História em Quadrinhos/Literatura/Literatura de Ficção Científica

Individuação Junguiana e 7 Leituras Inesquecíveis e Impactantes

Lá vou eu escrever sobre leituras impactantes e inesquecíveis (e vice e versa, ou seja, um verdadeiro oroborus tostines) novamente. E provavelmente faço isto por ser um exercício da memória, exercício este que me possibilita olhar para trás e perceber o agora, com suas transformações e, em especial, com as novas percepções. Definitivamente, venho gostando e muito desse “mergulho”, ou melhor, imersão, talvez até pela necessidade atual de promover um exercício de “individuação”.

jungA individuação, em suma, é um processo, uma dinâmica arquetípica que não necessariamente se estabelece de maneira “ordenada” e mesmo consciente. Jung dizia:  “O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado à assim chamada função transcendente…”. Esse processo, como disse, não é necessariamente ordeiro, mas inflige ao indivíduo o encontro (e a resistência) com sua “sombra”, numa dinâmica que, dada a nossa atenção, nos possibilita nos por diante das imagens primordiais e que pesam, do ponto de vista emocional, mais ou menos a toda pessoa. Acima de tudo, acredito, o processo da individuação nos possibilita trazer o que está fora (o mundo) para mais perto de nós (o indivíduo) e, por isto, esse processo é tão intenso. Acho interessante uma passagem (de uma obra de Jung, especificamente “Tipos Psicológicos” que saiu no Brasil pela Editora Vozes, assim como toda a obra de Jung) que reflete muito o que a literatura (enquanto mundo) nos apresenta (para nós, indivíduos), já que ela, no fim das contas, é um veículo de inúmeros arquétipos (assim como toda a arte):

“Uma vez que o indivíduo não é um ser único mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente.”

E reforço, então, esse papel que a literatura permite de nos relacionarmos, coletivamente, de maneira mais intensa e abrangente com o mundo que nos cerca. Penso isto a partir da reflexão das leituras que mais me impactaram, seja do ponto de vista científico, seja do ponto de vista da arte, duas linguagens que buscam se relacionar e explicar, com maior ou menor intensidade, o mundo que nos envolve. E aí me surge algumas histórias em quadrinhos e livros, que estão entre os meus preferidos (ou mesmo não incluídos no meu Top 5).

Um primeiro exemplo que me vêm à mente de imediato é “Sidarta” de Herman Hesse. É um livro fabuloso, posso seguramente dizer. Nele, acompanhamos a jornada de Sidarta (não confundir com Sidarta Gotama, o Budha, embora o mesmo se faça presente no livro), uma jornada que diz respeito a esse processo de individuação (minha leitura e entendimento), individuação pautada no confronto com a Sombra que envolve o personagem, mas que poderíamos atribuir ao próprio Hesse. Em “Sidarta” podemos fazer essa leitura inquietante, no qual tanto Sidarta, o personagem do livro, é Hesse, quanto Hesse é uma faceta de Sidarta.

O segundo exemplo segue um mesmo caminho de mistura entre personagens nesse processo de individuação, mas sem o “sucesso” de Hesse. Aqui falo de “VALIS” de Philip K. Dick. Se em “Sidarta” de Herman Hesse temos um personagem que percorre uma difícil jornada e ao final encontra, de certo modo, a paz, no caso de “Valis” de Philip K. Dick não há essa “vitória final”, muito longe disso. Horselover Fat, o personagem de “Valis”, é Philip K. Dick, mas falta à jornada de individuação de Fat (Philip K. Dick) a razão pregressa à individuação. Horselover Fat vê sua própria consciência se desmanchar, espalhando-se pelos bueiros de insanidade que aumentam conforme as páginas do livro “VALIS” avançam, tragando qualquer chance de superar as imagens arquetípicas que consumiam o próprio Philip K. Dick.

Já o terceiro exemplo que tenho é o de “A Erva do Diabo” de Carlos Castaneda. Um livro, sem dúvida, que marcou não apenas antropólogos, mas também usuários de alucinógenos pelo mundo e não usuários, mas fascinados pelo processo de individuação que viveu o próprio Castaneda ao lado do brujo yaqui Don Juan. Neste livro, ou melhor, nesse processo de individuação, podemos observar o choque das visões de mundo (e são elas que fazem a diferença) entre a Ciência e a Religião, um nó górdio que, ao ler o livro, percebi ser muito mais fácil de desatar do que poderia parecer (mas é claro, experenciar é uma coisa, ler sobre essa experiência é outra coisa bem distinta). E Don Juan estimula em Castaneda justamente esse “desatamento do mundo” ao confrontar os arquétipos para além da sua visão estreita que carrega da limitada experenciação de mundo da Ciência (sem demérito no que digo).

