História em Quadrinhos

5 Histórias em Quadrinhos Sem Capa e nem Cueca por cima da Calça

Para quem não conhece o universo de Histórias em Quadrinhos, quando falamos de HQ o que vem a mente de maneira imediata é o gênero de super-heróis. Em parte essa associação imediata ocorre pela ideia pré-concebida e falsa (e, de certa forma, preconceituosa mesmo) de que ao falarmos de histórias em quadrinhos estamos falando apenas de “revistinhas” de sujeitos fantasiados com a cueca por cima da calça, naves espaciais gigantescas descendo na Terra e com hordas invasoras precisando ser combatidas pela Liga da Justiça ou os Vingadores. Nada mais enganosa que essa percepção.  As histórias em quadrinhos estão muito além de Batman, Superman, Hulk, X-Men, Mulher Maravilha, Liga da Justiça, Capitã Marvel, Homem Aranha ou o Lanterna Verde, entre tantos outros super heróis e super heroínas das histórias em quadrinhos.

Podemos seguramente situar a nona arte, as histórias em quadrinhos, como um grande “guarda chuva” no qual inúmeros sub-gêneros cabem: a ficção científica, o horror, o suspense policial, a biografia, etc. É o mesmíssimo princípio do cinema e da literatura. E tanto o cinema quanto a literatura contribuíram muito para o desenvolvimento das histórias em quadrinhos e, claro, vice e versa, ainda que as histórias em quadrinhos sejam taxadas por ignorância como uma “arte menor”, quando não é questionado o próprio princípio de que as histórias em quadrinhos são arte. Uma bobagem sem tamanho.

Mas para quem gosta de histórias em quadrinhos e quer “ampliar os horizontes”, quais seriam as leituras que eu, Ben Hazrael, recomendaria? Bom, já tem alguns dias que estou com vontade de escrever esse post e fiz uma seleção de 10 Histórias em Quadrinhos que ultrapassam e muito o gênero de super-heróis.

Persépolis de Marjane Satrapi

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Uma das HQ’s mais divertidas e, ao mesmo tempo, mais didáticas que li. Ela retrata a vida de uma menina num Irã em meio a uma revolução (de 1979). Na HQ temos política, religião, feminismo, conflitos familiares, entre outras dinãmicas particulares que a autora, Marjane Satrapi, retrata. Leitura obrigatória.

Bordados de Marjane Satrapi

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Outra vez a Marjane Satrapi. Agora, em Bordados, a quadrinista retrata um universo muito particular: o das mulheres de sua família. O ambiente familiar em Teerã, após o almoço, é o palco de conversas entre mulheres da família de Marjane Satrapi. Ali não há espaço para os homens e tudo é discutido: o machismo que precisam enfrentar, o sexo – ou a falta dele – na vida das mulheres, as agruras e felicidades do casamento, as imposições cada vez mais sufocantes do regime teológico iraniano especialmente sobre as mulheres, entre tantos outros assuntos. Divertidíssimo e vale muita a pena ler também.

Habibi de Craig Thompson

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Habibi foi uma das mais agradáveis surpresas que tive com HQ’s nos últimos anos, especialmente pela habilidade de Craig Thompson em utilizar do Corão às Mil e umas Noites e relatos que poderiam ter saído diretamente de um depoimento de refugiados para contar uma história profunda e emocionalmente forte. De certa forma, pode dizer que ela retrata a jornada do herói de Joseph Campbell, o que para mim foi um indicador muito bom. Mas o interessante de Habibi é que essa jornada é realizada por dois escravos, um menino e uma adolescente. Nessa jornada compartilhada, vamos acompanhando uma narrativa de fatos temporais e atemporais que nos premia com a descoberta das tradições islâmicas e o enfrentamento com a modernidade, a construção e desconstrução dos papéis de homem e mulher, a exploração do trabalho e a degradação das condições de vida de milhões de pessoas em nome de algo que elas nem ao menos conseguem intuir verdadeiramente. Habibi de Craig Thompson é outra leitura fundamental que, assim como as obras de Marjane Satrapi, podem ser perfeitamente utilizados em sala de aula nas mais diversas disciplinas.

