler, quem não leu, vale muito a pena se debruçar nessa leitura.

wandadeath

Pensei em escrever este post por causa do conto “Meu Nome é Karina” que publiquei (com temática trans) na coletânea Sci Fi intitulada “Universo Desconstruído” , organizada pela Lady Sbylla e Aline Valek. Ainda não baixou e leu? Clique aqui, faça o download de graça e leia! E como recebi alguns elogios pelo conto, busquei relembrar mais informações sobre como minorias étnicas e sexuais são contempladas (se são) e se quando o são, seus retratos mostram caricaturas de personagens ou personagens com profundidade. Embora breve, esse post já indica o quão é necessário avançarmos social e artisticamente na incorporação de minorias nas histórias em quadrinhos e também no cinema e séries de TV. É uma longa jornada, sem dúvida, mas qual jornada do herói não o é?

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7 pensamentos sobre “A Invisibilidade social nas Histórias em Quadrinhos (atualizado)

  1. Acho que os quadrinhos sofrem do mal geral que as artes costumam sofrer. Vc visou os quadrinhos, eu visei a ficção científica, mas o problema é o mesmo: só se dá importância para que o que é feito por branco cis hetero para o branco cis hetero. O restante é tido como “de nicho”.

    Você lembra do escândalo que muita gente fez quando Universo Desconstruído saiu e nossos contos tinham pessoas trans*. Vi gente parando a leitura dos contos pq os personagens eram trans*. Ué? Tava bom antes, por que ficou ruim de repente? É preconceito velado, que as pessoas muitas vezes se negam a professar. Muita gente prefere criticar sem sequer ouvir falar a respeito.

    A crítica que sempre faço à ficção científica é a mesma que eu vou cansar de fazer: para um gênero que é tido como libertário, que visa o futuro, estamos muito atrasados quando o assunto é a representatividade. E quem tenta fazer o diferente sofre com agressivas críticas vazias como a gente sofreu.

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    • Infelizmente, tenho de concordar contigo, Lady Sybylla. Mas temos de continuar provocando esse pensamento retrógrado e conservador. O que depender de mim, continuarei a fazer.

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  2. A única personagem transexual que me lembro de cara em leitura mainstream é a “Alysia” colega de quarto da Batgirl.

    Demoroa tipo umas 18 edições pra ela revelar que é transgênero.

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  3. Ei! Não conheço a série inteira mas parece, existe a Braga, há uma orc trans. Refiro-me a série de quadrinhos, de fantasia medieval, com 4 heroínas protagonistas: rat queens! Pelo que entendi das quatro mulheres uma delas, a ladina halfling (que seria o mesmo que uma hobbit se não houvesse a necessidade de ter que pagar royalties pelo uso do nome desta raça:p ) é lésbica. Bacana né? protagonismo femininino, personagens lésbicas e trans XD https://geektrooper.wordpress.com/2015/03/26/rat-queens-recebe-premio-por-representacao-lgbt/

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