Ficção Científica e Política/Literatura de Ficção Científica

O Futuro Ambiental de Philip K. Dick Chegou?

Uma das primeiras imagens que um (a) leitor (a) de Philip K. Dick pode fazer da cidade de Los Angeles. retratada em “Do Androids Dream of Electric Sheep?” ou, “no bom português nerd”, Blade Runner – o caçador de androides, é de uma cidade tomada por poluição. De brinde, uma cidade que, quando chove, recebe de “presente” uma prejudicial chuva ácida. É claro que essa imagem ganha consistência visual ao lembrarmos do filme de Ridley Scott, não tenho dúvida. Além disto, a biodiversidade do planeta se finda graças, em grande medida, pelas consequências da Guerra Mundial Terminus que empurrou a humanidade e sua incapacidade de estabilizar-se em paz e cuidar do ambiente em que vive para as estrelas, mais especificamente para Marte e as outras colônias terrestres. Mas não é para @ fã de “Blade Runner” que escreve esse post, mas sim para quem lê (e se viciou) Philip K. Dick. E, especificamente, escrevo para aqueles e para aquelas que, como eu, parecem visualizar um futuro ambiental muito parecido com aqueles narrados pelos incessantes delírios literários de Philip K. Dick. Delírios estes que me fisgaram e, por mais que tente, não consigo deixar de prestar atenção.

Primeiramente, vamos imaginar uma situação:

“Com níveis de poluição atmosférica extremamente nocivos à saúde humana, uma hipotética cidade vem buscando formas de combater o seu “arpocalipse“. Que tal a construção de um parque fechado que garanta à população um ar seguro de se respirar? E mais: o parque abrigaria um jardim botânico, com plantas de todos os cantos do mundo. A temperatura e umidade do ar seriam controladas ao longo do ano e garantiriam um bom clima interno. Os prédios ao redor do parque, também ligados ao sistema de ar condicionado, poderiam abrigar apartamentos, escritórios e um complexo cultural e gastronômico. Além disso, seria possível abrir centros esportivos e médicos, segundo os arquitetos.”

Um cenário futuro ou atual?, poderia me perguntar Deckard no alto de seu alcoolismo investigativo.

Por mais incrível que possa parecer, o texto destacado foi retirado – com alguns cortes – de uma matéria, redigida por Vanessa Barbosa, que saiu no Planeta Sustentável (a matéria pode ser lida integralmente clicando aqui). Como já disse em outros posts sobre a literatura de Philip K. Dick, o escritor precursor da literatura cyber punk não retratou os dilemas psicológicos de seus personagens de forma isolada, ou seja, por eles mesmos. Philip K. Dick buscou inseri-los sempre dentro de uma realidade maior, na maioria imensa da vezes uma realidade esmagadora, seja no seu aspecto político ou mesmo ecológico e é quanto a este que Philip K. Dick nos mostrou, por meio de suas obras, uma realidade tremendamente assustadora e que, pelo visto, caminhamos a passos largos para atingi-la.

ImagemPhilip K. Dick era um pessimista, não vejo como discordar dessa afirmação, mas só reconduzo esse olhar para outro aspecto: literatura, como Arte, não tem as amarras da “obsessão” da Ciência pelas “evidências”. Devido ao seu caráter mais intuitivo (o que não quer dizer que elimina seu caráter racional, muito longe disso), pode nos “estapear a cara” com a obviedade que, no mais das vezes, é dura quando nos fazemos, individual ou socialmente, de “desenganad@s”. Então não chamarei, ao menos por este post mais “ambiental”, Philip K. Dick de um autor pessimista, mas realista. Seu realismo quanto ao meio ambiente era tal que, ao ler diversas de suas obras (me lembro, de imediato, de “Do Androids Dream of Electric Sheep?“, “Ubik”, o pertubador “Fenda no Espaço” e “A Penúltima Verdade”), a tentadora ideia de que a tecnologia vai nos salvar de toda a degradação que nosso modelo econômico e político gera vai “por água abaixo”. Não há na obra de Philip K. Dick espaço para essa ilusão (ao menos de acordo com a abordagem da Economia Ecológica, interessante abordagem que reconhece limites ao crescimento econômico e a sujeição deste à capacidade de suporte dos ecossistemas às atividades econômicas e não o contrário, como hoje ocorre): a tecnologia não é capaz de nos salvar integralmente e não pode por diversas razões e a mais importante delas é o que nos faz humanos, essa capacidade de inventar e, ao mesmo tempo, usar esse invento para errar. Um caso muito nítido é relativo aos humanos “defeituosos” segregados e impedidos de ajudar na colonização de Marte, na realidade de “Do Androids Dream of Electric Sheep?” ou, na realidade de “Fenda no Espaço” (o pesadelo malthusiano melhor retratado na literatura sci fi) a Terra superpovoada e que exauriu ao máximo os recursos naturais e que descobre a existência de uma Terra Paralela. A intenção, neste último exemplo literário, é invadir e dominar estes “outros terrestres”. Nobre e cooperativo, não?

Imagem

Notícias como esta “O desastre ecológico da China” ou “Perda de Biodiversidade e Funcionamento dos Ecossistemas” me deixam assustado. E sabem o que é pior? Embora veja os cenários ambientais desenhados por Philip K. Dick se ajustando aqui e ali, não fico nem um pouco otimista pelo fato de que boa parte desse “realismo pessimista” do autor situar essas tragédias ambientais num contexto político de guerra. Seria até mais fácil. Mas vejo que esses desastres ambientais se anunciam como verdadeiras “crônicas de mortes anunciadas” (permitindo-me o luxo de fazer um trocadilho com outro autor que muito aprecio, Gabriel Garcia Marquez) pela cega crença de que não deve existir uma prioridade ambiental nos modelos econômicos e de política econômica que são dispostos (ou melhor seria, impostos?) na maioria dos países.

E o que me deixa mais triste é que, ao menos oficialmente, não encontramos uma “Fenda no Espaço” para irmos para uma Terra Paralela se a coisa piorar e nem mesmo a colonização de Marte está andando de vento em popa. No fundo, espero que Philip K. Dick esteja errado em suas leituras e narrativas, mas é pagar pra ver. Literalmente.

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