Cinema e afins

True Detective – Sexo e Poder (spoilers)

rust martyO mundo se divide entre luz e escuridão? Bem e mal? Aparentemente, é com essa dualidade que Marty (Woody Harrelson) e Rust (Matthew McConaughey) lidam ao investigar assassinatos envolvendo rituais macabros, na Lousiana. Embora haja uma forte caracterização simbólica em todos os episódios da primeira temporada, dos quais a representação do “Rei Amarelo” é apenas a “ponta do iceberg”. O mal está em todo lugar, poderia dizer Rust, mas ele se encontra nos detalhes. E são esses detalhes que fazem a diferença pra melhor na série. Ao assistir True Detective com regularidade quase religiosa, já no terceiro ou quarto episódio, concluí que não interessava, necessariamente, quem era o “Rei Amarelo”, mas interessava acompanhar o desenvolvimento da melancolia de Rust, sua visão de mundo pessimista e muitas vezes distorcida. Ao longo da primeira temporada acompanhar essa melancolia de Rust se torna quase uma obsessão para quem assiste, é quase como assistir o pessimismo de Schopenhauer saltar na tela: a vontade traz dor, mas existem meios de “escapar” da vontade. Rust parece enxergar os assassinatos rituais como exemplos dessa tentativa de “escapar da dor” por meio do sexo e da arte, transformadora dos corpos e manifestação do prazer – ainda que algo passageiro, já que é a dor a única e verdadeira realidade. Os diálogos entre Marty e Rust são cáusticos. Marty vive a tempestade de emoções ligadas a sua solidão atroz e sexualidade associada ao poder sobre as mulheres, já Rust se torna a manifestação da falta de vontade – não de falta de ação, ao contrário – por sua convicção de que não há, de verdade, livre arbítrio, há apenas uma ilusão da liberdade. Sexo é prazer e, consequentemente para os homens, é também poder.

Embora, sem dúvida, seja uma história de detetives e com um processo envolvente de investigação, são os “depoimentos” de Marty e Rust que “fisgam” o/a telespectador (a). Conhecemos suas vidas particulares conturbadas, embora muito mais de Marty, vida esta que passa por altos e baixos ao longo da temporada que cobre mais de 15 anos entre o início e fim da investigação, se não me engano. Ao contrário de Rust, Marty se comporta, ao longo de sua vida apresenta com mais detalhes nos flashbacks e no depoimento aos investigadores, como o homem típico machista em seu comportamento: é casado, tem amantes, controla absolutamente a vida das duas mulheres que compartilha a cama, mas ainda assim quer se provar um sujeito “liberal”. Marty julga a todo momento Rust, ainda que tenha seus “pés de barro”, como o parceiro reforça sempre. Já de Rust há somente “trechos” de sua vida passada que, inclusive entendemos ao assistir a série, que o lapidaram no homem desesperançado que é, especialmente pela morte trágica de sua filha e consequente separação de sua esposa. Sexo e poder, sinergicamente relacionados, alimentam os mitos que se encontram diluídos ao longo dos episódios. As tragédias cercam protagonistas e coadjuvantes em True Detective, alguns com mais ou menos intensidade, outro ponto que cativa ainda mais seus/suas fãs. Definitivamente, há espaço de sobra pra pessimismo em True Detective, mas este pessimismo retratado não impede que criminosos possam ser punidos, de acordo ou não com a Lei (como no episódio que Rust e Marty matam os pedófilos que mantinham meninas em cativeiro e “falseiam” um conflito entre os detetives e os criminosos). O final, quando finalmente é encontrado o “Rei Amarelo” e desmascarada a rede de pedofilia e exploração sexual e assassinatos de mulheres, é um final que remete a pergunta inicial: O mundo se divide entre a luz e a escuridão? A resposta é que sim e que não e vai depender muito do seu ponto de vista, algo reforçado até pela narrativa empregada pelo diretor Cary Fukunaga.

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Matthew McConaughey, interpretando Rust, conseguiu em um ano construir dois personagens fantásticos, dos quais um já lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator (por Clube de Compras Dallas) e, não duvido, lhe renda um prêmio Emmy por melhor ator ao interpretar Rust em True Detective. Li em algum site de notícias que McConaughey chegou a escrever em torno de 400 páginas de descrições e análise da psique de Rust. O que não faz um bom ator, não? True Detective, seriado da HBO criado por Nic Pizzolatto, é uma história de detetives com o melhor do clima noir, tão característicos nas revistas pulp da década de vinte, trinta e quarenta do século XX. Ao menos foi essa a minha impressão ao assistir a primeira temporada de True Detective. A proposta da série é uma temporada com uma história auto centrada, fechada em si mesma. E Rust e Marty vão deixar saudades. Aguardemos a próxima história de True Detective e que ela também nos faça aguardar ansiosamente as questões espinhosas que só boas histórias detetivescas nos deixam.

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