Literatura

A Arte de Produzir Efeito sem Causa de Mutarelli: resenha com cointreau

“Fantasia de forma minuciosa a execução de todos os que o traíram enquanto mastiga a sardinha com cuidado. Atento às espinhas. Há sempre uma ameaça. Pensa em leva-los a um sítio afastado para que possa fazer tudo o que a força de um covarde faz quando tem a sua mercê criaturas indefesas.”

Acho que essa passagem do texto de “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” de Lourenço Mutarelli já pode figurar, tranquilamente, como uma das minhas passagens textuais preferidas. O motivo é relativamente simples: A Arte de Produzir Efeito sem Causa é um dos romances mais perturbados que li em toda a minha vida. E me fez lembrar (e muito) um de meus cinco livros preferidos: Sobre Heróis e Tumbas de Ernesto Sábato. Não, não há nada relacionado à política na obra de Mutarelli, mas a semelhança se dá no nível do delírio (?) dos personagens/narradores, no caso de Sábato, Fernando Olmos em “Relatório sobre os Cegos” e em “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, Júnior.

Mutarelli, como sempre em suas obras, joga com as tragicomédias familiares para nos apresentar Júnior. O protagonista é um fracassado de marca maior. Abandonou o emprego, sua esposa o traiu com um adolescente amigo de seu filho e volta a morar com o pai, o “Sênior”. Mutarelli constrói sua narrativa, página a página, reforçando o caráter tedioso da vida de Júnior. E parte desse tédio deriva da sua própria apatia. Os dias seguem um após o outro: é o cigarro fumado na varanda, o café tomado no buteco com um antigo camarada de infância, os sentimentos de impotência que lhe surgem a todo momento ao pensar na família perdida e no filho distante, na falta de dinheiro, na obsessão que começa a cultivar pela garota, Bruna, que aluga um quarto no apartamento do pai, a sardinha que come ou come o que lhe sobra e o sofá que lhe sobra para dormir, noite após noite. No início do livro, é uma pasmaceira de classe média que Mutarelli narra, ela é engraçada porque Mutarelli sabe usar, magistralmente, a ironia.

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“O teto de um apartamento é o subsolo do outro. Pensa. Eu estou no inferno do andar de cima. Quem vive embaixo é o meu.”

lourenco-mutarelli-ilustr2A reviravolta na trama (para minha surpresa) começa quando Júnior recebe pacotes misteriosos pelos Correios. No conteúdo do pacote, nenhum sentido. E os pacotes continuam a chegar. Com a chegada dos mesmos, começamos a conhecer mais e melhor a história da família de Júnior, seu pai, sua mãe e seu irmão. Mãe morta e irmão preso. Os pacotes continuam a chegar. Recortes de jornais, trechos em inglês de um periódico que trata de algo na Cidade do México, algo sobre o escritor Burroughs (espécie de precursor dos Beatniks), nada faz sentido. Esse clima de mistério vai se aprofundando cada vez mais e quanto mais se aprofunda, mais disforme se torna a realidade para Júnior. Violência se torna mais tangível. Mas é a linguagem a primeira coisa que perde. Ela é uma ferramenta para nos comunicarmos e situarmos no mundo, podemos adapta-la, mas nunca perdê-la. E Júnior aos poucos a perde. Ficou difícil largar o livro, lia mais e mais (e me perguntava porque, cargas d’água, demorei tanto a lê-lo) e quão grande não foi meu espanto ao observar que o nível de nonsense da história galopava rapidamente para incluir um elemento sobrenatural, até Pazuzu, sim, Pazuzu, “estrela” de O Exorcista, aparece na história. Sobrenatural mesmo? Talvez. Aí reside o jogo de percepção da realidade de Mutarelli: o que passa com Júnior é físico ou metafísico? Os pacotes terminaram por “contaminar” Júnior e, devido a sua fragilidade emocional, abriram passagem para o demônio? Seria este um “presente” de sua mãe, estudiosa de Ocultismo, mesmo depois de morta? Ou seriam parasitas que comem seu cérebro e lhe causam ataques epilépticos e agressividade? Ou uma coisa está relacionada a outra e Júnior simplesmente olhou para o abismo e o abismo olhou e piscou de volta para ele?

A parte final é de um ritmo que suga a atenção do leitor/leitora. Foi o que ocorreu comigo. “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” já figura, sem dúvida, entre meus livros preferidos, tanto que já me imagino relendo-o para tirar dúvidas e também, porque não, aumentar incertezas.  Vale a pena ter este livro na prateleira de casa, especialmente para quem gosta de literatura delirante, como A Náusea de Sartre ou o próprio Relatório sobre os Cegos de Ernesto Sábato. No vídeo abaixo, uma entrevista com Mutarelli.

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