História em Quadrinhos

Promethea – uma filosofia em quadrinhos

“There are 1000 comic books on the shelves that don’t contain a philosophy lecture and one that does. Isn’t there room for that one?”

Alan Moore, respondendo a críticos da HQ Promethea

Me lembro que há anos debato com o Hell (do blog Melhores do Mundo) qual a maior obra de HQ do Alan Moore. De um lado, defendo que é V de Vingança, do outro, o Hell defende que é Watchmen (embora tenha a impressão que Do Inferno superou Watchmen para ele). De uma forma ou de outra, nosso debate se pautava em torno de HQ’s indubitavelmente espetaculares, especialmente do ponto de vista de suas narrativas e prosa. Com o tempo, passei a desenvolver aquelas listas (os terríveis top 5) das minhas histórias em quadrinhos preferidas e quais as minhas HQ’s preferidas de autores específicos como Grant Morrisson, Garth Ennis e, claro, Alan Moore.

Como o barbudo fez aniversário essa semana, pensei em escrever esse post. E não, não seria sobre Watchmen, que na minha lista de maiores obras de Alan Moore figura apenas na quarta posição, logo atrás de uma das melhores HQ’s que pude ter o prazer de ler e aprender: Promethea.

images (4)Conheci a HQ Promethea de Alan Moore e J. H. Williams III no antigo e “falecido” mix da Pixel Magazine. Não sabia nada da HQ e quão surpreso fiquei com a qualidade do roteiro (na verdade, me surpreenderia o contrário, mas Alan Moore já deu as “derrapadas” como roteirista, na verdade, por exemplo, escrevendo WildCats e, veja bem, acredito que a coisa melhorou muito nessa HQ depois que ele tomou as rédeas, mas é outra história). Havia um experimentalismo ali que, para curiosos e curiosas do Ocultismo, estava escancarado. Ah, como lembro de aguardar “religiosamente” a edição da Pixel Magazine todos os meses, essencialmente para ler Promethea e Planetary, mas daí veio a bomba do cancelamento da revista por parte da EdiOuro e, bom, lá se foi a leitura de duas das minhas HQ’s preferidas (estão no Top 10). Por algum motivo me recusei a fazer download das HQ’s e tive de esperar viajar para a Argentina e depois para o Chile (ambas mochilando) para comprar 4 volumes publicados em espanhol pela Norma Editorial.

E como foi satisfatório poder voltar a ler Promethea.

E agora vou explicar um pouco de porque considero essa HQ uma estonteante obra literária.

Promethea tem como protagonista a estudante universitária Sophie Bangs. Ela vive numa realidade meio retrô, na qual sua Nova York parece uma cidade que exala alucinógenos por seus bueiros. J. H. Williams retrata um clima muito soturno em Nova York, bombardeada por informação a todo momento, em todo lugar. O ano de 1999, no qual se passa a história (publicada entre 1999 a 2005), foi um momento propício para a história que Alan Moore queria contar, afinal, neste mesmo período os moradores e as moradoras das grandes cidades temiam sinceramente o “bug do milênio”, uma espécie de apocalipse modernizado e, por falar em Apocalipse, ele tem tudo a ver com Promethea.

promethea-immateria

Alan Moore, em Promethea, “joga” o tempo todo em sua narrativa com elementos de Ocultismo.  Basta passar página por página para perceber isto e não é apenas pelas claras referências nos diálogos, é na própria narrativa e na forma como os narrados e narradas e quem os lê se posiciona na leitura. É metalinguagem pura, claro. Promethea é uma figura de metalinguagem, afinal de contas. Aqui devo reconhecer que toda a minha leitura de Promethea foi e muito baseada nas leituras que fiz da obra de Jung. Promethea é um arquétipo e, como arquétipo, vive sua jornada da heroína na “pele” de Sophie Bangs.

Este é um ponto interessante a ser observado: as mulheres em Promethea, além da protagonista, são sujeitos próprios, com histórias próprias e não satélites em torno da história de algum personagem masculino. Longe disso, até mesmo porque Promethea nunca foi uma mulher apenas, mas várias ao longo dos séculos, desde o Egito Antigo que começava a sofrer, do ponto de vista religioso, um processo cruel de mudança social (leiam a origem de Promethea e saberão) com a ascensão do Cristianismo.