A Trilogia do Acidente de Lourenço Mutarelli

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Quem acompanha os posts do Cabaré sabe bem que sou um fã do trabalho do Lourenço Mutarelli, seja como quadrinista ou como escritor. A lógica (ou a distorção dela) em suas histórias me atrai demais, com exemplos fabulosos como Miguel e os Demônios, O Cheiro do Ralo ou A Arte de Produzir Efeito sem Causa. Sou da opinião que Mutarelli importou – de forma meritosa – a dinâmica narrativa de seus romances das histórias em quadrinhos, o que possibilitou o enriquecimento da percepção que Mutarelli nos permite ter e nos instiga a percorrer “para ver o que tem mais nesse pântano de ideias e percepções” que compõe sua obra. Na Trilogia do Acidente, Mutarelli nos apresenta seu anti-herói de marca maior: o detetive canastrão Diomedes. Mutarelli, no melhor de seus delírios artísticos nos entrega uma HQ policial, no qual o protagonista é um sujeito desagradável (e se identifica dessa forma), que trabalha num ambiente desagradável e vive uma vida miserável. Na Trilogia do Acidente, acompanhamos Diomedes, de maneira desafortunada, a investigar “o Enigma do Enigmo”, investigação esta que lhe causará encontros e desencontros, além de mais perder do que ganhar. Para quem gosta de histórias policiais com humor daqueles bem sarcásticos, esta é a HQ.

Do Inferno de Alan Moore

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Há autores e autores de histórias em quadrinhos. Alan Moore faz parte daquele grupo que está no último andar dos mais criativos e provocativos autores de histórias em quadrinhos. Embora sua carreira tenha se iniciado no gênero super heróis, Alan Moore há muito deixou de ser associado exclusivamente a esse filão das histórias em quadrinhos. Para ilustrar com um exemplo dessa habilidade temos aquela que considero sua segunda melhor HQ (a primeira é V de Vingança): Do Inferno. Nessa HQ, acompanhamos a Inglaterra na sua segunda metade do Século XIX, em plena Era Vitoriana e quem é um dos personagens históricos mais famoso desse período? Sim, quem pensou em Jack – o estripador. Alan Moore constrói umas das histórias em quadrinhos mais densas que tive o prazer de ler. Ao lado de Eddie Campbell (o ilustrador), reconstrói historicamente aquele período, situa a trama em momentos registrados em documentos oficiais e, quando menos esperamos, faz a história e seu protagonista transitar para uma metalinguagem que, poucas vezes, tão bem me surpreenderam. É uma obra fundamental que deve estar na prateleira para ler e reler.

Robert Crumb, um dos quadrinistas mais provocativos e indomáveis

Robert Crumb, um dos quadrinistas mais provocativos e indomáveis

Além destas, posso citar outras como Asterios Polyp de David Mazzucchelli (que você pode ler uma resenha que escrevi clicando aqui), o Neonomicon escrito por Alan Moore baseado nas obras de H. P. Lovecraft (que você pode ler uma resenha que escrevi pro Cabaré ao clicar aqui), Guadalupe de Angélica Freitas e Odyr (que também recebeu resenha aqui para o Cabaré e pode ser lida clicando aqui), entre varias outras. Hoje o mercado brasileiro de HQ’s está muito melhor em sua diversidade, o que permite que mais e mais obras autorais vão surgindo. É um cenário promissor, ainda mais quando pensamos que editoras como a Companhia das Letras criou até um selo específico para as histórias em quadrinhos, a Quadrinhos na Cia. Essa diversidade de publicações só tem a ampliar o publico leitor. Ainda bem.

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Um pensamento sobre “5 Histórias em Quadrinhos Sem Capa e nem Cueca por cima da Calça

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