História em Quadrinhos

O Mundo de Aisha: resenha com cointreau

Nem sei bem por onde começar essa resenha. Talvez o melhor seja dizendo que ler “O Mundo de Aisha: a revolução silenciosa das mulheres no Iêmen”, publicado pela Nemo, foi uma das melhores leituras no ano de 2015. Talvez até nos anos anteriores. E digo isto porque essa história em quadrinhos se enquadra naquele subgênero que podemos chamar de “jornalismo em quadrinhos” com grandes nomes expoentes como Joe Sacco, Marjane Satrapi e Dan Archer. O jornalismo em quadrinhos, em minha opinião, é uma renovação tanto das histórias em quadrinhos quanto do próprio jornalismo e temos exemplos maravilhosos para ilustrar essa minha opinião, como “Área de segurança: Gorazde”, “Palestina” e incluo como um excelente exemplo o álbum “O Mundo de Aisha” de Ugo Bertotti em parceria com a fotojornalista Agnes Montanari.

aisha

Assim como as obras “Palestina” e “Notas sobre Gaza”, “O Mundo de Aisha” é um mergulho no mundo muçulmano, mas com um olhar focado nas mulheres do Iêmen. Para quem nunca ouviu falar no Iêmen, eis uma notícia deste ano  que saiu na BBC sobre o país do golfo pérsico: “Mergulhado em uma crise sectária sem precedentes, o Iêmen, país localizado no extremo sudoeste da Península Arábica, vive atualmente um ‘vácuo de poder’, com grupos rivais disputando o controle do território que, apesar de empobrecido, tem grande importância estratégica.” Por aí podemos perceber o ambiente socialmente trágico que o país vive. E mais frágil ainda é a condição da mulher nesse país fortemente conservador. “O Mundo de Aisha” acompanha os casos de algumas mulheres (Aisha, Sabiha, Hamedda, Houssen, entre outras mulheres) neste Iêmen.

1183-20150224163209Vou deixar a resenha menos impessoal e passar minhas impressões diretas. É quase uma necessidade. Ler as páginas da HQ foi muito mais que acompanhar o quadro a quadro das histórias, foi como se pudesse estar lá, ouvindo cada uma daquelas mulheres. Estava num Café em Aracaju e a cada relato de violência me revirava. Ficava realmente mal. “O Mundo de Aisha” retrata a vida de garotas que são oferecidas (muitas vezes como mercadorias) em casamento, são violentadas e/ou mortas por seus maridos, sufocadas por um Niqab (o traje completamente preto que as cobre integralmente), tolhidas em seus sonhos e ainda assim fortes. São diversos relatos que compõem a HQ e por ser um retrato da vida contemporânea do Iêmen vemos o choque entre a tradição patriarcal machista e a modernidade, modernidade esta que demanda a participação das mulheres na educação e no mercado de trabalho. E o machismo tem um peso enorme nas páginas da HQ, não é uma piadinha estúpida sobre “mulheres que não sabem dirigir carros”, é sobre homens socialmente moldados a agir como donos das vidas daquelas mulheres, que agem no falso direito de atirar na esposa se ela o desagrada. A HQ mostra o conflito entre as mulheres e os homens, mas também entre as próprias mulheres sobre que papel desempenhar naquela sociedade.  A história de Aisha e sua mãe particularmente ilustra esse caso. Acompanhar esse momento da HQ foi quase palpável. O mais interessante é que as fotografias dessas mulheres foram utilizadas para ilustrar momentos da HQ e me apaixonei por cada um daqueles olhares. Tenho certeza que os leitores e leitoras do Cabaré também o farão.

Ao ler uma das histórias desse mundo, parava, tomava um café e via diversas crianças meninas no Café e as imaginava num ambiente de supressão como aquele e ficava ainda mais horrorizado, mais ainda porque sabia que parte dessa realidade de supressão de direitos femininos acontece bem aqui no Brasil e América Latina. É inadmissível que nós, homens, não apoiemos a ideia de direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres, independente de cor, gênero, etnia, religião. Recomendo muito a leitura de “O Mundo de Aisha”. E que essa leitura e mensagem finque raízes em cada um e cada uma de nós.

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