Literatura

Caim e o (In)Evitável Mal

2015 se iniciou e o ritmo de leituras continuou tão alto quanto em 2012, 2013 e 2014, mas não posso dizer o mesmo sobre a produção de resenhas desses livros e HQ’s para o Cabaré das Ideias. Provavelmente a causa seja a quantidade exorbitante de energia psíquica sendo empregada no trabalho de professor e pesquisador. Mas uma leitura, em particular, me “obrigou” e tirar um tempo para refleti-la não apenas no transcorrer das páginas, mas ao final delas: Caim de José Saramago. Embora conhecesse o trabalho do escritor português, vencedor e merecedor de um Nobel de Literatura, por obras como “O Homem Duplicado”, “O ano da morte de Ricardo Reis”, “Ensaio sobre a cegueira”, nunca havia lido suas obras sobre “personagens da religião”, como se configuram os livros “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e, claro, “Caim”. Optei por “Caim”, admito, pelo sedutor tom provocativo da personagem, isto, reconheço, oriundo das minhas leituras e interpretações sobre esse maldito personagem da Torah.

caim-jose-saramago

Saramago, hoje na “Terra dos Pés Juntos”, era um ateu confesso. E mais: era um conhecedor da Bíblia Hebraica e Cristã (que possuem suas diferenças, especialmente da interpretação que resulta delas, algo que podemos observar bem na leitura do Talmud ou nos textos dos Patriarcas da Igreja) e este conhecimento ele utilizou muito bem na condução sarcástica da trama de “Caim”.  Saramago, por meio da sua característica escrita com parágrafos longos entremeados de sentenças e diálogos que podem ser verdadeiros monólogos e vice e versa a depender do estado etílico da leitura, nos conduz pela odisséia bíblica do que os judeus chamariam de Torah e os cristãos chamariam de Pentateuco. Há o Éden, há o “fruto proibido”, há a Queda da Humanidade, o Mundo Pré-Diluviano e, principalmente, há D’us. Se temos Caim, aquele que cometeu o primeiro assassinato na “história da humanidade”, ops, quer dizer, na literalmente literária e não literal “história” da humanidade, temos também o Criador, D’us. Em “Caim”, temos verdadeiramente o filho de Adão e Eva como protagonista, mas é um protagonismo velado, afinal, no momento que comete o assassinato de Abel e recebe de D’us sua “sentença”, os dois personagens passam a compartilhar da mesma história.

278400José Saramago nos apresenta o motivo do assassinato de Abel, o que não isenta Caim de sua responsabilidade, mas começa a nos permitir vislumbrar uma outra faceta contraditória, egoísta e perversa de D’us. E é por Caim, agora um amaldiçoado, que podemos vislumbrar que divindade é esta: sanguinária, vingativa e ciumenta, muito ciumenta. E se foi por ciúmes que Caim matou Abel (pausa: me lembro que li, acho que no Talmud, que o verdadeiro motivo do assassinato de Abel por Caim seria o desejo deste por sua irmã gêmea. Deixe-me explicar: Abel deveria se casar com a irmã gêmea de Caim e Caim com a irmã gêmea de Abel, mas por um destes infortúnios da paixão, Caim se apaixonou por sua própria irmã gêmea e sabemos o que resultou disto), D’us se mostrou tão ciumento quanto Caim, ou, na verdade, muito mais ciumento. Criador e criatura são reflexos um do outro. Mas o que Saramago nos traz é um Caim que passa a transitar pelo tempo e pelas narrativas (da destruição de Sodoma e Gomorra e ao Êxodo passando, anteriormente, pelo Dilúvio) e questiona absolutamente D’us, em especial pela “justiça torta” que aplica.

O acúmulo de tragédias observadas, debatidas em meio ao sarcasmo e a incompreensão de Caim, é o que termina por definir Caim e também o que lhe inflige a escolha final de como enfrentar os desmandos dessa divindade surda à razão e é essa razão que, ao final do livro, perdemos todos, inclusive Caim. Mas será mesmo que perde a razão? Seis dias depois de encerrar a leitura de “Caim”, ainda tenho a sensação que a escolha dele (digna de um filme Tarantiano), enquanto personagem, foi a mais razoável. O mal como arquétipo de uma entidade que tanto fornece o mal como o protege dele é inevitável. O debate entre o Masdeísmo (religião originária da Pérsia e que nos legou o texto sagrado Avesta e praticada ainda hoje por uma minoria no Irã e Índia e na diáspora Ocidental) e o Judaísmo Rabínico sobre a procedência do Mal, se de D’us apenas (assim como o Bem) ou o Mal como algo dissociado de D’us e oriundo de uma entidade exógena (como seria o Diabo ou, para os masdeístas, Ahriman) está em “Caim”, camuflado nos julgamentos de Caim sobre as ações de D’us (e ao final do livro é patente esse debate e a escolha de Caim de confrontar D’us foi espetacular, ainda que Caim soubesse do preço ético que pagava e tanto cobrou do Criador).

Caim e o primeiro assassinato

Caim e o primeiro assassinato

A grande diferença entre o mal de Caim e o mal de D’us é que o primeiro, pelo exercício da razão, pode reconhecer o erro que cometeu e a partir dessa reflexão reconstruir-se em cima de uma ética pautada na racionalidade dos atos, mas quanto a D’us, não lhe é possível esse exercício, pois sua Onisciência lhe impede de ver em paralaxe suas ações e consequências (como disse anteriormente, para D’us, em seu perfeito egoísmo, algo “impossível”). Definitivamente, “Caim” de José Saramago é uma leitura inquietante e que merece novos olhares e leituras. “Caim” de José Saramago foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Abaixo, um pouco da visão de José Saramago sobre D’us e a crueldade da Onisciência e Onipotência.

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