Literatura

Hellraiser de Clive Barker: resenha com cointreau

Há autores e autores que escrevem horror. Digo isto porque no primeiro grupo (aquele que importa) estão os autores que escrevem de uma maneira que verdadeiramente sequestra sua atenção. E, no geral, não fazem coisas mirabolantes nas páginas de seus livros para tanto. Nesse primeiro grupo, para mim, estão H. P. Lovecraft e Clive Barker (e mais recentemente, Josh Halerman), Stephen King também (mas prefiro bem mais Lovecraft e Barker). “Ah, você esqueceu tal e tal autor, isso é um absurdo, bla bla bla”, meu caro e minha cara, é opinião e, no caso, nada mais e nada menos que isso.

Dito isso, me deparar com Hellraiser de Clive Barker na edição luxuosa e sedutora da Darkside e não adquiri-la foi irresistível. A edição de Hellraiser é magnífica: desde a capa, que mais parece um caderno de anotações, até as ilustrações “sujas” no próprio livro. Toda edição de arte de Hellraiser feita pela Darkside merecia um prêmio por si só neste mercado editorial brasileiro com pouca inovação.

Hellraiser-Capa-Final

Dados os elogios rasgados ao trabalho da Darkside, vamos ao que realmente interessa: Hellraiser de Clive Barker. E temos neste livro um clássico do horror no sentido mais puro das palavras “clássico” e “horror”. Se em “Caixa de Pássaros” de Josh Malerman escrevi que toda a tensão da narrativa se dá na percepção do horror e não em sua visão (e de como isso é aterrorizante), em “Hellraizer” temos o oposto: Clive Barker faz questão de descrever o horror que nos atinge – aqui falo enquanto um “personagem”, mas também leitores e leitoras.

Clive Barker nos entrega uma história com uma premissa relativamente simples: até onde você estaria disposto a buscar e atingir o prazer? Essa pergunta relativamente simples traz inúmeras implicações morais para os personagens de Hellraiser. E Barker faz questão que isso fique claro nos diálogos e percepções que ele descreve. “Hellraizer” (ao menos neste livro devo dizer, já que a “marca” dos Cenobitas foi ampliada para outras mídias como Cinema e Histórias em Quadrinhos) trata da história de “Frank” e sua busca pelo prazer, que o leva diretamente aos Cenobitas, entidades sobrenaturais cuja missão é obter o prazer de todas as formas imagináveis e inimagináveis, mesmo que para tanto a agonia esteja diretamente ligada ao êxtase. Numa trama que brinca com a moralidade (falsa e barata), Clive Barker nos apresenta outros três personagens (Rory, o irmão de Frank, Julia, esposa de Rory, e Kristy, amiga de Rory). Não quero soltar spoilers do livro, mas adianto que Barker faz questão de mostrar sutilezas psicológicas envolvendo as personagens que torna a trama ainda mais fascinante, mesmo que saibamos como tudo terminará.

E brincar com a moral, ainda mais envolvendo Cenobitas, é sufocante (no bom sentido). E além de sufocante, Barker nos entrega um desfecho que terminamos por nos envolver com os Cenobitas. Não, não no sentido de querer convida-los para jantar e tomar um vinho em casa – recomendo fortemente não fazer isto – mas no sentido de entender que os Cenobitas são o que são porque são reflexos diretos de nossa humanidade. A diferença é que ultrapassaram em muito os limites psicológicos de experenciar a realidade, não necessariamente morais – necessários para não enlouquecer.

E os Cenobitas? Da forma como são descritos são realmente assustadores?

Sim, são realmente assustadores, imaginá-los é quase um tributo a depravação de qualquer coisa minimamente bela para a percepção usual.

pinhead

Ao final da trama, temos a certeza de que se abertas algumas portas, mesmo que fechadas, elas continuarão a existir. Esperando por outra oportunidade de serem abertas, já que é esta a natureza de suas existências, tal qual os Cenobitas, que existem para infligir dor e prazer no sadomasoquismo potencializado a níveis inimagináveis. E isso assusta ainda mais, ou melhor seria dizer que isso instiga ainda mais querer abrir a caixa de Lemarchand?

 

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