Literatura/Realidade Overpower

Quem é você? e o que a literatura pode ajudar a te responder

Acredito que há dias em que decidimos trocar o bar pelo livro ou por um filme. Acredito que quando estamos bem e mais maduros e maduras, esse tipo de decisão não incorre em nenhuma “crise” de “porra, podia estar no buteco, tem umas gurias interessantes pra conhecer e blá blá blá” e agora tu tá aí com o Murakami, caceta!”
É, esse tipo de pensamento deve ser muito comum para quem está solteiro e “na balada” ou “na pista”. Já passei por isto várias vezes, confesso. Acho que é noimagermal. Mas acredito que a maturidade permita fazer com que essa “troca” traga uma reflexão interessante justamente sobre quem você é, mas não apenas quem você é agora, mas quem você já foi um dia. A arte tem essa capacidade de ser uma ferramenta de auto-reflexão, justamente por trazer a “autonomia do sentir” que é conectada às outras pessoas que escolhemos compartilhar essas reflexões. Daí penso que a literatura tem essa condição, enquanto arte, de ser um verdadeiro “fio de Ariadne” que nos permite nos reencontrar. Não tenho dúvidas que a música desempenhe a mesma função e as histórias em quadrinhos também, mas aqui, bom, aqui falo da literatura por sentir nela essa condição de maior receptividade a minha pergunta: como observar minha construção enquanto indivíduo? A literatura me ajuda a responder melhor, especialmente quando decido relembrar meus livros. Sim, aqui é onde posso chamar estes livros universais de tantos autores e autoras como meus, já que fazem parte de minha jornada.
Sempre. Sempre penso em quais livros me ajudaram a “me fundar” e mesmo pontualmente a me ajudar a enfrentar situações que passei. O primeiro que sempre surge é “Duna” de Frank Herbert. Já me perguntei o porque várias vezes, mas aceitei sua “primazia”. A razão, pelo que deduzo, é que uma obra literária é muito de seu autor e sua trajetória (para bem e para mal) e, no caso de “Duna” de Frank Herbert, o que temos foi o esforço magnífico de um autor (e sua companheira, por acreditar nele e em seu trabalho) e a sua persistência. Quando li que “Duna” foi recusado umas 23 vezes (não sei exatamente o número), me espantei. “Como assim?” As razões foram várias (número elevado de páginas, uma ficção científica, personagens que consomem drogas e são “heróis”, etc), mas Frank Herbert persistiu. Quando li “Duna” da primeira vez, já sabia que me mudaria de Cuiabá e que isso não seria fácil. Muitas dificuldades viriam e, acreditem, mirei no exemplo do MuaD’ib nas tantas andanças entre as regiões do Brasil. A ideia de que podemos, de certas formas, deter presciência, me jogou um dia literalmente no meio fio de uma avenida de Cuiabá. E sem Melange pra me ajudar a enfrentar as percepções que vieram da realidade que eu mesmo começava a desenhar.
“A Náusea” de Sartre me cativou de vez o vício da leitura e, especialmente, me fez me identificar com personagens perturbados que enxergavam buracos no espelho do banheiro ou que sentiam um certo mal-estar quase como algo metafísico. Ler “A Náusea” reforçou a percepção de que a realidade é construção e reconstrução, de forma consciente e inconsciente, em conflito e em cooperação, nossas explicações e mais explicações sobre o mundo, ah, meus caros e caras, não era nossa existência, nossa porra de existência. Hoje quando releio “A Náusea” sempre busco alguma outra perturbação que possa ter deixado passar e ela está lá, mas no final das contas, cada um e cada uma se torna essa Náusea. E agradeço que tenha sido “A Náusea” e não “O Cortiço” que tenha lido entre os meus 15/16 anos de idade. As razões, ao menos para mim, eram muito óbvias.

