História em Quadrinhos

Mulheres e Histórias em Quadrinhos

Se há um “espaço nerd” estilo “Clube do Bolinha” é aquele das histórias em quadrinhos. Particularmente, ouvi durante a minha vida nerd que “histórias em quadrinhos são coisas de menino”, especialmente aquelas HQ’s que envolviam super-heróis. Parte dessa conversa terminava numa dicotomia estranha (ao menos pra mim): meninas que gostam de ler HQ’s devem ler Turma da Mônica e Disney. E só. Os meninos podem ler Batman, Homem Aranha, Superman, X – Men, Liga da Justiça, etc. Essa divisão, é clara pra mim, não “vem de graça”. Ela deriva daquela ideia de que há brinquedos para meninas e para meninos, repousada no velho mantra do machismo de que, desde cedo, cada sexo e gênero deve saber exatamente seu lugar. E esse lugar, do ponto de vista do valor que damos a ele, sempre entrega às meninas um papel de subserviência e, se possível, algo que remeta a tarefas caseiras. Exemplos: “brincar de casinha” com utensílios de cozinha, “cuidar das bonecas bebês”, entre outras “adequadas” limitações impostas socialmente às meninas. A nós, meninos, cabia o espírito aventureiro, devidamente cultivado nas brincadeiras de astronauta, “guerras” e papéis de aventuras super-heroicas sendo o Batman ou o Homem Aranha.

Me lembro de refletir, ainda que de forma infantil, o porque dessa divisão quando propus na rua onde morava, em Goiânia ou Cuiabá (não me lembro bem), que toda a turma brincasse de “Superamigos”. Foi bem aceito, mas alguns colegas levantaram o “problema” de “quem seria a Mulher Maravilha” e daí respondi que seria uma colega nossa (esqueci o nome dela, sorry). Não aceitaram. E as meninas da turma, mesmo que minoria, fizeram um barulho, mas foram voto vencido. Fiquei com raiva e também não participei da brincadeira. Fim, ao menos pra mim. Quando nasceu minha primeira sobrinha, tratei de dar umas duas bonecas da Mulher Maravilha pra ela e, conforme ela cresce e a encontro, vou explicando quem é aquela personagem e o que representa. Primeira lição: não aceite imposições de ninguém sobre sua vontade de crescer como mulher, mire no exemplo da Mulher Maravilha.

De toda forma, essa lembrança me fez refletir muito sobre o espaço das mulheres nas histórias em quadrinhos, como leitoras ou como produtoras de HQ’s. Nas últimas duas semanas, então, vim pensando sobre essa relação e me perguntei: quem são minhas artistas preferidas? e minhas personagens? Pode parecer estranho se perguntar sobre essas questões, mas acredito que elas refletem e muito a forma como eu, homem, vejo e dou importância para essas artistas e para personagens femininas (que podem ter sido criadas por homens, mas refletem mais ou menos profundos debates sobre a emancipação feminina).

Karen Berger, ex- editora do selo Vertigo da DC Comics.

Karen Berger, ex- editora do selo Vertigo da DC Comics.

