Literatura de Ficção Científica

“Nuestros amigos de Frolik 8” de Philip K. Dick: resenha com cointreau

Se há algo muito comum aos livros e contos de ficção científica de Philip K. Dick é a recorrente suspeita de que as liberdades civis e democráticas são frágeis demais e, por isto, a sombra dos regimes políticos ditatoriais seja constante e quase “irreversível” no que toca a sua “força”. O que varia, entre uma obra literária e outra, é o que personifica esse regime hegemônico. Se em “Do androids dream of electric sheep?” (Blade Runner – o caçador de Andróides) são as mega corporações que roubam e restringem direitos civis e políticos em “Nuestros Amigos de Frolik 8” é o próprio Estado que promove esse cenário nefasto. A visão de K. Dick é assustadora e pessimista também quanto a como é organizada a sociedade num regime hegemônico e, invariavelmente, a estratificação social, até mesmo podendo chamar de castas, é claramente disposta.

Em “O Homem do Castelo Alto”, judeus quase se extinguiram e africanos e afro-americanos são escravos, tudo devido à vitória do Eixo (Alemanha Nazista e Império Japonês); em “Blade Runner” também temos essa divisão social: geneticamente aptos ou inaptos para usufruir de outros mundos e sair da Terra, devastada pela Guerra Mundial Terminus, e não esquecendo, claro, os andróides, seres sem valor de existência e, por isto, diretamente descartáveis; e, por fim, em “Nuestros Amigos de Frolik 8” temos, na minha opinião, um dos melhores livros de K. Dick a retratar a estratificação social e seus efeitos perversos.

imageUsualmente, Philip K. Dick não constrói personagens perfeitos, ainda mais em obras em que joga com o maniqueismo primário que existe e é reforçado na cultura ocidental, da qual faz parte. E “Nuestros Amigos de Frolik 8” não é diferente enquanto obra literária: há Nick Appleton, um sujeito simples (bem no sentido de “casamento frustrante e trabalho entediante”) que se vê “arremessado” na conturbada (rebelião) política nos Estados Unidos (situado, não muito claramente, num 2200). Rebelião esta existente devido ao sistema político racista que domina o mundo. Mundo este não povoado apenas por humanos, mas também por “superhumanos”, seres humanos dotados de extrema inteligência e/ou poderes de telecinesia ou telepatia, que começaram a surgir a partir do século XXII e dominaram a vida pública e criaram e expandiram um verdadeiro sistema de castas no mundo, com todas as características de regime político opressor com seu próprio modelo de direitos limitados e campos de concentração, ops, reeducação. Para mudar essa situação, o visionário Thors Provoni viajou às estrelas, disposto a buscar ajuda alienígena para dar fim a esse regime de excessão. É neste retorno que a narrativa do livro se encontra.
A aposta sempre recorrente de Philip K. Dick nas suas obras é nos apresentar estes mundos por meio de personagens com desejos e sentimentos relativamente simples como “viver uma experiência intensa sexual e amorosa com alguém”. Esse passa a ser o objetivo de Nick Appleton, especialmente ao ter seu filho Bobby reprovado no exame de Serviço Público e ao se apaixonar pela vibrante e revolucionária Charlotte Boyer. Mas já disse Alan Moore, por meio de V, em V de Vingança: “como se diz, vale tudo no amor e na guerra, como no caso trata-se de ambos, maior a validade”. Talvez essa frase de V de Vingança retrate bem essa trama.
Mas o que a faz situar-se além é a maneira como Philip K. Dick brinca com o maniqueismo: você passa as 200 páginas do livro torcendo para a chegada de Provoni com o alienígena de Frolik 8 e a instauração de uma Nova Ordem Mundial, mas conforme as páginas vão sendo lidas, você começa a temer, como temiam os “Superhumanos” dirigentes governamentais, que essa invasão alienígena trazida por Provoni pode ser algo tão ruim quanto o regime hegemônico dos “superhumanos”. Ao terminar o livro, acompanhamos o preço que cada uma das personagens pagou por essa invasão. Os resultados sociais dessa invasão, como indicados por K. Dick deixam à humanidade, novamente, a escolha: inovar na maneira como vivemos este mundo com nossos semelhantes ou reproduzir tudo novamente?
Li “Nuestros Amigos de Frolik 8” numa versão editada e publicada pela editora Minotauro que, positivamente, tem publicado boa parte das obras de Philip K. Dick em língua castelhana.

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