Cinema e afins/História em Quadrinhos

As Histórias em Quadrinhos, o Cinema e o que existe entre uma coisa e outra

Não sei bem porque, mas ao pensar em escrever especificamente este post, me lembrei do título de um dos livros do fantástico Gabriel García Marquez: Do amor e outros demônios. Não, não se preocupe, não estou buscando fazer um paralelo entre as HQ’s, o cinema e a literatura fantástica do escritor colombiano. Na verdade, o que este título me remeteu foi a paixão que envolve – de minha parte, mas não apenas dela, definitivamente – entre amantes de HQ’s e de Cinema e das duas artes ao mesmo tempo, sem distinguir qual a preferida. É uma tarefa hercúlea para quem tenta hierarquizar os sentimentos pela arte e, particularmente, acho dispensável. Basta saber que são diferentes. Mas e quando uma envolve a outra? Aí, acredito, é onde “a criança chora e a mãe não escuta ou se faz de desenganada”.

ImagemParte dessa minha reflexão – que não é original e não estou nem aí para isto – é que nos últimos 12 anos salpicaram filmes baseados em histórias em quadrinhos. Filmes bons e filmes ruins, alguns no meio do caminho, mas todos envolvendo minimamente elementos superheroísticos que qualquer leitor (a) que se preze reconheceria de imediato. Capas e colantes estão lá, em maior ou menor grau, mas o que quero chamar a atenção é a forma como os roteiristas de cinema traduzem o que está para além dessas capas e colantes, o que motiva verdadeiramente o heroísmo antes do super. E reside aí a minha flagrante decepção que se generaliza, cada vez mais, entre os filmes baseados em super-heróis. Vejam bem, friso o “baseados” porque, em tese, isso deveria deixar qualquer fã mais tranquilo, afinal, é apenas baseado, não é a quadrinização cinematográfica de uma HQ e seus/suas personagens. Mas não é bem isto que ocorre, para frustração de muitos.

E o motivo, acredito, reside num preconceito arraigado que ainda se mantém em relação às histórias em quadrinhos (embora, por exemplo, Batman – O Cavaleiro das Trevas e Os Vingadores, da DC Comics e Marvel Comics, respectivamente, tenham arrecadado bilhões de dólares em bilheteria e produtos derivados): HQ’S são coisas para crianças, logo os roteiros dos filmes que as adaptam podem ser mais simples, como algo feito para crianças.

Enquanto assistia ao filme “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro” fiquei com essa sensação que se repetia a cada momento “deus ex machina” que proliferava na narrativa do filme, como se costurar essa história de maneira séria não fosse algo para um filme baseado numa HQ. O Marcelo Hessel do Omelete muito bem lembrou um destes constrangedores momentos, ao final do filme, quando Gwen Stacy diz que só ela é capaz de resetar um sistema, e por esse motivo, ela, a personagem, seria de fundamental importância na cena. Mas daí surge na tela a alavanca escrita “Master Reset”, e o espectador pode acordar para a realidade: qualquer pessoa é capaz de ver e acionar a maldita alavanca!”

Acho que os roteiristas de “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”, Alex Kurtzman e Roberto Orci, sintetizam bem essa percepção de desqualificar – mesmo que de forma não intencional – o que são os quadrinhos. Caso não saibam (o que duvido muito), muitos críticos de arte nem consideram as histórias em quadrinhos uma arte. É isto mesmo. Obras como Sandman, Watchmen, V de Vingança, Promethea, Reino do Amanhã, Marvels, O Incal, etc, não seriam obras de arte. Seriam outra coisa ou, no máximo, uma arte menor. Sabem o que tenho a dizer para estes críticos? Não sabem de nada, inocentes.

Mas retomando o cerne do post, acredito que há uma subvalorização do gênero quadrinhos na sua adaptação aos cinemas. E isto não quer dizer que não seja rentável, muito ao contrário, como já disse ao citar Vingadores e Batman – O Cavaleiro das Trevas de C. Nolan. E é quanto a este último que chamo a atenção sobre como adaptar um personagem de HQ, absorver e ligar as especificidades de uma história em quadrinhos e, ainda assim, a tratar de forma séria, como fazem as adaptações ao cinema de clássicos da literatura. Acredito que este seja um dos raros filmes baseados em HQ’s que realmente recebeu um tratamento de adaptação tão bem realizado quanto poderia ser caso fosse um livro escrito por Haruki Murakami (se este autor japonês tivesse escrito Batman – o Cavaleiro das Trevas) e adaptado pelo próprio Nolan. Chegamos ao ponto onde queria: as HQ’s não recebem, por parte dos roteiristas, o mesmo tratamento de seriedade que a literatura, quando adaptada ao cinema, recebe. Acham mesmo que Blade Runner, de Ridley Scott, ou Minority Report, de Steven Spielberg, não foram bem adaptadas (embora realmente adaptadas e não fiéis aos livros de Philip K. Dick)? Para sair da Ficção Científica, acreditam mesmo que V de Vingança de Alan Moore (adaptado ao cinema por James McTeige e os irmãos Wachowski) não tenha uma profunda mensagem como Os Miseráveis de Victor Hugo?

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Já repararam porque filmes baseados em HQ não são indicados ao Oscar de Melhor Filme (embora Oscar não seja bom critério, mas de toda forma é um critério)? OK! Heath Ledger ganhou o Oscar (póstumo) de Melhor Ator Coadjuvante pelo Coringa em Batman – o Cavaleiro das Trevas. Mas e o que mais? Qual o outro exemplo? É porque não há bons atores e atrizes atuando em filmes de super-heróis? Oh, parece que não (se lembrarmos os elencos da Trilogia O Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, Watchmen, etc). A impressão que tenho é que mesmo quando há bons roteiros (por exemplo, Batman – O Cavaleiro das Trevas, de David Goyer, Christopher e Jonathan Nolan) há uma barreira que impede que filmes de HQ recebam um olhar diferencial por parte da crítica. Muito se deve, claro, ao que chamo de infantilização adaptativa (quando uma HQ é adaptada ao cinema) por parte dos roteiristas (ou seria algo do cinema cada vez mais fast food que temos?) e outro é o preconceito mesmo, o mesmo, inclusive, que faz com que críticos de cinema e literatura (sempre eles/elas) torçam o nariz para obras de cinema e literatura de ficção científica. É de uma estupidez sem tamanho, mas acontece.

Mas até quando?

Quero estar vivo nesta Terra para ver isso mudar. Sou um otimista, mesmo na adversidade, no fim das contas.

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