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O Livro Vermelho de Jung: primeiras impressões

lv2Como escrevi neste post aqui mesmo no Cabaré (que participava de uma blogagem coletiva), ler “O Livro Vermelho de Jung” (Liber Novus) é uma das dez coisas que tenho de fazer antes de ser abduzido. Em parte, essa meta de vida já começou a ser realizada: durante o mochilão que fiz entre o Peru e o Chile (cujos relatos podem ser acessados clicando no nome de cada país) comecei a leitura do “Livro Vermelho de Jung” (uma versão menor, sem as imagens e somente o texto). Embora, originalmente, desejasse ler seu conteúdo embriagado em algum Café de Santiago, terminei por começar sua leitura em Cusco mesmo e avancei na mesma durante as longas viagens entre Cusco e Santiago (com paradas em Arequipa, Tacna e Arica). Além da natural solidão de uma longa viagem como esta, o que foi uma boa companhia, do ponto de vista visual, foram os extensos desertos que cobrem muito do sul do Peru e Norte do Chile. Não sei por que, mas aquela paisagem desértica alimentava em muito a vontade de adentrar aquelas páginas. E foi o que ocorreu.

Não sei se os leitores e as leitoras do Cabaré das Ideias já puderam ler alguma obra de Jung. Se puderam, talvez jungentendam melhor minha admiração por este que, seguramente em minha opinião, figura como um dos maiores intelectuais do último século (e penso mesmo em muitos séculos da história intelectual da humanidade). Antes de adentrar em minhas primeiras impressões do Livro Vermelho, vou situar melhor o leitor e leitora do blog sobre o psiquiatra suíço fundador da Psicologia Analítica. Nascido em 26 de julho de 1875 em Kesswil na Suíça, Jung se mostrou uma criança extremamente observadora, característica esta que o acompanharia por toda a sua vida. Essa característica observadora, entretanto, não repousava apenas na observação exógena (das pessoas e do ambiente que o cercava), mas também de si mesmo. E chamou a atenção de si mesmo duas características – que mais tarde incorporaria em sua produção intelectual e científica: a introvertida e extrovertida. Jung, neste sentido, acreditava mesmo ter “duas personalidades”. A curiosidade por mergulhar cada vez mais fundo em si mesmo e na observação externa de fenômenos psicológicos similares terminou por leva-lo a se aproximar de estudos religiosos. Não como uma espécie de teólogo, mas como um estudioso da psicologia da religião. Sua carreira na Medicina foi direcionada ao campo da Psiquiatria e terminou por leva-lo a conhecer  e trabalhar, entre 1907 a 1912, Sigmund Freud. Nada mais natural que duas das mentes mais brilhantes do século XX trabalhassem juntas, mas embora ambos se debruçassem no estudo do inconsciente, as leituras que faziam do mesmo divergiam especialmente quanto a importância da sexualidade na psique humana. Embora muitos, à época, o considerassem o “Príncipe Herdeiro” de Freud (caso fiquem curiosos, existe a ótima biografia de Freud, escrita por Peter Gay, que retrata bem esta fase da vida de ambos), Jung terminou por trilhar um caminho próprio, muito mais denso e introspectivo.

Este caminho, que chamo de mais denso e introspectivo, o levou a produzir obras que, particularmente, considero instigantes e singulares e, talvez, a que mais me chame atenção (verdadeiramente, desde o início) tenha sido “Sincronicidade”. Chamo a atenção para “Sincronicidade” por seu caráter altamente interdisciplinar, de sugar do estudo da psique humana muito mais que seu componente causal para explicar fenômenos envolvendo a consciência. A aproximação com a Física (particularmente a Física Moderna) é muito perceptível. Mas foram os estudos dos mitos  e símbolos nas diversas culturas e religiões ao redor do mundo que impulsionaram Jung a desenvolver dois de seus conceitos mais conhecidos: os arquétipos e o inconsciente coletivo. A ideia é relativamente simples: a criação de símbolos é algo próprio da psique humana, é uma forma de traduzir o desconhecido que, para os estudiosos, constitui os arquétipos (inúmeros). Duas camadas se desdobram neste sentido, a consciente, que lida com fatores mais “aparentes” e da vida individual e a inconsciente, de caráter mais impessoal (mas não exclusivamente, frisa-se) e que compartilha de uma “memória comum” a toda a humanidade. Imaginem o “choque” de Freud ao se deparar com a leitura de livros como “Eu e o Inconsciente” e “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”. Realmente, seria “impossível” continuarem a trabalhar juntos. Ainda que essas obras sejam clássicas e leituras obrigatórias para estudiosos e estudiosas de Jung, é o Livro Vermelho a “cereja do bolo” de toda a produção intelectual do psiquiatra suíço desbravador do inconsciente.

livro vermelho

Mas acreditem, sua leitura demanda um nível de atenção elevadíssimo. Não só por que texto e imagem são complementares, mas por que, na leitura do Livro Vermelho, você realmente “mergulha” na psique de Jung. E lá você descobre dois confrontos enfrentados pelo psicólogo: o confronto com o inconsciente e, depois, o confronto com o mundo. Uma verdadeira batalha de titãs! O caminho para o si-mesmo, já antecipado desde o ensaio de 1918 chamado “Sobre o Inconsciente”, era um caminho que apontava nossa existência em dois mundos: o da percepção externa e a percepção do inconsciente. É interessante que ao longo do Livro Vermelho, arte e símbolo estão invariavelmente ligadas, “jogando” com a “verdade racional e irracional”, embora Jung asseverasse que é no símbolo que ambas as verdades se manifestam. E ao ler os “diálogos”, “monólogos” e narrativas do Livro Vermelho, esse mergulho de Jung se torna mais claro – se claro seria o termo mais correto. Ao debruçar-me no Livro Vermelho, a presença (e importância) dos arquétipos tornou-se mais do um relato que li sobre, pude realmente “constatar” o processo de individuação de Jung (e imaginar, também, seus custos psicológicos nos embates). A pergunta que retratou, de forma inicial o processo de individuação e confronto com o inconsciente (e do qual o Livro Vermelho tão bem ilustra) foi: “o que é o mito que você vive?”

Ao atravessar o deserto me perguntei isto. E entendi a dificuldade de Jung que, nunca negou, dizia que “foi seu experimento mais difícil”. A própria redação e publicação do Livro Vermelho não foi simples e muito menos fácil. É só ler a Introdução de Sonu Shamdasani (responsável também pela Edição) para entender adequadamente esse processo vivo do Livro Vermelho. Embora tenha interrompido sua leitura, é de meu desejo retoma-la o quanto antes. Talvez agora, durante este carnaval de 2014, época que pretendo desaparecer do mundo externo e enfrentar um pouco do meu inconsciente. Espero, portanto, retomar as reflexões sobre o Livro Vermelho em outro post, aqui mesmo no Cabaré das Ideias.

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