Literatura

O que a Chimananda Ngozi Adichie me disse?

Certa vez, enquanto caminhava pelo campus da Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte, escutei uma guria me chamar: “oi, oi!” Me virei e a vi com mais dois sujeitos. Pranchetas em mãos, pensei: “lascou, querem me oferecer algum cartão de crédito ou me perguntar da moradia estudantil” Não era nem um caso e nem outro. Era uma pesquisa sobre como as pessoas se identificavam enquanto “raça”. Achei interessante e, para sorte, estava com tempo para responder aquele questionário gigantesco (pelo que me lembro). Primeiramente, aquelas perguntas básicas sobre nome, grau de escolaridade, local de residência e bla bla bla. E, trocando em miúdos, a pergunta: “e com qual raça você se identifica?” Confesso que fiquei sem saber responder. Por fim, disse que devia ser pardo. A moça me disse que não, eu deveria me considerar negro. Estranhei a imposição da minha “raça” em sua fala e perguntei o porque. Ela me disse que eu tinha traços nítidos de um negro e minha pele era negra. Lembro (essa experiência foi em 2009) que peguntei para ela se alguém do oriente médio, por exemplo, deveria ser chamado de negro. Ela ficou sem responder. Fiz outra pergunta, agora informando que minha família por parte de pai era negra e indígena e por parte de mãe branca e de lá, sim, do oriente médio. Como deveria me enquadrar? Ela não soube me responder. Eu disse a ela que nem eu tinha uma resposta pronta e acabada. Em algumas viagens internacionais que fiz, passei por alguém do Oriente Médio, especialmente porque uso a barba comprida e tenho um baita dum nariz (e acreditem, depois dos ataques terroristas em New York em 2001, as caras que as pessoas fazem em aeroportos para quem parece um árabe é pouco agradável). Não havia me sentido como negro ainda. Ao encerrar a entrevista, disse a ela que me sentiria muito bem como negro também e até brinquei: negro e árabe, imagine como ficou boa essa mistura!

americanahEssa história pessoal voltou por uma razão: terminei a leitura de “Americanah” de Chimananda Ngozi Adichie. Que livro! Primeira coisa a se dizer do livro é como foi impecavelmente bem escrito. Uma trama envolvendo personagens cativantes e com histórias humanamente envolventes. Ifemelu e Obinze são protagonistas dessa história dentro de suas histórias, acompanhamos suas trajetórias na Nigéria desde o colégio, passando pelo período da faculdade e suas vidas no estrangeiro, especificamente nos EUA e Inglaterra. De um lado, temos Obinze, sua personalidade cativante e propenso ao sucesso, mas se tratando da vida, muitas vezes o que queremos não foi necessariamente combinado com ela e a narrativa de Chimananda vai nos apresentando como as agruras da vida podem destruir e reconstruir alguém e como a felicidade, seja lá o que isso for, sempre será impermanente. Mas é com Ifemelu que “Americanah” se concentra e isso é fundamental para a própria trama do livro. Ifemelu vai morar nos EUA e é mais uma estrangeira na “terra da liberdade” e lá, meus leitores e minhas leitoras do Cabaré das Ideias, que a personagem precisa demonstrar toda a sua força. Acompanhamos passo a passo as agruras de Ifemelu, uma mulher negra e estrangeira num país onde a “raça” é o divisor socioeconômico dos EUA. Se Ifemelu individualmente quando chega aos EUA não se importa com a questão “raça”, socialmente essa questão da raça lhe é imposta.

“Americanah” é permeada das experiências de Ifemelu (as boas e as ruins) e quando devorava suas páginas, me perguntava sobre como essa questão da raça (algo construído socialmente, já que biologicamente não temos essa divisão por mais que racistas a almejem) se faz presente no Brasil (e na Colômbia, posso assegurar), na verdade, está escancarado para quem quer ver. Por exemplo:

“Entre a população negra, a taxa de desemprego é maior que entre os brancos. Segundo dados do estudo Retrato das desigualdades de gênero e raça, do Ipea, enquanto o desemprego atinge 5,3% dos homens brancos, entre os negros, o índice chega a 6,6%. Entre as mulheres, a diferença é ainda maior. Entre as brancas, o desemprego é de 9,2% enquanto entre as mulheres negras, ultrapassa os 12%.” Fonte: Revista Exame.

Rendimentos médios reais recebidos no mês

Raça/Cor Renda média
Brancos R$ 1.607,76
Negros R$ 921,18
Brasil R$ 1.222,90

Fonte: Anexo estatístico da publicação Políticas Sociais

E não para por aí: a Taxa de analfabetismo é duas vezes maior entre os negros. Poderia continuar a discorrer sobre esse abismo existente entre negros e brancos no Brasil e, infelizmente, não seria nenhuma novidade. Embora Chimananda Ngozi Adichie não nos apresente dados quantitativos nos EUA (até mesmo porque não era seu objetivo), podemos absorver, por meio de sua escrita como arte, toda essa desigualdade e mais: ela vai nos chacoalhando sobre como encontramos subterfúgios para escondermos nosso racismo (sim, nosso, cada um e cada uma que vive essa realidade de segregação é passível de comportamento racista). E, embora o cenário seja os EUA, podemos perfeitamente importar o “modelo” social que ela escrutina.

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Chimananda Ngozi Adichie: como não se apaixonar por essa mulher?

“Americanah” é um livro ótimo e é um livro ótimo porque seus méritos são diversos, seja da narrativa e construção das personagens e diálogos (há momentos que gostaria de esgoelar tanto Obinze quanto Ifemelu por suas cabeçadas), mas se posso apontar um mérito maior é nos dar de presente uma necessária reflexão (entre outras, como que “África” é esta que tanto falam como se fosse única?!) sobre raça, racismo e oportunidades para as mulheres. Tudo isto não é pano de fundo do livro, é a própria razão de ser de sua obra. Nota 10.

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