Meu quarto exemplo se dá nas histórias em quadrinhos com “Promethea” de Alan Moore.  Nessa HQ, Moore nos presenteia com uma fantástica história transbordante de meta-linguagem. Promethea, literalmente, é um arquétipo que existe e o existir, aqui, é um existir pautado na imaginação. O princípio, basicamente platônico, é: o que imaginamos pode ser reflexo do que já existe ou o que existe é um reflexo do que já existe na imaginação. Imaginação esta, meus caros, que é uma imaginação compartilhada, tal qual o inconsciente coletivo e os arquétipos junguianos são compartilhados pela humanidade. Em Promethea, Alan Moore nos traga para essa multi-realidade e, por meio de sua protagonista, nos apresenta uma realidade carregada de símbolos que, aparentemente, não carregam nada de mágico em si mesmos. É aí que nos enganamos e as páginas de Promethea, propicia-nos uma jornada que não apenas é de Promethea, mas também de seu escritor, desenhista, arte-finalista e de nós, leitores.

O quinto exemplo também é das histórias em quadrinhos. “Planetary” de Warren Ellis é uma viagem ao longo do século XX, afinal, os protagonistas da história em quadrinhos denominam-se “Arqueólogos”. É uma metáfora interessante que Warren Ellis utiliza porque Elijah Snow, Jakita Wagner e o Baterista percorrem, ao longo dos 4 volumes publicados no Brasil pela Panini, a estrada da cultura no século XX, no já não tão distante século passado. Nessa jornada, Elijah Snow precisa enfrentar sua sombra e padecer num processo de individuação que, literalmente, lhe arrancou memória. Quase que homenageando os grandes escritores que mergulharam nos alucinógenos para “se descobrir como indivíduos”, Snow também o faz. Essa HQ (acho que no volume 3), em especial, é uma das mais poderosas metáforas que Ellis deixou plantada na sua HQ.

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Para variar, o sexto exemplo é outra história em quadrinhos. “Os Invisíveis” de Grant Morrisson. Nesta HQ temos a meta-linguagem como passaporte para conhecer a verdadeira realidade. Seus personagens são o que poderíamos chamar de “desajustados” sociais: Jack Frost, um adolescente marginal que pode vir a se tornar o Buda Maitreya da Tradição Mahayana, Lord Fanny, uma travesti xamã brasileira, entre outros fantásticos personagens. Morrisson brinca com nossa afetada visão da normalidade o tempo todo em “Os Invisíveis”: o que é pervertido é o que é correto e justo e o que é normal é o que há de perverso e injusto. Jack Frost e Lord Fanny, por exemplos, passam por processos de individuação verdadeiramente dolorosos, por figuras arquetípicas junguianas (poderíamos dizer) e que lhes arrancaram mais do que sangue, mas pedaços de suas psiques, reconstruídas para gerar “novos” indivíduos. “Os Invisíveis” é uma HQ sobre esse confronto da humanidade com sua Sombra e, por isto só, já é uma leitura fabulosa.

Por fim, meu sétimo exemplo novamente vem da literatura. É “Duna” de Frank Herbert. Um dos meus livros preferidos e que me chocou absolutamente por me apresentar uma realidade na qual o processo de individuação não apenas foi necessário individualmente, mas também uma necessidade da relação do indivíduo, Muad’Dib, para com o mundo, os Fremen e o Império. Paul Atreides, o Muad’Dib, para passar por esse processo de individuação precisa aceitar o preço, preço que poderia lhe custar a própria vida, mas o mergulho que necessitamos fazer não espera menos de nós e o Muad’Dib é consciente disso, aspecto este que Frank Herbert deixa claro ao narrar o momento em que o Muad’Dib bebe da Água da Vida e a Presciência lhe é descortinada. Aí reside uma das melhores metáforas junguianas, me permito entender e deliciar, que há na ficção científica.

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Existem outras leituras, mas fico por aqui. Provavelmente, pela própria natureza e objetivo do que aqui escrevi, um dia atualize este post. 🙂

 

 

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