Literatura

“Sobrevivente” de Chuck Palahniuk – resenha com cointreau

E cá estou eu novamente publicando uma resenha de um livro do famigerado Chuck Palahniuk, a última foi do livro “Condenada” que você pode ler clicando aqui. E, desta vez, talvez seja de um de seus livros mais críticos e sarcásticos que o autor tenha publicado (e que eu tenha lido): Sobrevivente. E garanto aos leitores e as leitoras do Cabaré das Ideias: este é mais um livro que vale a pena ler. E se divertir.

Sobrevivente

Sobrevivente narra a tragicômica história de Tender Branson, uma celebridade midiática-religiosa nos EUA. Uma espécie de charlatão religioso, que proliferam cada vez mais no Brasil e outros lugares do mundo, Tender Branson sequestra um avião e decide narrar sua história para a caixa preta do avião. Isso mesmo.  O objetivo é bem simples, enquanto espera o avião cair: narrar com a maior intensidade possível e com detalhes o fracasso que se constituiu sua vida. Chuck Palahniuk, como um autor maestro na arte de ironizar a sociedade em que vive (no caso, os EUA), insere nessa trama tudo que há de mais superficial, reprimido e contraditório na cultura estadunidense. Fruto de uma igreja fundamentalista cristã, Tender Branson se torna o “último” dos fiéis, após um suicídio em massa.  Sua vida já não tinha muito sentido e o pouco que havia nela se dava no “auxílio” que prestava ao suicídio alheio. Sentido? pode perguntar um leitor/leitora incauto. Mais ou menos. Aquela repressão que havia falado transborda nestes momentos (em que o livro é narrado na primeira pessoa e a contagem das páginas é retroativa): é repressão de ideias, mas também repressão sexual, afinal, vindo de um ambiente de cristãos fanáticos religiosos, a primeira coisa a se reprimir é a sexualidade.

Profundo entendedor de etiqueta, Tender Branson vive uma vida mequetrefe, no qual seu círculo social se resumo a assistente social que lhe acompanha ao longo dos anos – e que também é mais uma desajustada no livro – e seu peixe, alimentado com Valium. Valium? Sim. Valium. Mais uma metáfora permeada de sarcasmo que Chuck Palahniuk utiliza para ilustrar e bem a sociedade nos EUA (que poderia ser aplicada em vários outros lugares pelo mundo) que acredita piamente que a “salvação” se encontra em um comprimido. Há outras personagens, como Fertility e o irmão gêmeo de Tender Branson: Adam. Irmão gêmeo? Sim, mais adiante vou comentar sobre.

Tender Branson, acima de tudo, se vê como um fracassado. O “Sobrevivente” do título é mais um acaso que qualquer outra coisa. E o processo que leva este fracassado ao estrelato midiático-religioso é hilariante. Tender Branson, como qualquer outra pessoa é uma potencial mercadoria e, como mercadoria, pode ser repaginada, transformada em algo lucrativo. Se antes falei da repressão sexual que acompanhou e atormenta o protagonista, aqui neste ponto – da mercantilização da pessoa humana – a liberação é total. Não há necessidade de controle. Comprar, comprar, obter mais lucro, comprar, obter mais lucro, passar por cima de quem quer que seja para ter mais lucro, comprar. É quase que uma nova metáfora para o fluxo daquela pulsão sexual ser direcionada para a superficialidade do consumismo desenfreado. Mas sabemos – e Chuck Palahniuk reforça isto ao longo do livro – que no final das contas, essa estratégia dá errado. E muito.

Em “Sobrevivente”, Chuck Palahniuk nos presenteia com personagens coadjuvantes tão ou mais interessantes que o protagonista. A primeira a me chamar a atenção é Fertility. Não há como não se apaixonar por ela. Palahniuk usa o mesmo modelo de Marla Singer com Fertility: enquanto Tender Branson é um desajustado fracassado, ela é uma desajustada perspicaz e muito mais dona de si do que Tender será em toda sua vida literária. E Adam, seu irmão gêmeo? Bom, Adam reflete no livro até que ponto temos limites ao buscar nos libertar dessa programação social que recebemos desde a infância, bem como o preço salgado.

Mas espera! E o sequestro do avião? Bom, eu recomendo fortemente a leitura deste livro, “Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk. O destino do avião é uma perfeita metáfora do ritmo vertiginoso que uma sociedade baseada em consumir (bens materiais, sentimentos, pessoas, etc) como razão de ser vai nos levar. Ou já está levando.

Na Livraria Cultura, o livro pode ser adquirido por R$ 39,90. Divirta-se, reflita, mude, mande a merda, faça o que for necessário.

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