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Mochilão – parte 2: Chile

Duas coisas já marcam minha memória mochileira do Chile: uma que me agrada pela paz que me confere e a outra o completo oposto dessa tranquilidade. Mas vamos por partes. Tenho de esperar o voo para São Paulo e escrever sempre ajuda a passar esse tempo. Ao sair do Peru, depois de uma intensa e rica experiência (arqueológica e gastronômica) em Cusco e Machu Piqchu, nos deparamos com o Chile, terra de Pablo Neruda e das empanadas além, é claro, de muitas vinícolas e excelentes vinhos. Entrar no Chile pelo Peru – via bus desde Cusco, como fizemos – demanda muito esforço. É sério: foram 12 horas de bus de Cusco a Arequipa (por uma excelente empresa, Cruz Del Sur, única empresa de bus que vi fazer teste do bafometro no motorista, achei o preço da passagem razoável por ser “leito” o assento de passageiro que comprei, só não me lembro o preço, mas no site da empresa é possível obter essa informação), daí chegando a Arequipa (com um terminal de bus dos mais cômicos e com “desayuno” que mais lembrava verdadeiros almoços) tomamos outro bus, para Tacna, próxima da fronteira com o Chile. E lá se foram mais 06 horas. Ao chegar em Tacna, pegamos um microbus até Arica (13 soles apenas), já no Chile. Mais 01 hora e 30 minutos, entre estrada e aduana, já nos encontrávamos em território chileno. Decidimos continuar a viagem e compramos uma passagem para Santiago pela Pullmann Bus e lá se foram mais 33 horas de estrada. Aqui já posso falar da coisa que mais me agradou e vai ficar na memória: o deserto chileno. Na verdade, esse imenso deserto que a rodovia atravessa se estende desde o Peru. E acreditem: é impressionante. Uma vastidão que nos faz sentir pequenos. Se o contato com a cidade em ruínas de Caral me proporcionou sentir a força do tempo e do meio ambiente sobre as realizações humanas, neste deserto chileno (sim, atravessamos o Atacama), o deserto chileno me fez sentir que é necessário muito esforço e respeito pelo deserto para viver e sobreviver a ele. Meu coração, neste sentido, foi conquistado pelo deserto.

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A chegada a Santiago (que me lembrou muito São Paulo) foi tranquila e após tantas horas de bus, eu e Diogo tratamos de ir conhecer as calles de Santiago. E a primeira coisa que conhecemos foi o Mercado Central de Santiago. Nada melhor!!! Se você não suporta cheiro de pescado, não pise neste mercado. Em todo o Mercado há este cheiro. É claro, a gastronomia chilena é fortemente dependente de pescados e mariscos. Tratamos de sentar e gastar uma prata: ceviche (que não tem o mesmo preparo que o peruano), cerveja (para o Diogo) e vinho, claro, para mim. Santiago é uma cidade histórica e, nos dias que se seguiram (ficamos de 28 de Dezembro a 05 de Janeiro) percorri bares e museus. Um bar e um museu me chamaram muita a atenção. Primeiro o bar: the Clinic. É um bar (um espaço cultural praticamente) no Centro de Santiago que exala humor. E um humor político. “Pobre” do ainda presidente Sebastian Piñera: alvo de muita chacota do periódico “The Clinic” como do próprio bar. Até perguntei se, com a eleição de Michele Bachelet, ela será alvo do deboche. E a resposta dos garçons foi que sim. Ótimo! A outra experiência (muito política também, mas sem o lado cômico) foi no Museu da Memória e dos Direitos Humanos.

imageDois museus me marcaram muito, um deles foi o Museu de Antropologia e História da Cidade do México e o outro foi este Museu da Memória e Direitos Humanos. Em frente a estação de metrô Quinta Normal, este museu tem a entrada gratuita. Sua arquitetura, vista da rua, o torna “pequeno”, mas ao entrar se vê a grandiosidade do projeto. São 3 pisos que vão nos apresentando, por meio de documentos oficiais, relatos pessoais (os relatos das crianças por meio de cartas, muitas vezes endereçadas aos militares chilenos ou seus familiares, me deixaram “suando pelos olhos”), imagens de TV, fotografias e mesmo objetos pessoais e instrumentos de tortura. Definitivamente, as pessoas que vão a Santiago ganhariam e muito ter essa experiência no Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Mas é claro que não poderia deixar de falar da experiência enológica no Chile. Garanto: foi ótima. Especialmente por conhecer vinhos de regiões que jamais imaginei produzir bons vinhos, como no caso do Atacama, ao norte do Chile). Céfiro, me recordo, foi um merlot que tomei (no bar The Clinic) e gostei muito. Bebi vinhos em bares e visitei apenas uma viña. Foi uma opção. Opção está que tomei por já estar esgotado no mochilão. Entretanto, a experiência na viña Casas Del Bosque, na municipalidad de Casablanca, foi muito positiva (especialmente após conhecer a Isla Negra e o museu de Pablo Neruda). Lá pude degustar (e depois comprar) vinhos produzidos na casa. Me chamou muito a atenção as cepas Pinot Noir (especialidade da casa) e Carménère, tanto que comprei uma garrafa de Carménère e outro do clássico chileno Cabernet Sauvignon. No final das contas, terminei levando comigo 4 garrafas (comprei 2 no Santiago Wine Club, na calle Merced no barrio Lastarria) para o Brasil (além de discos do Gênesis, Moby, Nirvana, Pink Floyd e Underworld e um Action Figue de Mestre Jedi Qui Gonn Jinn da sideshow, itens mais baratos no Chile que no Brasil).

Mas o Mochilão se encerrou de forma tenebrosa. Enquanto seguíamos de taxi do Hostel La Casa Roja no barrio Brasil até o aeroporto de Santiago, a motorista do taxi atropelou um homem, talvez com seus 25 anos, e foi uma das piores experiências de minha vida. O homem, visivelmente embriagado e eufórico, saiu atravessando a pista. O impacto foi terrível. O lugar não era dos melhores, pois havia uma festa próxima de onde o homem saiu, deduzo. Outros garotos, também visivelmente embriagados e nervosos (como todos nós), nos cercaram. Pedi para alguém ligar para uma ambulância e fui na direção do garoto, que estava vivo, embora visivelmente ferido, interno e externamente. Fiquei com receio dos garotos tentarem agredir a motorista, mas logo os “carabineros” (polícia local) chegaram e tomaram conta da situação. Eu e Diogo, então, tentávamos tomar um taxi (meu voo saia às 07h25) e isso tudo aconteceu as 05h00min. E, creio, devido ao local “perigoso” que nos encontrávamos, foi muito difícil conseguir outro taxi. Minha mente, até agora enquanto estou dentro deste avião, mantém a sequência de terríveis imagens do atropelamento. É algo horrível. Espero que o cara sobreviva. Espero mesmo. E que a motorista também esteja bem. Mesmo com este final, este mochilão foi uma experiência muito boa. Não tenho mais animo pra escrever mais. Este post foi, na verdade, uma forma de jogar para fora essa última experiência terrível, mas ao mesmo tempo guardar o que houve de bom no Chile.

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