Literatura de Ficção Científica

Perdido em Marte de Andy Weir: resenha com cointreau

Sou daqueles que ao ver qualquer livro sobre Marte numa prateleira de livraria, já me lanço a revirar suas páginas para saber se devo ou não comprar. Definitivamente, Marte me fascina desde criança. E imaginem a surpresa ao me deparar com “Perdido em Marte” de Andy Weir. Garanto a vocês, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias: bati o olho e nem fui ler sinopse do livro, corri para o caixa e o comprei. É claro que esse comportamento pode ser explicado por já ter ouvido falar desse livro (e que o mesmo já teve direitos cinematográficos adquiridos pela Fox e será dirigido por Ridley Scott e estrelado por Matt Damon) e tudo que ouvi só fez com que realmente me animasse a lê-lo. Passada a emoção da compra e o interlúdio de leitura (já que terminava “Deuses Americanos” de Neil Gaiman), vou apontar porque este livro é bom e, também, um suspiro na ficção científica de impacto social.

Pera! Como assim, “um suspiro na ficção científica de impacto social”? Simples. Há um debate (meio frescurento na minha opinião, mas ele existe) envolvendo uma questão literária: a ficção científica morreu? No caso, morreu de inanição? Essas perguntas derivam da besteira, ops, da impressão de que nada mais foi feito, de significativa qualidade, depois do cyberpunk. Exatamente! Como se William Gibson e sua Trilogia Sprawl decretasse, mesmo sem querer, que nada mais havia a ser contado (e ficção científica, como literatura, trata de contar, narrar histórias) e, por isto, nada de significativo adviria da boa e velha ficção científica, ainda mais uma sci fi mais “pura” (já que a sci fi é um gênero literário diversificado e mais ou menos propenso a mergulhar em hard science), que soubesse misturar ciência e narrativa de forma a contar uma boa história (já li muita gente criticando as distopias por serem mais fáceis de escrever. Bobagem também de quem, provavelmente, nunca se arriscou a escrever nem um conto miserável de três páginas no Word). E quão bom não foi começar a ler “Perdido em Marte” e me deparar sim com uma ficção científica “mais hard” e, ao mesmo tempo, empolgante!!!

perdido em marte

Andy Weir dividiu sua narrativa entre o diário de bordo de Mark Watney, astronauta que por um infeliz acidente se vê sozinho em Marte após seus companheiros e companheiras astronautas partirem, após o considerarem morto por uma tempestade de areia no Planeta Vermelho. Além do diário de bordo narrado em primeira pessoa, há a narrativa em terceira pessoa do singular envolvendo os cientistas na Terra atordoados com a morte do astronauta e, depois, com a descoberta de que o mesmo estava vivo e, claro, dos astronautas que regressavam a Terra depois do acidente “fatal”. Mas é o diário de bordo de Mark Watney que nos prende a atenção mesmo. Andy Weir conseguiu construir uma personagem cativante e bem humorado diante de uma situação de completo desespero. Imaginem a situação: você está sozinho num planeta que possui uma tênue atmosfera, a água (aparentemente) se encontra nos polos e congelada e você está beeeeem distante dos polos do planeta, você descobre que tem alimentos até, no máximo, um ano (e olha lá) e ainda por cima perdeu contato com a Terra. Tenso, não? Pois é. E é em meio a essa tensão que o diário de bordo de Mark Watney vai nos apresentando essa situação tenebrosa (entre outras que surgirão no desenrolar das páginas) e sua habilidade de McGyver para sobreviver em Marte até estabelecer contato com a Terra e, especialmente, para escapar de Marte.

Atardecer-en-Marte

Atardecer-en-Marte

Você vai lendo e lendo o livro, rindo do humor cinzento do astronauta, se perguntando como ele pensou nesta e naquela solução para o problema X e Y que surgiram (infelizmente) e é aí que reside a habilidade literária de Andy Weir: nos apresenta soluções científicas para problemas reais, desde como plantar batatas em Marte até pilotar veículo de exploração que deveria percorrer, no máximo, 30 kilometros e se vê rodando mais de 3.000 kilometros marcianos. Tudo isto narrado com bom humor (personagem se viu preso num planeta e para descontrair precisava assistir seriados da década de 1970 que sua Comandante deixou para trás) e preciosidade científica (diferente de preciosismo). “Perdido em Marte” é um excelente e divertido livro. E uma ficção científica das mais representativas de que pensar cientificamente (seja no campo da Física, Astronomia, Botânica ou outra Ciência) não é algo chato, longe disso, é atrativo e nos permite trabalhar a imaginação, esta um combustível essencial para se fazer boa ciência. “Perdido em Marte” de Andy Weir foi publicado, no Brasil, pela Editora Arqueiro.

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