download (1)Alan Moore usa e abusa de símbolos na HQ Promethea como talvez nunca tenha feito tanto e com tanta maestria. O Gorila Chorão, por exemplo, perpassa todas as HQ’s, ilustrando (na forma de deboche) suas críticas ao materialismo presente que nos impulsiona a buscar soluções sempre fáceis e felicidades mais instantâneas que nissin miojo, mas são os elementos místicos que mais chamam a atenção mesmo. Em um momento, especialmente, é sufocante e inebriante a leitura, quando Promethea abandona Malkuth e ruma, sefirot por sefirot, até Kéter, conduzida tal qual o foi Dante no Inferno por Virgílio. Aqui estou falando da Árvore da Vida, símbolo máximo da Cabala Judaica que foi desenvolvido em obras como o Zohar e o Bahir. Alan Moore se apropria da Cabala Judaica para nos apresentar esse mundo imaterial que está tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Esse momento da jornada, inclusive, conta com uma história curiosa quando J. H. Williams III ilustrava a passagem de Promethea por Daath.

Eu estava desenhando uma viagem pela Árvore da Vida da Cabala, e estava me aproximando do clímax da história, quando os personagens tinham que atravessar os limites da escuridão, pra chegar em lugares de formas mais elevadas da realidade, passando por uma dimensão destruída no caminho…

Alan me ligou, dizendo que eu poderia ter alguns problemas físicos ao desenhar essa parte da HQ, pois ele mesmo se sentiu muito mal ao escrever o roteiro e só melhorou depois que terminou seu trabalho e parou de mexer na história.

Alan acreditava que os pensamentos sobre essa dimensão negativa e maligna se manifestou fisicamente, e ele acabou experimentando todas as sensações ruins que os personagens da HQ deveriam ter passado devido a sua viagem pela Cabala… E achou por bem me avisar sobre isso.

Quando comecei a desenhar a passagem, quanto mais eu me aproximava do momento em que mostrava o buraco negro e a passagem negativa da vida que levava até a Árvore, sentia dores no peito.

E quanto mais eu desenhava o buraco negro, piores as dores ficavam, acabei indo ao hospital pra fazer um exame, e os médicos disseram que eu tivera um pequeno ataque cardíaco, mas que não detectaram nada que pudesse ser a causa dele.

A medida que fui terminando e me afastando das páginas que mostravam o buraco negro as dores foram passando até sumirem por completo…

Depois de alguns dias conversei com Mick Gray sobre isso, e ele me disse que enquanto fazia a arte final dessa parte, todos na sua casa ficaram muito mal, com um surto de gripe.

 promethea1

Tenso, não? Pois é. Há na Wikipédia um bom resumo e curiosidades sobre Promethea e o trabalho de Alan Moore na construção da história e na inspiração de J. H. Williams III teve para muitas das capas da HQ. Sugiro fortemente a leitura de Promethea. Melhor: leitura e releitura, porque a cada leitura, descobrimos mais, não necessariamente sobre Promethea, mas sobre nossa própria imaginação que é, no final das contas, de onde ela vem.

 Promethea é uma leitura e obra tão interessante que resultou na Tese de Doutorado de Carlos Manoel de Hollanda Cavalcante. No caso, inclusive, você pode acessar o material da tese clicando aqui.

PS: Segue a preferência de obras de Alan Moore: 1) V de Vingança; 2) Do Inferno; 3) Promethea; 4) Watchmen; 5) Liga Extraordinária; 6) Monstro do Pântano…

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2 pensamentos sobre “Promethea – uma filosofia em quadrinhos

  1. Sensacional!
    (Quem, hoje, possui os direitos de Promethea no Brasil, hein?!)

    Do Top 5, Promethea é a única que nem sequer passei os olhos. Espero que, assim como Do Inferno (que ganhou um incrível encadernado – já encomendei o meu), o mesmo aconteça com Promethea.

    Achei da hora o post!
    Até!

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  2. Eu tenho uma coisa esquista com a Alan Moore… tenho livros dele na estante comprados a eras de saber quem ele era/é em termos de tudo que foram comprados pelos sebos da vida pelo simples fato de que sentir que os livros estavam chamando o meu nome, mas que nunca foram lidos… A incompleta Promethea publicada pela ediouro entre esses títulos… Na ultima vez que participei do BookCrossing Blogueiro coloquei Promethea na pilha, no ultimo momento vacilei e ele voltou para minha estante… e agora você me conta essa história sobre o livro… eu que sou uma pessoa com o pé no fantástico fico ainda mais instigada com o livro, agora é que ele não sai da minha estante mesmo… cedo ou tarde sei que estarei lendo… e procurando meios de completar a coleção!

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