Literatura de Ficção Científica

Faca de Água de Paolo Bacigalupi: resenha com cointreau

Tenho meus autores preferidos na ficção científica e Paolo Bacigalupi é um deles. Ao lado do China Miéville, são os autores de ficção científica mais recentes que mais aprecio. Ambos tem algo em comum, além do “guarda-chuva” ficção científica onde se protegem: o caráter quase sociológico de suas obras. Mais até do que sociológico, suas obras nos trazem reflexões marginais ou mesmo bem diretas sobre o meio que vivemos. Se, de um lado, Miéville nos traz o ambiente urbano como um protagonista de suas histórias, Bacigalupi faz com que o ambiente natural tragicamente degradado se torne o fio condutor de sua narrativa. Aqui mesmo para o Cabaré resenhei alguns livros de Bacigalupi e Miéville que você pode ler clicando aqui e aqui.

E agora preciso focar em Bacigalupi para esse post. Enquanto Philip K. Dick mergulha de ponta na psicologia social de suas personagens (invisíveis ou transtornados ou bem-sucedidos que descobrem que tudo é ilusório, entre outros), Paolo Bacigalupi traz uma dimensão social onde a percepção de opressão está no ambiente que cerca as personagens. Ao contrário de K. Dick, vislumbramos as angústias das personagens de sua história pela trama sendo conduzida de maneira, de certa forma, distante. É claro que cada escritor tem seu estilo e ambos estão entre os meus preferidos e por isso me permiti fluir nessa comparação.

Mas o ponto que os une, mesmo, é a forma como o mundo que retratam é um mundo sem muitos atrativos, especialmente aqueles que dizem respeito a um “meio ambiente ecologicamente equilibrado”, como apregoa nossa Constituição de 1988.

9788580579437Em “Faca de Água”, publicado no Brasil pela editora Intrínseca, Paolo Bacigalupi nos traz um mundo já sob efeito das mudanças climáticas e, desta forma, padecendo todas as suas externalidades. A trama é conduzida por 3 personagens, “Maria”, “Angel” e “Lucy” num Estados Unidos fragmentado e praticamente em estado de guerra civil. Estados como Texas e Arizona, por exemplo, se tornaram verdadeiros Estados falidos, consumidos por desastres como a seca que os tornou, praticamente, territórios inóspitos. Bacigalupi (assim como Philip K. Dick) nos diz nas entrelinhas de seus textos o que se passou no futuro (nem um pouco distante), buscando não se aprofundar em páginas e páginas “historiando” as tragédias que acometeram aquelas pessoas e aquele lugar. O México, por exemplo, ruiu de vez diante dos chamados “Estados do Cartel”, uma espécie de abominação política e institucional.

Ah, nesse mundo, para efeito de informação, o sonho das pessoas é ir para a China, querem trabalhar e ganhar em Yuan. É, o mundo dá voltas, muitas voltas.

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Paolo Bacigalupi. Será que é fã de ficção científica?

E numa realidade de seca o bem mais precioso é a água. A trama de “Faca de Água” gira em torno dos “direitos de água” e a descoberta de um documento que possibilitaria aos governos de Califórnia, Arizona e Novo México o “direito sênior” em explorar essa riqueza. Sim, neste futuro distópico a água vale muito mais que o petróleo. Paolo Bacigalupi, o tempo todo, reforça o desespero de viver num verdadeiro inferno como aquele. E esse retrato se dá justamente pela incorporação de uma refugiada texana (sim, refugiados climáticos já são uma realidade lá, mas aqui também), “Maria”, na trama. Acho que senti sede em vários momentos durante a leitura do livro. Bacigalupi faz questão de indicar os rastros da violência que perseguem as personagens. Ao lembrar de passagens no livro indicando qual pode ser o destino de personagem A ou B e destino este é ser uma “nadadora”, senti uma crueza, algo visceral na narrativa.

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Na Índia, onda de calor extremo deixa 330 milhões de pessoas sem água suficiente para as necessidades diárias – Ajit Solanki / AP

Outro ponto interessante na trama é como Bacigalupi busca o tempo todo fugir de maniqueísmos. E consegue. É seu maior mérito. Esse controle das personagens que não escapam para um amadora visão de bem contra o mal é muito bem dirigida nos diálogos entre “Lucy” e “Angel” e qualquer espécie de idealismo também é alvejado. Literalmente. O que não significa que morra. O final do livro, para mim, tem justamente essa metáfora explícita.

Recomendo fortemente a leitura de “Faca de Água” de Paolo Bacigalupi e espero que mais e mais livros do autor saiam por essas bandas abaixo da linha do Equador.

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