Ficção Científica e Política/Sci Fi no Cinema

Robocop de José Padilha: resenha com cointreau

José Padilha é um dos meus diretores preferidos. A razão dessa preferência, ou ao menos a origem dela, foi Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro. E digo isso porque é na continuação de Tropa de Elite, retumbante sucesso cinematográfico brasileiro com Wagner Moura, que temos um diretor mais seguro da mensagem que quer transmitir. Se em Tropa de Elite muit@s apontaram uma dualidade “liberal” e “conservadora” no filme (que o deixava quase “esquizofrênico na sua “ideologia”) pelo estilo da narrativa, em Tropa de Elite 2 o diretor José Padilha deixa muito claro o que quer mostrar e como quer mostrar (mais uma vez contando com a interpretação brilhante de Wagner Moura) com uma narrativa mais coesa. Mas verdade seja dita: acredito que Padilha realmente queria, no primeiro Tropa de Elite, mostrar essa esquizofrênica sociedade brasileira que não dá conta de lidar com promíscua relação com a criminalidade de ricos e pobres, com demanda de drogas ilegais e com um aparato policial cada vez mais distante de seu objetivo mais fundamental: dar segurança à população. Talvez para deixar “mais mastigado” aos telespectadores, Padilha deixou a trilha (narrativa) bem mais clara em Tropa de Elite 2.

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Mas o objetivo desta resenha é o primeiro filme “roliúdiano” de Padilha: Robocop. Mas escrevi esse parágrafo anterior comentando um pouco sobre Tropa de Elite 1 e 2 para dizer, em bom português, que o estilo José Padilha destes dois filmes também se encontra neste filme sobre o “policial do futuro”. E se o objetivo da MGM era reerguer essa franquia no cinema com um estilo (ainda) mais crítico à perniciosas relações entre segurança pública, organizações privadas e Estado “capturado” por estas últimas em relação ao filme original (clássico de Paul Vernhoeven), José Padilha conseguiu isto. Se não era este o objetivo, então a MGM pagou a produção de um filme que não era a cereja do bolo que esperava.

ImagemA narrativa de Robocop, assim como de Tropa de Elite, é muito similar: Primeiramente, o filme se inicia com o que há de pior nos discursos reacionários de Direita nos telejornais conservadores (que nos EUA são representados pela Fox). “Pat” Novak (Samuel L. Jackson) é o porta voz da direita reacionária que quer, a todo custo, “robotizar” a segurança pública nos EUA. E como um bom conservador adestrado, o programa de “Pat” Novak busca, desesperadamente, mostrar como o uso de robôs na segurança pública é fundamental. E no início do filme o cenário para ilustrar essa crença é Teerã. Sim, Padilha já “brinca” com a obsessão de muitos “falcões” da Direita estadunidense com o país xiita. E, no caso, Teerã (o Irã de forma geral) foi invadida pelos EUA. Padilha usa sua câmera para mostrar essa realidade futura, mas poderia ser perfeitamente Bagdá durante a invasão estadunidense pelo sanguinário governo Bush. E ah, tudo em nome da segurança dos estadunidenses, o tempo todo se repete isso, quase como um mantra por “Pat” Novak. É claro que ocorre algum problema e a ideia de mostrar o quão seguro seria usar robôs também nos EUA se esvai. A estratégia, no caso, seria derrubar uma lei que impede o uso de robôs para fazer segurança pública nos EUA. O que falta é “consciência humana” a essas máquinas. E aí começa, realmente, a trama de Robocop.

ImagemAlex Murphy (interpretado por Joel Kinnaman) é um policial honesto que, junto ao seu também honesto parceiro, enfrentam uma intrincada e perversa rede de corrupção policial. O resultado da “guerra” declarada pelos dois policiais é quase uma “crônica de morte anunciada”: o atentado à vida de Murphy. Assim como no filme original, Murphy sobrevive. Mas é isto. Sobrevive. Mas sua vida (ou o que resta dela) é transformada quando oferecem a sua esposa e companheira Clara Murphy (Abbie Cornish) a oportunidade de ter Alex Murphy “por inteiro” novamente, mas agora como um cyborg. Pausa. No filme há certa pressa, as coisas vão acontecendo rápido demais, mas sem imprimir a sensação de que “está faltando algo” que una toda a trajetória e esta é uma das características de José Padilha ao dirigir Tropa de Elite 1 e 2 e, agora, também em Robocop. É importante dizer que essa habilidade de narrativa num filme é para poucos e Padilha, na minha opinião, consegue se incluir no hall dos diretores e diretoras que o conseguem. Há um aspecto do filme que me chamou muito a atenção: a transformação de Murphy é gradual e também é gradual a retomada de sua vida, muito devido a importância da família para Murphy, algo que no filme fez sentido e não ficou piegas. Não há bem um conflito entre homem e máquina, entre Murphy e Robocop, na verdade o que ocorre é um ajuste entre um e outro. No caso, um não vive sem o outro, o que confere uma dinâmica diferente para a velha discussão sobre o “fantasma na máquina”. Sim, a anima existe até mesmo num sistema operacional.

Mas, definitivamente, para além da discussão metafísica em Robocop, José Padilha nos trouxe uma discussão política em seu filme. Várias questões espinhosas que servem para os EUA, mas também o Brasil. De imediato algumas dessas questões me surgem: “privatização de presídios é o melhor caminho para processos de ressocialização?” Até que ponto corporações podem se entranhar nos processos políticos? Há uma passagem no filme Robocop de José Padilha que um personagem aponta que Murphy não era mais um individuo pelo investimento realizado, mas sim propriedade da OmniCorp, a vida pode ser considerada “propriedade privada”?

Robocop de José Padilha pode não ser o filme perfeito, mas definitivamente, de todas essas refilmagens de clássicos da década de 1980 se mostrou a melhor até o momento. E com um mérito: Padilha não refilmou Robocop de Paul Vernhoeven, mas sim criou outro filme inspirado no Robocop original e isto permitiu ver dinâmicas narrativas diferentes sobre um mesmo personagem, mérito do diretor brasileiro.

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5 pensamentos sobre “Robocop de José Padilha: resenha com cointreau

  1. Quero muito ver Robocop, fiquei com medo que acabasse ficando blégh, mas pelo visto Padilha acertou no longa. 😀

    Uma coisa que estive pensando. Se atribuirmos consciência aos robôs, as três leis continuam valendo?

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  2. Muito boa resenha Ben! Só acho que o problema do Brasil é muito mais um caso de cultura cívica ( falta de) e Social Trap do que de conservadorismo. Apesar de achar que o filme de 1987 é insubstituível, fiquei ainda com mais vontade de ver o novo longa. Robocop não é apenas um filme de ação. A trama do homem dentro da máquina lutando contra o sistema corrupto e desumano tem um lugar no panteão da cultura pop pela discussão sóciopolítica que desenvolve. Isso Padilha sabe fazer como poucos. O problema fundamental da ordem , a temática dos limites da autoridade, as relações incestuosas entre o público e o privado e o caráter problemático da legitimidade estão presentes nesse universo “distopico” que nos faz refletir tanto sobre o mundo político real.

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  3. Meu professor de fisica nos passou como trabalho assistir a esse filme e depois expor nossas ideias e argumentar sobre a tematica do filme. Visitei varios sites e li bastante sobre o José padilha e acabei chegando aquii, gostei da forma q vc mostrou a sua opniao e descreveu o filme. Me ajudou bastante.

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