Literatura

Graça Infinita de David Foster Wallace: resenha com cointreau

Se há algo que gosto de fazer é entrar numa livraria e ficar vasculhando as prateleiras, buscando alguma obra que não tenha a mínima referência para poder experimentar uma leitura sem viés algum oriundo de alguma resenha que li em algumas das dezenas de blogs de literatura que sigo fielmente ou não. Descobri muitos autores interessantes assim: Ana Paula Maia, Paolo Bacigalupi, China Miéville, Ernesto Sábato, Reinaldo Moraes e poderia citar vários outros e outras autoras. É uma espécie de momento de investigação-dedução e, porque não dizer, também sorte. Claro, você olha a capa de um livro, lê rapidamente a sinopse e te fisga a atenção ou não. Acrescento uma “técnica” que emprego há bons anos: abro aleatoriamente uma página final de capítulo/tópico e vejo como o autor/autora encerra. Se for bem humorado, ácido, em geral eu levo o livro, mas é claro que esse tipo de final vai depender – e muito – do estilo literário. Um livro de horror, por exemplo, vai ser difícil terminar um tópico usando de humor ácido estilo Chuck Palahniuk. E porque estou discorrendo sobre essas “técnicas” para introduzir essa resenha sobre Graça Infinita de David Foster Wallace? Bom, a resposta sincera é que o autor passou por todos os critérios que elenco pra arriscar comprar um livro de autor (até então) desconhecido. E o resultado? Bom, vamos lá.

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Graça Infinita é um verdadeiro tijolo de concreto, seja na quantidade de páginas ou no peso do livro e, ainda mais, na densidade de sua narrativa. E é quanto a essas última que aviso aos navegantes literários: quem se deparar e se aventurar por suas páginas vai adentrar, seguramente,  uma das maiores obras literárias do século XX e aqui não estou fazendo resenha chapa branca. Foi a minha impressão mesmo. Senti essa sensação com poucos outros livros e, para dizer a vocês, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, a primeira comparação de “magnitude de impacto literário” que fiz foi com Ullysses de James Joyce. Não é pouca coisa, acreditem. E do que trata, especificamente, Graça Infinita? Comecei a leitura do livro com esse tipo de pergunta e, no desenrolar dos dias do Ano da Fralda Geriátrica Depend, percebi que era uma pergunta sem sentido, sem sentido justamente porque a narrativa de David Foster Wallace “não dá bola” pra esse tipo de pergunta para esse tipo de livro. Mas há, minimamente, um road map do livro:

“Os Estados Unidos e o Canadá já não existem: eles foram substituídos pela poderosa Onan, a Organização de Nações Norte-Americanas. Uma enorme porção do continente se tornou um depósito de lixo tóxico. Separatistas quebequenses praticam atos terroristas e a contagem dos anos foi vendida às grandes corporações.”

Ao ler esse trecho de uma “sinopse” você pode pensar que o livro trata de uma ficção científica, numa típica distopia tão cara ao gênero. Ledo engano. Até pode ser uma distopia na medida em que você entender que o que vivemos hoje é também uma distopia, seja nos EUA, no Canadá, no Japão, na África do Sul ou no Brasil. David Foster Wallace nos arremessa numa realidade que parece futura, mas é presente. Está tudo lá naquele tijolo de concreto de ideias: empresas gigantescas controlando o rumo da sociedade, uma sociedade vazia e, porque não dizer, doente, aflita, em busca de paraísos perdidos dentro de cada indivíduo por meio de programas de tv e filmes, drogas, sejam legais ou ilegais, um meio ambiente poluído e degradado que é a casa de todos e uma baita casa suja no caso e, no meio de tudo isso, uma família completamente disfuncional conduzindo/permeando a trama: Os Incandenza. E quando digo disfuncional é disfuncional mesmo: já de início podemos perceber isso na forma como os Irmãos Incandenza (Hal, Mario e Orin) interagem com o mundo, com a própria família e se veem como sujeitos de ação/inação. Os personagens são tão disfuncionais que há passagens que insinuam diretamente o incesto, por exemplo. Há uma passagem logo no início de Graça Infinita que diz muito sobre essa disfuncionalidade: Hal Incandenza sendo entrevistado em uma seleção para ingressar na universidade e, de um mutismo “ensurdecedor” passa a um monólogo completamente delirante que cita de Kiekegaard à Camus, perfazendo um verdadeiro estado de colapso nervoso.

A trama de Graça Infinita demanda atenção porque ela não se prende ao que é vendido: há um filme produzido pelo patriarca dos Incandenza, James Incandenza, que se torna uma espécie de “arma de entretenimento”: o filme fisga a atenção das pessoas e elas não conseguem deixar de vê-lo e definham por isso. E essa notícia corre entre militares e separatistas do Quebec. Mas daí você pode se perguntar: então há, de certa forma, um thriller político em Graça Infinita? Longe, mas muito longe disso.

