Literatura

1Q84 e o realismo fantástico de Haruki Murakami

“Você já olhou para a lua hoje? E já olhou para a lua com alguém?”

Terminei a leitura da trilogia literária “1Q84” de Haruki Murakami com essas duas perguntas em mente. O motivo, ao menos em minha leitura, foi que 1Q84 retrata, numa espécie de realismo mágico (que leitores de Gabriel Garcia Marquez, como eu, talvez venham gostar), a solidão das pessoas. Pequena, disforme e sem sentido muitas vezes, imposta pela forma como somos criad@s desde crianças e na maneira difícil (e muitas vezes quase impossível) de nos desvencilharmos dela. 1Q84 é quase uma “ode ao destino”, mas até que ponto estamos “programados” a viver o que a maré das circunstâncias nos cerca? O filósofo espanhol, Ortega y Gassett, já nos alertava: “eu sou eu e minha circunstância”. Muito justo. E cabe ao “destino” algum papel nessa reflexão?
Do primeiro ao terceiro livro, sabemos que Aomame e Tengo se encontrarão, mas qual será o custo? E mais: o que vai transcorrer nesse caminho?
1Q84 é uma história de amor, no fim das contas. E de um amor “dos mais puros”, aquele nascido na infância de seus dois protagonistas, Aomame e Tengo. Ao iniciar a leitura do primeiro livro de 1Q84, começamos a experimentar a vida de Aomame e Tengo por meio de capítulos centrados em cada protagonista. Conforme lemos o livro, começamos a perceber quem são eles e como buscam, ansiosamente, preencher um vazio destes que consome a mentes e corações na modernidade. Mas Haruki Murakami não nos presenteia uma história de amor “por si só”, ela é situada dentro de uma trama envolvendo terras paralelas e elementos de fantasia.

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O elemento fantasioso serve aos dilemas dos personagens. Tengo, por exemplo, é contratado como um ghost-writer. Sua função é reescrever um livro “de fantasia” de uma garota de 17 anos, livro este cujo potencial de vendas é enorme, de acordo com o editor ao qual Tengo presta serviços. Esse livro, “Crisálida de Ar”, é o pontapé para o desenrolar de toda a trama para Tengo. E mesmo para Aomame. Já ela, diferente de Tengo, ocupa-se como professora de educação física e, para minha surpresa, executora de homens que agridem e violentam mulheres. A própria história de Aomame, narrada de forma envolvente por Haruki Murakami, inicia-se com uma execução. Murakami, inclusive, é muito perspicaz em narrar os sentimentos (mesmo numa narrativa em terceira pessoal do singular) de Aomame ao executar mais um homem violento. É algo que a liberta de certa forma. Uma expressão máxima de que homens que machucam mulheres não sairão impunes de seu mundo.
A trama de 1Q84 converge essas duas atitudes. De um lado, Tengo rescrevendo a “Crisálida de Ar” e adentrando uma intrincada e perigosa rede de ligações perigosas entre religião e crime e, do outro, Aomame cumprindo (e pagando o preço) de ser o braço executor de uma velha senhora rica que protege mulheres em estado de vulnerabilidade psicológica e social, atitude derivada de uma trágica experiência familiar.
Este é o ponto mais fabuloso de 1Q84: as personagens, todas, passaram por tragédias de maior ou menor magnitude. Mas quem pode dizer que tragédia de X é maior que a de Y? Na trilogia 1Q84, Murakami não tem essa intenção. Nem deveria, para o próprio bem da obra literária. Algumas histórias chocam mais que outras e algumas podemos identificar como muito próximas, talvez mesmo como nossas histórias, o que permite reconhecer a gana por querer ler mais e mais. Por exemplo, a relação conturbada de Tengo e seu pai, ou Ushikawa (‘cabeção do boneco da felicidade’, personagem que chega a ser protagonista no livro 3 e se mostra interessante) e sua família perdida e escolhas erradas que tomou ao longo da vida ou Aomame e sua conturbada relação com a família fundamentalista religiosa, etc.

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Haruki Murakami busca amarrar todas essas histórias em maior ou menor intensidade. E consegue. Mas não de todo. Que é o Povo Pequenino? E o pai de Tengo, que se tornou? O sobrenatural nada mais é que o atrito dessa realidade com outra? Ao terminar de ler a trilogia 1Q84, muitas dúvidas me cercaram e a maior de todas foi: 1Q84 foi uma experiência de metalinguagem?
Devorada a última página do livro 3 de 1Q84, mais uma pergunta surgiu: acabou?
E você, leitor e leitora do Cabaré das Ideias, tem respostas para essas perguntas?

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4 pensamentos sobre “1Q84 e o realismo fantástico de Haruki Murakami

  1. Ben, acabei o primeiro livro recentemente e fiquei sem palavras. Ao mesmo tempo que o achei o livro de fácil leitura e com o desenvolvimento da história um pouco arrastado, ele me deixou com aquela sensação que tinha quando assistia Lost – onde as perguntas não eram respondidas e sim aumentadas, rs – e isso fez com que devorasse a obra e ficasse com aquele sentimento de quero mais, de querer saber o porque de cada coisa.
    Achei sua resenha incrível e me fez ficar com vontade de acabar a trilogia. Quando conseguir completar, dou mais uma passadinha aqui. Abraço!

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  2. Pingback: Kafka à beira-mar de Haruki Murakami: resenha com cointreau | Cabaré das Ideias

  3. Sinceramente esperava mais do livro. Ficaram muitas perguntas sem respostas. Deu a impressão que o autor já havia cansado de escrever o livro e resolveu finaliza-lo de uma vez. Se uma trama é colocada no livro, como a do povo pequenino, ela deveria ser finalizada com respostas coerentes. Achei que perdi meu tempo.

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