Outro livro perturbador (ou melhor, com personagens perturbados) e aqui tenho de confessar que são estes que me cativam mesmo foi “Sobre Heróis e Tumbas” de Ernesto Sábato. Na verdade, ali, era o “livro dentro do livro” chamado “Relatório sobre os Cegos” que me fascinou completamente. Se em “A Náusea”, o personagem de Roquettin consegue “dominar” a náusea (uma grande metáfora para muita coisa na vida), no “Relatório sobre os cegos”, Fernando Olmos é desequilibrado e não quer dominar nada, mas sim experenciar seus delírios. Sua forma de ler a realidade é sabidamente “errada”, mas a maneira como ela nos é narrada e a convicção que nos é apresentada, me acorrentou por seu cinismo e o cinismo e a ironia são chaves para desconstruir visões de mundo. Fiquei alarmado com esse livro, essa é a verdade. Vez ou outra, releio passagens que grifei (por isso reluto em ler e-books) e me delicio alarmado com a crueza de sua percepção do mundo.
Ao escrever algo ou mesmo quando leciono, sei que um pouco de Olmos e Roquettin estão ali. Assim como a visão perturbadora de “O Homem do Castelo Alto” de Philip K. Dick, que li e reli enquanto fazia Mestrado em Ciência Política no Recife e Doutorado em Ciência Política em São Carlos. Simplesmente a ideia de que o mundo – com todos os seus problemas – poderia ser um verdadeiro inferno me apavorou intelectualmente. A Alemanha Nazista e o Império Japonês vencerem a Segunda Guerra Mundial me apavorou mesmo. Fiquei dias e dias conjecturando Idéias a respeito. E lendo teóricos da democracia como Stuart Mill para concluir categoricamente: a democracia é imperfeita, mas é melhor que qualquer outra coisa que já inventaram (acho que Churchill disse algo assim). Não foi nenhum grande cientista político que me mostrou que aquela era minha profissão, atuar como cientista político, mas Philip K. Dick e “O Homem do Castelo Alto”.
Enquanto escrevo esse post, vou reconhecendo que personagens perturbados são mais a regra que a excessão da minha preferência literária. Digo isto porque esse realismo que nos cerca precisa ser fantástico de alguma forma. Aqui penso no “gato Kauamura”, coadjuvante de uma história fantástica de Haruki Murakami no livro “Kafka à beira mar”. Um senhor conversa com gatos. É isso.

image Imagine: um dos personagens principais do livro conversa com gatos. E o “gato Kauamura” não fala coisa com coisa porque sofreu um acidente que o deixou meio “lelé” das ideias. Pela Força! Fiquei extasiado com essa história, era esticar e romper essa realidade massacrante do dia a dia que a sociedade nos demanda e nós demandamos da sociedade para manter o “fio de Ariadne da normalidade” sã e salva. Estava vivendo sozinho (ainda vivo na cidade e espero viver muitos anos mais) numa cidade sem família e amigos e amigas da Velha Guarda e das Boléias e precisando me adaptar, mas me sentindo muitas vezes “alienígena” aqui em Maceió, onde essa normalidade cobra seus preços, mas pensei, porque não ter um “gato Kauamura” para trocar ideias? Ainda não o tenho. Ainda, mas ao menos Freud e Jubg, meus cactos seguram a barra. Hoje me sinto muito melhor, mas essa vontade de um dia simplesmente voltar a rodar aparece vez ou outra, assim como a solidão de “quem tem vista pro mar”. Parando pra pensar, “Kafka à beira mar” é um livro que retrata muito do que sinto e isso até assusta. Merece ser lido mais uma vez.
Poderia citar mais e mais livros que me dizem coisas do passado e do presente e quem sabe até do futuro, mas acho que ficarei por aqui. Esse post foi um desabafo que agradeço a @AGKuhner do Twitter me recomendou fazer. Fiz e gostei. E espero que quem ler, também goste e até faça uma retrospectiva introspectiva como esta.
Maktub!

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2 pensamentos sobre “Quem é você? e o que a literatura pode ajudar a te responder

  1. Compartilho contigo as impressões sobre Duna. Quando o li, durante os meses que demorei para lê-lo, uma verdadeira avalanche desabou sobre a minha vida em plena época de crescimento pessoal (tinha 21 anos). Até hoje, em meus sonhos, Duna (como o objeto livro) costuma aparecer com significações diferentes, dependendo da situação! Obrigado pelo ótimo texto!

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  2. Pingback: Como a literatura me define | Casa da Ceinwyn

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