A narrativa, que ora segue em primeira pessoa do singular, ora na terceira pessoa do singular, é conduzida pelos irmãos Incandenza e por Gately, um ex ladrão e viciado que luta desesperadamente para não voltar ao vício e a vida decadente que levava antes de entrar para o A.A. E é esse último personagem que vai tomando conta da narrativa com o passar das páginas (e são muitas, incluindo notas ao final do livro), você vai lendo e lendo e se perdendo, se reencontrando, vez ou outra com vontade de mandar David Foster Wallace tomar no cú (palavrão bem expresso) com sua prolixidade, querendo saber aonde que o infeliz quer levar a porra do livro, porque não é mais sintético, mas depois você é fisgado pela trama novamente e entende porque ela é do jeito que é, ela é anti-entretenimento, ao mesmo tempo que entretém, mas quem conduz tudo isso? é o autor ou o leitor/leitora? E o que me deixou impressionado é que David Foster Wallace usa a narrativa de situações comuns que poderiam ocorrer a qualquer um e qualquer uma nessa vida ou em qualquer outra para retratar obsessões (do pai pela filha, da ex viciado pela droga, dos cadeirantes separatistas pela liberdade que não teriam mesmo libertando o seu país, etc), e você dá boas gargalhadas (e ri muito) diante daquilo que lhe vem à mente, toda aquela balbúrdia e perdoa David Foster Wallace. Você vai contabilizando a quantidade de coadjuvantes completamente excêntricos em situações inusitadas e se identifica, se horroriza, se solidariza, se apaixona também pela “Madame Psicose”, “sente na pele” o desespero de Gately, não quer entender o que diabos C.T e Avril, a “Mães” (isso mesmo, no plural, mesmo sendo uma única mulher, daquelas dominadoras. Há uma passagem do livro que esse estilo é sufocante, num jantar oferecido pelos Incandenza a namorada de Orin, Joelle van Dyne, a mesma Madame Psicose) tem, volta a se identificar com Gately e seu sofrimento ao final do livro que não lhe traz redenção alguma, só humor daqueles britânicos para apontar que realmente a vida não tem sentido algum e isso num ciclo que David Foster Wallace nos presenteia Graça Infinita é um delírio, no fim das contas, e um delírio só existe porque estamos consciente dele em algum momento. Portanto, nada mais natural que se suicidar para se livrar da consciência, como o tenta fazer uma das personagens de Graça Infinita. E há trechos da obra que isso me parece nítido demais, especialmente aqueles que dizem respeito a situação que um ex-viciado tem de enfrentar pra ficar sóbrio e como ele/ela narra o que vinha antes do vício, o durante e o depois.

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David Foster Wallace

Se você pensa que os personagens estão atrás do sentido da vida, saiba que devem ter descoberto que não tem sentido a vida, e isso não é necessariamente bom ou ruim. Só não tem muito sentido pensar em sentido da vida. Graça Infinita é um livro daqueles que marcam. E me marcou. Já está entre os meus 10 livros preferidos (independente de gênero). Caso queira comprar o livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, e se aventurar por esse delírio literário, clique aqui. E tenha certeza que não há esse sentido na vida que poderia imaginar.

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5 pensamentos sobre “Graça Infinita de David Foster Wallace: resenha com cointreau

  1. Desde que você disse que estava lendo esse livro que fiquei curiosa, mas ele está lá no Kindle enquanto me preparo psicologicamente para ele. rs

    A escrita intensa que vc descreveu é capaz de me desconcertar um pouco, então pretendo lê-lo com mais calma, sem pressão ou é capaz que eu o abandone, como fiz com o Murakami (e ainda não voltei, que vergonha).

    O enredo me pareceu muito interessante. Às vezes a gente se depara com uma literatura tão insípida, mesmo daqueles estilos que a gente mais gosta, que quando se depara com um livro desses acaba tento as múltiplas reações que você teve. 🙂

    Ótima resenha, mestre! 😀

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    • Capitã, escrevi essa resenha e a reli umas duas vezes e, a cada vez que a releio, mais lembranças da experiência literária me volta a mente. Realmente é uma leitura densa que, no meu caso, não foi rápida e nem deveria ser. Fui mergulhando na narrativa conforme as próprias personagens mergulhavam em suas histórias. Respire fundo e conte quantas cabeças e corpos tem na sala, é o que posso te dizer 🙂

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  2. Oi Ben,
    Esse é um livro que quero muito ler desde que lançou. Mas ainda não tive coragem de adentrar no calhamaço. A sinopse me atraiu, os comentários de algumas pessoas também, entre outros fatores também. No entanto, sua resenha me convenceu totalmente. Parabéns pelo texto e pela análise. Gosto deste tipo de livro que nos tira dessa estagnação da literatura atual e nos leva mais uma vez para um patamar mais alto.
    Ah, também me apaixonei por China Miéville, grata surpresa que tive ano passado.
    Abraços.

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  3. Pingback: A Menina Submersa: memórias – resenha com cointreau | Cabaré das Ideias

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