Literatura

A Menina Submersa: memórias – resenha com cointreau

Olha, faz um tempo danado que não publico nada por essas bandas virtuais do Cabaré. E não foi por falta de vontade. Vontade tinha até demais, o problema – se é que foi um problema – se chamou “Graça Infinita“, livro de David Foster Wallace. É sério. Fiquei tão, mas tão impactado pela leitura daquele “livro de destruição em massa” que travei na produção de resenhas. Não tive a famosa “ressaca literária”, mas tive a ressaca de resenha literária. Acho que foi tão bom passar horas pensando em como escrever uma resenha minimamente interessante sobre aquele livro que, depois de feita e publicada, fiquei sem força pra escrever qualquer outra resenha. E vejam bem, li alguns livros depois de “Graça Infinita”. Posso até citar de memória: Planeta dos Macacos do Pierre Boule, Nada a Esperar do Lourenço Mutarelli, Aniquilação de Jeff Vandermeer, A Menina Submersa: memória, entre outros. E foi “A Menina Submersa: memórias” (publicada pela Darkside Books) foi – ao lado do livro do Mutarelli – o único livro que me instigou a fazer uma resenha. E cá estou eu envolvido na análise breve, mas ainda assim uma análise desse livro que, já tenho de dizer, me deixou muita, mas muita dúvida em como classifica-lo.

111Num exercício que ando fazendo de ler mais autoras mulheres, me deparar com a obra de Caitlin R. Kiernan (recomendação da Lady Sybylla, Capitã do Momentum Saga – puxadinho da Enterprise) foi uma grata surpresa. Ela escreve bem, muito bem mesmo. A Darkside Books foi muito certeira em deixar estampada na capa a frase de Neil Gaiman: “poucos escrevem como Caitlin”. E, como já deixei claro, concordo integralmente com ele. Suas personagens são muito bem construídas e, sem alguém busca ler uma ficção que contemple diversidade, encontrou o livro certo. As personagens femininas são muito fortes (imaginem, uma protagonista cuja namorada é uma mulher transexual) e os personagens masculinos apenas pairam na história. Caitlin R. Kiernan tem essa habilidade de deixar as palavras fluírem tão bem que termina por permitir (ou impõe?) ao leitor e a leitora, ao final do livro, uma sensação de inquietação (bom, ao menos eu tive): caramba, que livro bom, mas como vou classificar essa porra, pela Força?

Pois é. Aí que reside a questão. “A Menina Submersa: memórias” é um livro muito bom, mas ele é um livro que flutua entre o estranho e bom e o estranho e complicado e, talvez dependendo do humor, entre o estranho difícil de bom de aceitar (entender, entende-se, mas aceitar é outra coisa). Mas calma. Primeiro uma apresentação da trama: Seguimos a narrativa de India Morgan Phelps (IMP), narrativa esta entremeada de sobrenatural, esquizofrenia, paixão, amor sobrenatural, delírios e devaneios, arte, companheirismo e tragédia familiar. Muita coisa, não? Pois é, são as memórias de IMP e ela reconhece, desde o início – ao dialogar consigo mesma ao redigir as memórias – que essas memórias não são inteiramente confiáveis, seja por um kármico histórico familiar (que ela compartilha tragicamente) de enfermidades mentais que levaram sua mãe e avó à morte, seja pela assombração que passa a lhe seguir. E sabe a partir de que? De uma gentileza de IMP. E sabe o que passa a assombra-la? Uma pintura.

Um dos melhores aspectos de “A Menina Submersa: memórias” é justamente este: você começa a ler e tem certeza que é a esquizofrenia e paranoia que conduzem a narrativa de IMP, daí você lê mais um pouco e muda de ideia, “bah, ela é assombrada mesmo pela porra de uma fantasma filha de chocadeira com cramunhão de garrafa”, daí a leitura avança mais um pouco (embora a narrativa não seja linear) e você volta a acreditar que IMP é um caso clínico clássico de esquizofrenia e paranoia. O mérito maior de Caitlin R. Kiernan é justamente “brincar” com nossas certezas que perpassam as páginas que lemos. Não fique seguro, meu camarada Jedi, ela poderia me dizer. E seria uma excelente dica. A maneira como ela conduz a trama, permeada de referências culturais (algumas puramente nerd) é mais um atrativo para a leitura. Um exemplo? Em determinado momento, IMP diz possuir um parentesco distante com sabe quem? H. P. Lovecraft. Isso mesmo e esse parentesco tem um contexto muito bem justificado. OK, ela já me conquistou nessa parte. Tal qual Lovecraft já o fez em obras como “O Estranho Caso de Charles Dexter Ward“, Caitlin R. Kiernan nos entrega um horror psicológico em “A Menina Submersa: memórias”.

Caitlin R Kiernan

Caitlin R Kiernan

OK, mas e aí? O livro é bom ou não é? “A Menina Submersa: memórias” é um livro muito bom sim, mas a dúvida que tenho reside na sua densidade. É sério mesmo. Finalizei sua leitura já tem umas 2 semanas e ainda não sei se o livro deveria ser maior ou menor (em páginas). Estranho não? Talvez tenha sido a intenção da autora. Nos deixar essa sensação de inquietação, tal qual a sentida por IMP (e há momentos do livro que, pela Força, são horripilantes em seu impacto psicológico da cena) em todas as páginas do livro. Deveria IMP viver mais sua assombração ou abandona-la? Pergunta sem sentido? Leiam e entenderão.

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Um pensamento sobre “A Menina Submersa: memórias – resenha com cointreau

  1. Eu fiquei digerindo esse livro por dias! Mudei a classificação dele várias vezes, porque fiquei super inquieta também. Não sabia como classificar, não conseguia chegar a uma conclusão sobre o final, não conseguia digerir o livro.

    E tenho minhas dúvidas se não foi totalmente intencional deixar o leitor nesse perrengue. Ela nos manobra tão bem, que a gente chega a acreditar que até as obras de arte do livro realmente existem. Imagina a minha cara quando eu pesquisei no Google e necas, né?

    De qualquer maneira, sair da zona do conforto foi muito bom. Esse livro é leitura obrigatória. 😀

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