Cinema e afins/Literatura de Ficção Científica

Apocalipses Zumbis e o Eterno Retorno do Mesmo

Já não tenho mais dúvidas de que o “gênero zumbi” foi incorporado, definitivamente, ao mainstream da indústria cultural (não apenas dos EUA, mas de diversos outros países que produzem “cultura fast food”). Posso citar vários exemplos cinematográficos e da literatura e quadrinhos: Madrugada dos Mortos de 2004, dirigido e produzido por Zack Snyder; Eu Sou a Lenda, adaptação do livro homônimo de Richard Matheson, cujo protagonista, o cientista Robert Neville, foi interpretado por Will Smith; Juan of the Dead, a comédia de zumbis (produção cubana) dirigida e produzida por Alejandro Brugués; o recente Guerra Mundial Z, baseado no livro de Max Brooks, e filmado por Marc Foster e interpretado por Brad Pitt; Apocalipse Z, trilogia literária de Manel Loureiro; The Walking Dead de Robert Kirkman, um estrondoso sucesso nas HQ’s e na televisão, entre inúmeras outras.

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 A atração que exerce esse tipo de filme (ou seriado ou livro ou história em quadrinhos) ao público (de tantos países, com as mais variadas culturas) me deixa particularmente impressionado. Mas ao mesmo tempo em que há realmente uma imensa diversidade de produções e mesmo que possa já existir esse “gênero”, sinto sinceramente uma ausência de criatividade nas histórias que nos chegam, mas ao mesmo tempo tenho de pensar: mas existem possibilidades de histórias outras envolvendo zumbis que escapem da:

“Sociedade normal, produtiva e dinâmica – descoberta de vírus – muitas mortes – pandemia global – infectados humanos transformados em zumbis – poucos sobreviventes fazendo de tudo pra continuar sobrevivendo – mais mortes – reorganização – luta pela sobrevivência – problemas com outros humanos – mais mortes por causa de zumbis – luta pela sobrevivência, etc”.

É como estar preso a uma roda do infortúnio. O “gênero zumbi” deixa pouco espaço para inovações. E ao dizer isto me lembro justamente de uma adaptação que muito gosto, mas que em nada inovou o gênero (e nem era seu objetivo, presumo): Eu Sou a Lenda. No livro “Eu Sou a Lenda”, Richard Matheson nos mostra um cenário social muito similar a este que descrevi, mas com um diferencial: no livro (e não no filme), não são zumbis os “predadores” antes humanos, estão mais para “vampiros”. Então, diferentemente dos personagens zumbis, completamente descerebrados e apenas famintos por contaminar outros humanos, os “vampiros” de “Eu Sou a Lenda” de Richard Matheson, ainda que famintos, pensam. Isto mesmo: pensam! É o que possibilita pensar e mesmo construir cenários alternativos com estes personagens, empregando uma dinâmica muito maior ao que se quer contar.

ZumbisÉ quase como se houvesse uma necessidade cultural de nos vermos, enquanto espécie, dizimados. Sim, dizimados. Poucos sobreviventes, civilização em ruínas, finalmente deixamos de ser o “topo da cadeia dos predadores” do planeta, abandono e readaptação de valores morais e mesmo da ética da responsabilidade. Tudo, nos cenários catastróficos zumbis, remetem a essa destruição. Entendo esse tipo de atratividade que os zumbis exercem como uma metáfora do estilo predatório que experimentamos e reproduzimos socialmente (em menor e maior escala individualmente), com ênfase na economia. O descartável está em tudo: pessoas se tornam cada vez mais descartáveis, assim como telefones celulares e televisores. É uma fome por mais e sem necessidade na maior parte das vezes. Esse volume de descartável nos torna zumbificados pela necessidade de comprar, tal qual os zumbis perdem a consciência e são movidos apenas por instinto e um instinto que os guia a se reproduzir, bem como ensinamos crianças a querer sempre mais e até mesmo o governo (no Brasil, no caso) estimula a ideia de que a cidadania é e deve ser exercida pela capacidade de consumir. De certa forma, a cultura dos zumbis que nos cerca na TV, no cinema, nos quadrinhos é uma perfeita metáfora para refletir a cultura da busca por um novo iPhone que se diferencia do modelo anterior apenas por uma letra ou número (e o desempenho é até pior, já me contaram).

Mas nem sei se este é realmente o objetivo da coisa. Talvez o intuito mesmo seja apenas descarregar uma metralhadora e estourar cabeças de zumbis e, assim, aliviar aquela tensão do dia a dia no trabalho, na escola, na faculdade, no namoro e até na igreja. Os zumbis, portanto, são um sonho e ao mesmo tempo um pesadelo, mas acima de tudo se tornaram uma válvula de escape pra nos vermos mais sozinhos, sem tanta gente nos cercando e ditando regras e também num mundo mais simples, mas também mais perigoso.

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6 pensamentos sobre “Apocalipses Zumbis e o Eterno Retorno do Mesmo

  1. Vou fazer uma coisa que não gosto muito, vou fazer um comentário mínimo, mas que acredite significa MUITO. Curti seu texto, não vou falar amei porque remeteria aquela coisa de “muito lindo”, e não é lindo. É um texto que nos faz pensar e refletir: “O quão desprezíveis podemos ser?”. Curti muito. 🙂

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  2. Ah é, e duvido que essa moda zumbi tenha o teor crítico da FC. É um movimento esvaziado tal qual os cérebros carcomidos destes mortos-vivos que estão dos dois lados da telinha/telona.

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  3. Acredito que gostamos tanto do tema zumbi porque ele finalmente coloca o ser humano como “a caça”, e esse sentimento de luta/adaptação para conseguir é algo que é extremamente importante para a evolução da nossa raça, já que nos acomodamos quando estamos por cima – que é o que ocorre atualmente. Acredito também que as histórias de zumbi tem muito ao que agregar quando focadas em como os seres humanos lidam com toda a situação e se transformam para lidar com esta nova realidade. Mas pqp, como tem enredo ruim. A maioria das adaptações conta com sempre com um grupo de idiotas que só toma decisões inimagináveis para qualquer pessoa sã. Acho que no fundo, só faltam algumas histórias interessantes.

    Abraço.

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  4. Encontrei o blog por acaso enquanto pesquisava a respeito da literatura cyberpunk e acabei descobrindo que o blog é exatamente o que venho procurando (tanto na área virtual quanto na real). Pessoas que curtem Fantasia e F.C e que entendem ou se interessam pelo assunto. Passei umas boas e bem investidas 4 horas devorando os artigos do blog. Como não sou de sair muito de casa, acabo não conhecendo pessoas que se interessam pelos gêneros (OS MELHORES, NA MINHA OPINIÃO). Eu sou perdido por F.C. e Fantasia e todos os seus subgêneros. O primeiro livro que li (não riam) foi Matilda (obra mais conhecida pelo filme) quando tinha 4 anos em seguida veio o Pequeno Príncipe e dái não parei mais. Enfim, não vou encher o saco com minha biografia e nem vou dizer que estou muito feliz por ter conhecido o blog, soa um tanto virtualmente piegas, mas o blog ganhou um admirador e mais um seguidor ativo.

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    • Gracias!!! Espero que continue a acompanhar o blog! Estou mochilando por agora, mas pretendo logo retornar a publicar posts e mais posts sobre Sci Fi e Fantasia!!! Abraço!!!

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