E qual o primeiro nome que me veio a mente? Talvez não surpreenda quem gosta de ler HQ’s mais autorais: a iraniana Marjane Satrapi, autora de HQ’s fantásticas como “Persépolis” e “Bordados”. A última, por sinal, muito divertida. Poderia citar, também nos quadrinhos mais autorais, a Alison Bechdel, entre outras. Mas e no mundo dos super-heróis, esse universo tão sectário que torna mulheres objetos, sem características singulares em seu universo de personagens, seja na DC ou na Marvel? Fui rememorar as artistas envolvidas com HQ’s desde que leio gibis. A  primeira que meio a mente foi a “sagrada” editora da Vertigo Karen Berger que, graças a seu trabalho magistral como editora da DC, nos possibilitou ler Sandman de Neil Gaiman, Os Invisíveis do Grant Morrisson ou Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon, para não citar outros títulos espetaculares da Vertigo (selo que ela criou, brigando com meio mundo da DC Comics). Outro nome que me veio, mais ligado ao universo de super-heróis foi a Louise Simonson, que trabalhou em títulos como Superman: the man of steel e X – Factor. Cresci lendo suas histórias, em especial na DC. Continuei fazendo esse “resgate” na memória nerd e Pia Guerra, artista que ilustrou uma das minhas HQ’s preferidas (e uma das minhas artistas preferidas), Y – the last man. Outra artista feminina que figurou fácil na memória foi a Ann Nocenti, cujos trabalhos enriqueceram as páginas (especialmente da Marvel) de Demolidor, X- Men, além de algumas revistas do Batman, na DC Comics. Poderia citar mais algumas artistas, mas acho que não avançaríamos muito mais em quantidade (porque quanto a qualidade, a representatividade feminina não deixa a desejar), mas sim oportunidade. Caso interesse saber mais dessas profissionais, há um excelente site que trata justamente desse universo das mulheres no mundo das HQ’s: Women in Comics. Muito legal e com muita informação, inclusive com diversas categorias (artistas por “era” das HQ’s, por continentes, LGBT, por segmento autoral, etc). Para conhecer o site basta clicar aqui (em inglês).

O reflexo de poucas profissionais envolvidas com histórias em quadrinhos de super-heróis reflete diretamente na qualidade das personagens. Se no início do post tratei de falar sobre a Mulher Maravilha, volto a falar dessa personagem. No reboot da DC Comics, a Mulher Maravilha ganhou histórias escritas por Brian Azzarello e desenhadas por Cliff Chiang. E que histórias fantásticas! Uma personagem forte e independente em meio a dilemas contemporâneos permeados de mitologia grega. Wonder Woman foi uma das minhas HQ’s preferidas enquanto essa dupla trabalhou na revista, mas a editoria da DC Comics tinha de “fazer merda” e, praticamente, mudaram a personalidade da Mulher Maravilha para “melhor se adequar” a revista Superman/Wonder Woman, afinal, agora que seriam um casal, nada mais “natural” que Diana fosse menos independente. É claro que Dan Didio e companhia não disseram com essas palavras, mas para bom nerd entendedor, meia página de ilustrações e diálogos basta. Essa maneira sexista sim de enquadrar personagens femininas piorou, claro. Veio na forma de duas camisetas que você pode visualizar aí abaixo.

dc-camisetas

miss_marvel_cover-197x300Essa camiseta do Superman/Wonder Woman representa tudo de oposto ao que Azzarello e Chiang vinham trabalhando na HQ da personagem. Mais uma bola fora da DC, claro. Agora se você está pensando que a inabilidade de lidar com personagens femininas sem apelar para o sexismo barato é da DC, ledo engano. Para a Marvel Studios, que produziu um dos maiores sucessos cinematográficos de 2014, “Guardiões da Galáxia”, a boneca da personagem Gamora nem produzida foi. É. E pra ilustrar esse descompasso entre a Marvel Studios e o público feminino, a maior parte da bilheteria do filme foi constituída por quem, adivinhem? Sim, garotas. E quando buscavam, depois de assistir ao filme, comprar a action figure da Gamora o que encontravam? Um boneco do Star Lord e até do guaxinim de trabuco, mas nada da Gamora. Mesmo caso da Viúva Negra no filme dos Vingadores.

Difícil não reconhecer que a indústria nerd é masculina e voltada para o público masculino, não?  Dependendo de quem for responder a pergunta, vão dizer que é muito barulho pra pouca coisa. Obvio que quem der uma resposta dessas é homem. Provavelmente hetero, provavelmente branco, cis, etc. Entretanto, sou otimista.  As mudanças estão ocorrendo, por exemplo, a nova série da Batgirl ou da Miss Marvel, que agora é uma garota muçulmana (roteirizada pela escritora Willow Wilson, autora de HQ’s como Air que saiu pela DC/Vertigo). Acredito mesmo que as garotas vão ser mais e mais contempladas nesse mundo nerd, como autoras e como leitoras.

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