Literatura

Caixa de Pássaros – resenha com cointreau

Está dormindo. Precisa acordar. Mantém os olhos fechados. A preguiça é grande, quer esticar o corpo. Mantém os olhos fechados. Se levanta da cama. Mantém os olhos fechados. Está com sede. Como já repetiu essa mesma cena centenas de vezes, nem precisa tatear o quarto e o corredor que leva a cozinha. Vai até o filtro de barro. Pega uma caneca que está a sua esquerda no balcão da cozinha. Bebe a água. Mais um dia nesse mundo cão. Não abra os olhos ou a loucura entrará na sua vida e só lhe restará a morte, mon ami.

O que escrevi ali não diz respeito a algum deficiente visual ou a uma mulher sonhando. Não. O que basicamente escrevi acima é a tentativa de apontar o caminho das pedras (pontiagudas) de Caixa de Pássaros, livro de autoria de Josh Malerman, publicado aqui no Brasil pela Editora Intrinseca. E caros leitores e caras leitoras do Cabaré das Ideias, que livro!!!!

Caixa-de-Passaros (1)

Caixa de Pássaros é uma história sufocante, repleta de terror psicológico. A trama acompanha uma espécie de surto em alguns locais do planeta, algo estranho e cujo grau de informação é reduzido, o que termina por alimentar inúmeras teorias da conspiração. Único ponto em comum, especialmente depois que uma epidemia de loucura se torna uma pandemia de loucura é a “certeza” de que criaturas estranhas ao nosso mundo, se vistas, nos levam a cometer atrocidades. Consigo próprias e com outras pessoas. E para impedir que isso ocorra é necessário fechar os olhos para tudo.

Josh Malerman conduz a história de maneira a nos deixar, leitores, ansiosos. Sua protagonista me despertou, no início, uma aversão. Era enfadonha e parecia boba. É. Parecia. Malerman produz uma maturidade na protagonista que poucas vezes vi serem realizadas com tanta “naturalidade” no gênero do terror (e até da ficção científica). Ela sai de um mundo cuja normalidade era a regra para um mundo de escuridão auto-imposta. E a trama é conduzida de maneira não-linear e isso permite um dinamismo narrativo perfeito para o clima sufocante do livro. A forma como a protagonista se torna mãe e passa a cuidar de seu filho e filha e a maneira como Josh Malerman vai nos apresentando essa transformação (de uma garota frágil a uma parente do Jason Bourne) é cativante. Sim, cativante. Toda aquela situação não possuia explicação lógica, era baseada em impressões (afinal, ninguém que tenha vista as criaturas conseguiu sobreviver…), não podiamos ter certeza de absolutamente nada no virar das páginas e a maneira que a protagonista disciplina de forma férrea as crianças poderia até gerar um misto de reprimenda, mas naquele mundo de olhos fechados não havia espaço para blá blá blá. Sair para buscar água no poço era uma aventura com real possibilidade de final trágico se, de algum modo, alguma fresta de visão do mundo exterior despontasse.

Caixa de Pássaros de Josh Malerman foi uma das melhores leituras no ano. Devorei-o com os olhos muito abertos e recomendo muito a sua leitura. Não me empolgava com uma leitura de horror desde livros de H. P. Lovecraft. E sim, o livro tem um problema. É curto demais. Poderia ter mais umas 400 páginas ou até mais. Você pode comprar o livro clicando aqui. E se aterrorize.

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2 pensamentos sobre “Caixa de Pássaros – resenha com cointreau

  1. Eu disse que era tenso!

    Recomendo esse livro pra todo mundo que queira se assustar e ficar com cãibras, porque é impossível parar de ler. É impossível virar a página, mas é impossível largá-lo.

    A evolução da protagonista é incrível e a besta que destruiu o mundo fica ao bel prazer da nossa imaginação, já que não há formas de descrevê-la sem morrer. É um livro genial! 😀

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  2. Pingback: Hellraiser de Clive Barker: resenha com cointreau | Cabaré das Ideias

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