Literatura/Uncategorized

Os Detetives Selvagens: resenha com cointreau

Tudo que começa como comédia acaba como tragédia.

Não há melhor frase para iniciar esta resenha de “Os Detetives Selvagens” de Roberto Bolaño que esta acima. É ela e outras que se repetem entre as páginas 497 a 513 que melhor definem o que Bolaño, escritor chileno que residiu no México e na Espanha, nos presenteou com “Os Detetives Selvagens”. E este livro, quase inteiro passado no México, especialmente no DF (Cidade do México), pode ser entendido como um presente, especialmente para aqueles e aquelas que desejam sair do papel comum atribuído aos leitores e leitores: a passividade. Digo isto porque a história de “Os Detetives Selvagens” gira em torno de Ulises Lima e Arturo Belano, dois poetas real-visceralistas (que diabos é isto? acreditem, não há quem de verdade consiga definir esse movimento literário mexicano do século XX) que são protagonistas do romance, mas sem sabermos nunca quais são suas percepções de tudo que é narrado no romance.

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E aí reside a mágica de “Os Detetives Selvagens”! O livro é dividido em três partes, a primeira e a última são narrados em primeira pessoa por “Garcia Madero”, um jovem estudante de Direito dado a poesia e a vida poética que a mesma demanda. Entretanto, é na segunda parte da história que verdadeiramente descobrimos porque tantas pessoas comparam Bolaño a escritores como Jorge Luís Borges: assim como Borges, o escritor chileno usa e abusa de descrições e construção de cenários absoluta e absurdamente viciantes, fundamentalmente pela sua capacidade de nos prender página a página do livro, mesmo sem saber exatamente o porque. Na verdade, é nesta segunda parte do livro que Bolaño consegue fazer o que poucos autores e autoras conseguiram: criar um universo de personagens coadjuvantes e, ao mesmo tempo, de protagonistas, de uma riqueza ímpar. Ulises Lima e Arturo Belano, inicialmente, nos são apresentados como dois poetas (no mínimo) excêntricos, bem como o movimento (desacreditado por outros poetas mexicanos) real-visceralista e cuja missão é, verdade seja dita, absurda: encontrar a poeta Cesárea Tinajero, uma vanguardista que teria sido inspiradora do real-visceralista, que desapareceu no deserto de Sonoro, norte do México.

downloadA literatura importa. No fim das contas, Belano e Lima levam ao extremo essa máxima, mas um ponto deve ser esclarecido: nem Belano e nem Lima possuem voz própria na trama, suas vidas e percepções são narradas sempre a partir do ponto de vista de outras personagens. O tempo todo. A segunda parte do livro, “Os Detetives Selvagens (1976-1996)”, é narrado por uma multiplicidade de personagens em inúmeros lugares do Mundo: seja um livreiro na Cidade do México, um fotojornalista em Monróvia, Libéria ou uma estudante esquizofrênica em Barcelona, Espanha. Todos e todas, absolutamente, falam acerca de Belano ou Lima, de forma mais direta ou indireta, em inúmeros relatos que prendem de forma absurda a atenção, ainda mais porque Roberto Bolaño consegue o que poucos autores e autoras conseguem: escrever sobre dezenas de personagens conferindo-lhes percepções e dizeres próprios. Houve, de minha parte, uma ânsia em terminar o livro, ao mesmo tempo em que desejava profundamente que as narrativas sobre Belano e Lima continuassem, nos apresentando personagens absolutamente ricos, mas como diz um trecho do livro de Roberto Bolaño:

Tudo que começa como comédia indefectivelmente acaba como mistério.

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Roberto Bolaño

Como leitores e leitoras, nos tornamos detetives selvagens também, assim como Belano e Lima, afinal, temos de reconstituir toda as inúmeras jornadas dos poetas, algo particularmente difícil devido a suas falas serem ausentes e tudo que sabemos dos mesmos nos chega por meio de terceiros, mas isto é magistral, nos faz imaginar como nunca. Recomendo muito a leitura de “Os Detetives Selvagens” de Roberto Bolaño. E espero ansioso por começar a ler seu próximo livro em minha fila: 2666.

O tipo de romance que Borges teria escrito […]. Um livro original e belíssimo, divertido, comovente, importante.” – Ignacio Echevarría, El País

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