Cinema e afins/Sci Fi no Cinema

“Her”: resenha com cointreau

O ano de 2013 foi um ano de excelentes filmes. Muitos. “Azul é a cor mais quente”, filme de Abdellatif Kechiche, “Gravidade”, filme de Alfonso Cuarón, “Clube de Compras Dallas”, filme de Jean-Marc Vallée e “12 anos de escravidão” de Steve McQueen são apenas alguns dos filmes que me lembro de memória e a maioria são concorrentes ao Oscar de melhor filme (excessão a “Azul é a cor mais quente”). Mas como sempre digo, Oscar não é um “indicador” adequado pra se apontar um filme destes de deixar a consciência mexida e a percepção do mundo mais refinada, mas vez ou outra isso ocorre. Os filmes candidatos ao Oscar parecem escolhidos a dedo. E, neste ano de 2014 (premiando os melhores filmes de 2013), “Her” se destaca com louvor, como os outros filmes acima citados.

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Desde “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças” um filme sobre solidão e encontros e desencontros não me chama tanta atenção. Seria de se esperar, afinal, “Her” foi roteirizado e dirigido por Spike Jonze, o mesmo responsável por um belíssimo média metragem chamado “I’m here” (da qual fiz uma resenha breve aqui mesmo para o Cabaré e pode ser lida clicando aqui) e que “prepara” terreno para “Her”. Tanto “I’m Here” quanto “Her” tratam de solidão. Habilidoso como contador de histórias, Spike Jonze traz a solidão em inúmeras metáforas, todas mais ou menos próximas daqueles e daquelas que vivem nas grandes cidades. Especificamente, “Her” conta a história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um solitário “escritor de cartas” que decide comprar um sistema operacional com um “que” de diferença: inteligência artificial. Me chamou atenção, desde o princípio, a inabilidade em ouvir o próximo e isso já se manifesta no trabalho de Theodore: ele escreve cartas para as pessoas. Como evitei ler resenhas sobre o filme (e até assistir trailer) me foi uma surpresa a metáfora da solidão e da inabilidade social já se encontrar no emprego do protagonista. Não consegui imaginar melhor metáfora do que esta: você contratar alguém pra expressar, numa carta, os teus sentimentos (bons ou não para alguém que te importa). É o máximo da inabilidade em estar ou buscar estar próximo/próxima de alguém, saber transmitir seus sentimentos e também escutar. “Her” é isto. Theodore se apaixona aos poucos por “Samantha” (a voz de Scarlett Johansson) e ela, o sistema operacional inteligente, é a “cereja do bolo” do filme. A relação que começa de amizade vai ganhando formas do amor romântico, mas daí é você, telespectador e o próprio protagonista que, hora menos hora, se pergunta: é possível amar alguém sem tocar essa pessoa? mas pode esse sentimento ser real?

Já seduzido pelo filme, me peguei lembrando das divagações de Philip K. Dick e a pergunta que se atormentou e atormentou seus leitores e leitoras: o que é o real? o que é real é verdadeiro?

Amar não é fácil. E, como já me disseram, se entregar de verdade não se faz todo dia e demanda muita confiança. Theodore é alguém que escreve magistralmente sobre os sentimentos alheios (oriundos de sua fina percepção das pessoas), mas tem uma dificuldade gigantesca em lidar com os seus próprios sentimentos, especialmente com aquelas pessoas que passaram e marcaram sua vida. No caso, sua ex-esposa e, claro, Samantha. E num universo em que estamos aprendendo o tempo todo, não seria nem um pouco diferente com Samantha. Ela anseia experimentar a vida, mesmo que sem um corpo e Theodore anseia se entregar a alguém e desses desejos, experimentamos, como telespectadores e telespectadoras, uma inusual história de amor, acrescentada de todas as dificuldade inerentes.

Mas “Her” é um filme que metaforiza a solidão que vivemos. Há um momento do filme, quando Theodore se encontra com a personagem da atriz Olivia Wilde que a mesma diz que, na sua idade, não fazia mais sentido perder tempo com alguém que não fosse levar a sério o que quer que fosse acontecer entre ambos. O que dizer disso? Seria a pressão social que existe de obrigatoriamente termos alguém, ainda mais conforme a idade vai passando? Sim, acredito que seria isto. E isto traz consequências para as pessoas. E talvez por isto os sistemas operacionais inteligentes tenham passado a ser os/as namorados/namoradas ideais: estão logo ali, basta tocar o aparelho. Mas ao mesmo tempo, Samantha e os sistemas operacionais inteligentes se tornam pessoas (ainda que não físicas, mas também humanas) em conformidade a toda experiência que ganham convivendo com pessoas humanas e corpóreas.

E o final é feliz?

Sim. Acho que sim. Theodore e Samantha se fazem uma das mais belas declarações de amor da história do cinema (na minha opinião) e se despedem. Não um adeus, mas  acredito que com um “até logo”.

Deixo abaixo, extraído diretamente do Youtube, a trilha sonora de “Her”, produzida pelo Arcade Fire. Também muito bonita.

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