Realidade Overpower

Blogagem Coletiva: Eu Sou do Tempo…

Cá estava eu precisando atualizar esse cabaré de nerdices e sem muitas ideias, ou melhor, muitas ideias, mas muita falta de objetividade quando, de repente num tweet sobre outro assunto (meu/minha personagem favorito da literatura), Lady Sybylla do Momentum Saga me convidou a participar dessa blogagem coletiva muito intimista porque lida com o que persegue qualquer devoto do Muad’Dib: o tempo. A primeira frase do blog do puxadinho virtual da Enterprise (Momentum Saga que você pode ler clicando aqui) é: “você é do tempo de que?” Nada mais provocante, não?

A ideia de relembrar nossa trajetória é sempre interessante, especialmente para nos reconectarmos com nossos antigos “eu” que habitam os tantos passados que vivemos. É, para falar de “meu tempo” preciso admitir que minha percepção é um pouco, quer dizer, bastante fluída. Dada essa observação, preciso me ater ao quem era e quando era. E aqui iniciamos minha jornada (que não deixa de ser “do herói”, diz este leitor de Joseph Campbell).

O ano era 1978. O Irã passava por uma turbulência política graças à CIA que impôs ao país persa um ditador sanguinário, o Xá Reza Pahlevi. Meu pai jogava futebol em algum clube profissional, minha mãe, impossibilitada de estudar ou mesmo trabalhar pelo nomadismo profissional do meu pai, numa época que se discutir igualdade de salários entre homens e mulheres por exercer as mesmas profissões era algo mais próximo dos livros do que do dia a dia das mulheres brasileiras e latino americanas, de forma geral. Em 1984 lia meu primeiro gibi, uma HQ do Incrível Hulk. Em 1986 me descobri apaixonado pela Simonny do Balão Mágico e chorei pra cascalho quando ouvi um boato de que ela teria morrido (estava apenas doente). De mudança de Goiânia para Cuiabá, em 1987, assisti a final de basquete masculino entre Brasil e EUA nos Jogos Pan Americanos e me fissurei por basquete (para desgosto do meu pai, atleta de futebol).

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Em 1987 assistia SuperAmigos e tive minha infância solapada quando, tolamente, juntei trocados que ganhei da minha mãe e comprei um número da HQ Batman – O Cavaleiro das Trevas, encerrava ali minha infância lúdica. Nesse mesmo ano pedia enlouquecidamente para minha mãe – meu pai, podem deduzir, era ausente por opção da minha vida e de minha irmã – chocolate “Surpresa” que vinha com fotos de animais e toda criançada colecionava (ao menos meus/minhas colegas de escola). Sou do tempo que assistir Karatê Kid na Sessão da Tarde e imitar “Daniel San” era obrigatório, bem como assistir a todos os filmes da Sessão da Tarde (já viram “Despedida de Solteiro” com Tom Hanks? Nunca que hoje aquele filme passaria na Sessão da Tarde, o que é uma pena, já que hoje só passam aquelas comédias imbecis com Adam Sandler). Sou do tempo que imaginava que matérias como OSPB (Organização Sócio-Política Brasileira) era “meu sonho de consumo” de estudante do antigo “primeiro grau” (e hoje sei que era uma matéria chapa branca, mas OK, o nome era legal e até entendo que desde a infância goste realmente de estudar política, agora profissionalmente na área de Políticas Públicas Ambientais).

Sou do tempo também que os comerciais de TV pareciam ser mais inteligentes (aí não sei se é saudosismo meu, não sei, realmente). Por exemplo, até hoje utilizam jargões como “não é uma brastemp” ou num profundo portunhol a nababesca frase “usted no precisa de la garantia, la garantia soy yo!”

Cartas_Correio-de-Krypton1Sou do tempo que não havia infinitude de blogs para se discutir histórias em quadrinhos e aguardávamos ansiosos pelos gibis com as “Cartas dos Leitores” e também sou do tempo (que felizmente acabou) de aguentar um delay de 2, 3 e às vezes até 5 anos das histórias do Batman, Liga da Justiça, Novos Titãs, X-Men e Demolidor entre o que se publicava nos EUA e o que estava sendo publicado no Brasil pela Editora Abril. Sou do tempo que revirar sebo em busca de livros e gibis era a única alternativa para um nerd. E por falar em nerd, sou do tempo que se reconhecer como alguém que gosta de Guerra nas Estrelas e Jornada nas Estrelas (assim se falava na década de oitenta e mesmo majoritariamente na década de 1990) e de gibis era algo considerado infantil e idiota (e o mundo dá voltas, né?!). Sou do tempo que para assistir Arquivo X, era preciso esperar sexta feira “religiosamente” na frente da TV ligado na Record. Sou do tempo que se esperar pelo mais novo disco da Legião Urbana (o disco V ou Música para Acampamentos ou O Descobrimento do Brasil, eu na frente da loja de discos com o dinheiro contado pra levar o bolachão, afinal, CD era um luxo ainda) ou do Pink Floyd (the Division Bell que, inclusive, estou escutando agora enquanto escrevo esse post) era algo absolutamente normal e, acho eu, necessário para meu caráter :p

O interessante de se observar em retrospectiva esse “eu sou do tempo…” é que, ao mesmo tempo em que tudo isso mudou, pouca coisa mudou quanto ao que poderia ser a identidade que carrego. Esse tipo de post deveria se repetir de períodos em períodos para ver o que se ganha e se perde, se podemos dicotomizar nossa (s) identidade (s). E, como disse Lady Sybylla, essa blogagem não tem validade, assim como o tempo.

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