Literatura de Ficção Científica

A Cidade e a Cidade de China Miéville: resenha com cointreau

Vamos fazer um experimento. Se você, leitor e leitora do Cabaré das Ideias, é de ancestralidade japonesa ou extremo oriental de maneira geral (mas poderia ser indígena nhambiquara, judaica, árabe, maya, etc), talvez essa ideia não tenha muito sentido (você pode pensar a situação inversa), mas caso não seja, permita-me iniciar a resenha de “A cidade e a cidade” de China Miéville com este exemplo:

“Você está em São Paulo, precisamente no MASP e precisa chegar ao bairro da Liberdade, precisamente na rua Galvão Freire, numa agência do Banco Bradesco. Para chegar mais rápido, opta pelo metrô. Chega ao Bairro da Liberdade, desce na Estação de mesmo nome e se encaminha até a agência de seu Banco. Só que tem um problema, quer dizer, é e não é um problema. Você é judeu do bairro do Bom Retiro. O problema está nisto? De forma alguma. A questão é: para chegar a agência do Bradesco, você não pode ver nada que caracteriza o Bairro da Liberdade, nada de restaurantes chineses ou japoneses ou koreanos, nem suas pessoas. Você precisa desviar o olhar e evitar contato com essas pessoas. Por que? Porque essas pessoas estão numa sintonia diferente e, para ser mais exato, elas estão num plano de realidade diferente do seu. E vê-las é infringir uma das regras mais fundamentais de convívio entre as duas realidades e te traz de castigo a Brecha. Mas como é possível ver e não poder ver algo?”

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China Miéville: renovando a ficção científica?

China Miéville, por “A cidade e a cidade” recebeu inúmeros prêmios literários, entre os quais o Hugo, World Fantasy e o British Science Fiction Association. A história transita entre a ficção científica e a fantasia urbana com muita maestria. Esse jogo literário entre subgêneros é alimentado por uma típica história policial: uma jovem estudante de doutorado é encontrada morta na cidade de Beszél, uma cidade-Estado em algum lugar do Leste Europeu. Um investigador, Tyador Borlú, é designado para investigar o assassinato e se depara com um caso cada vez mais estranho, mas talvez não mais estranho que a cidade que vive, Beszél, e sua contraparte urbana, Ul-Qoma. O motivo da estranheza? As duas cidades ocupam o mesmo espaço geográfico e são monitoradas de forma rigorosa pela Brecha, uma entidade superior tanto a Beszél quanto a Ul-Qoma, que não permite que as pessoas de uma cidade e outra interajam entre si, o que constitui um crime mais grave até que o assassinato. Ambiente inovador para desenvolver uma trama policial clássica, não? Miéville também nos presenteou com uma narrativa em primeira pessoa do singular e, mais interessante, a história nos é narrada por alguém que fala o idioma de Beszél, mas escreve em inglês. Ao ler o livro (mesmo que traduzido para o português) sentimos como a apropriação da língua de Alan Moore funciona de maneira a enriquecer (e nos estranhar em alguns momentos) a percepção do personagem-narrador. A boa tradução de Fabio Fernandes permitiu manter esse aspecto à obra.

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Mas “A cidade e a cidade” é, antes de qualquer coisa, uma excelente metáfora da história presente. Muros dividem países, seja entre EUA e México, Israel e Palestina, ou entre Grécia e Turquia. Embora tenha feito um hipotético exercício sugerindo o Bairro da Liberdade em São Paulo, poderíamos fazer esse exercício em qualquer cidade, especialmente com bairros pobres que cercam lugares socialmente atrativos ou mesmo vendo, ou melhor, “desvendo” moradores de rua que vivem (ou melhor, sobrevivem) nas médias e grandes cidades brasileiras e latino-americanas. Essa divisão metafórica entre Beszél e Ul-Qoma reflete muito a própria formação crítica de Miéville, o que enriqueceu e muito a capacidade de nos narrar, por meio dessa Sci FI + Fantasia Urbana, as implicações das divisões sociais para o próprio bem-estar da sociedade. Recomendo a leitura de “A cidade e a cidade” e também o exercício de ver e “desver” a cidade (in) visível que nos cerca, queiramos ou não.

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Um pensamento sobre “A Cidade e a Cidade de China Miéville: resenha com cointreau

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