História em Quadrinhos

Grant Morrison: Leituras de HQ’S Absolutamente Necessárias

Recentemente terminei a leitura de Flex Mentallo de Grant Morrison e Frank Quitely e me perguntei: em que realidade vive esse escocês do Morrison?

É lógico que a pergunta não tem sentido por si mesma. Grant Morrison transita entre realidades. É um tipo de obviedade absurdamente pós moderna ou o que diabo venha a ser isso. Essa sensação de “transição entre realidades” nos passos de Morrison foi reforçada e muito com Flex Mentallo, uma das suas HQ’s mais perturbadas que pude ler. E vejam bem, Cabarénautas, leio Morrison assiduamente desde “Batman – Asilo Arkham”, uma das melhores HQ’s do Batman e que melhor retrataram o Coringa em minha opinião. Essa perturbação fundamental à arte Grant Morrison a utiliza e muito bem em suas obras. Flex Mentallo é apenas um tentáculo criativo na profusão de ideias-tentáculos do polvo de sua imaginação. Lidar com a metafísica por meio de uma meta-linguagem em quadrinhos é algo quase “trivial” para o Mago do Caos, como Grant Morrison é conhecido nos círculos de Magia do Caos e entre seus admiradores e admiradoras. Eu sou um deles. E fã de carteirinha, ainda por cima e quanto a essa parte mais metafísica de sua obra, desde sua saudosa passagem por “Homem Animal”.

homem-animal-por-grant-morrison-volumes-1-e-2-brainstore_MLB-F-3957132663_032013Publicada no Brasil na extinta Editora Abril por meio da revista “DC 2000”, “Homem Animal” (com desenhos de Chas Troug e arte final de Doug Hazlewood) foi um experimento (da Vertigo/DC Comics) dos mais bem sucedidos com a expansão do conceito de super-herói: Buddy Baker, o Homem Animal, embora um super-herói, sofria dilemas e situações nada comuns. Por exemplo, na excelente e inesquecível saga “O Evangelho do Coiote”, Morrison mergulha, por meio do personagem, num universo absurdamente alheio ao gênero de super-heróis, embora lidando essencialmente com um.  “O Evangelho do Coiote” retrata a realidade como algo existente em camadas, na verdade em pluralidades e, como tal, as realidades existem para além da percepção unidimensional d@ leitor/leitora para com a histórias em quadrinhos, mas também da própria história em quadrinhos para com @ leitor/leitora. Morrison, em “O Evangelho do Coiote”, mergulha nessa fina e delicada transição de realidades por meio do Coiote, na HQ chamado de “Astuto”, que personifica um coiote saído diretamente de outra mídia. E nessa transição entre autor/obra artística/leitor-leitora, experimentamos página a página, quadro a quadro, a “ponta do iceberg” da nossa realidade para com a realidade de Buddy Baker. É o ápice da metalinguagem em Homem Animal. Se em Homem Animal, Grant Morrison se permite mergulhar na metafísica e na metalinguagem, em “Os Invisíveis” (também pela Vertigo/DC Comics) o escocês traz da Magia do Caos todo o experimentalismo metafísico para criar sua maior obra artística. “Os Invisíveis”, publicada entre 1994 e 2000, totalizando 59 histórias em quadrinhos (em três volumes com histórias editoriais que, em si, já vale a pena conhecer, como o famoso pedido feito por Morrison aos fãs para que se masturbassem em determinado dia e horário contemplando determinado símbolo para que, assim, as vendas da HQ que eram muito baixas, crescessem, o que de fato ocorreu. Jogada de marketing ou tem mais coisa aí?), é o ápice de sua criatividade pouco usual nas HQ’s e joga com tudo, para nossas cabeças, o que de melhor essa modernidade e pós modernidade e ultra modernidade e tudo que há de porra de modernidade: magia, teoria da conspiração, uso místico de alucinógenos, cultura pop psicodélica sacralizada, etc.

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O próprio Morrison garante que parte das histórias de “Os Invisíveis” é auto-biográfica. Acredite: se 10% daquela HQ for auto-biográfica, Grant Morrison é uma espécie de Avatar de nossa época, especialmente porque “Os Invisíveis” é o retrato da submissão e da contravenção ideológica. Em toda HQ há um mantra, que é repassado de forma direta ou indireta, mas está lá: rebele-se! pense! Infelizmente, no Brasil, “Os Invisíveis” nunca foi publicada integralmente, algo que ocorreu também com Preacher de Garth Ennis e, graças aos deuses psicodélicos de King Mob, a Panini publicou integralmente. Não seria a hora da Panini Books também publicar integralmente “Os Invisíveis”? Resposta sincera? SIM!

bombOutra das obras de Morrison ( e talvez a minha preferida, realmente até hoje não sei dizer) que mais me chamam a atenção é “Sete Soldados da Vitória”, publicada pela DC Comics. Publicada em 2005, é o que podemos chamar, com toda a liberdade, de mega saga em histórias em quadrinhos. São sete histórias que se conectam de forma mais ou menos direta entre si e que podem ser lidas de forma interdependente, como num mosaico de percepções e rotas entre o que se lê numa página de uma das histórias e o que se desenrola de forma paralela em outras. Quando relembro “Sete Soldados da Vitória” tenho a sensação de que o experimentalismo de Morrison chegou ao “topo do Everest” em sutileza. Enquanto em “Os Invisíveis” há um choque contínuo, de HQ a HQ, em “Sete Soldados da Vitória” há uma necessidade de maior atenção aos detalhes. Como tudo está interligado e pode ser lido de maneira interdependente, também há espaço, nessa interdependência, para que a história seja ressignificada pelo próprio leitor e leitora. “Sete Soldados da Vitória” é uma HQ que precisa ser lida e relida inúmeras vezes. É outra megasérie que valeria muito a pena a Panini republicar, na forma de encadernado capa dura.

Poderia citar várias e várias outras HQ’s do escocês mago do caos, mas devo confessar que estas são aquelas que mais me chamam a atenção do ponto de vista criativo. Longe de desmerecer a passagem de Morrison por Kid Eternidade, Liga da Justiça, Batman, Superman, X-Men ou Quarteto Fantástico, mas foram nestas HQ’s que citei neste post que vi o escocês libertar sua imaginação e nos premiar com HQ’s absolutamente necessárias para qualquer fã de histórias em quadrinhos que se preze.

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4 pensamentos sobre “Grant Morrison: Leituras de HQ’S Absolutamente Necessárias

  1. Caramba, até que enfim encontrei alguém que dê a devida valorização à 7 Soldados da Vitória! Desde quando saiu eu venho tentando explicar para as pessoas por que essa foi a melhor história em quadrinhos que já eu pude ler. Claro que Watchmen é mais importante, devido todo seu contexto e relação com a época, mas se eu tivesse que escolher entre uma delas eu ficaria com 7 Soldados. Isso porque, assim como Flex Mentallo, ela explora o máximo de recursos disponíveis em se tratando de história em quadrinhos, com uma complexidade prazerosa de se querer desvendar. Tem fantasia, magia, mitologia cristã, “conto de fadas”, realidade alternativa, viagem temporal, terror, suspense, e claro, metalinguagem.

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    • Matheus, 7 Soldados da Vitória é fantástica mesmo! Daquelas para ler e reler e reler!!!! Realmente não entendo alguém que admire Watchmen e não goste de 7SV. Incoerente demais! 7SV está seguramente no meu Top 10 de HQ’s!

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  2. Ola.
    O site da Panini está dando pistas de que´´ Os Invisíveis´´ sera publicado por eles em 2014 e como ainda eu não li nenhum material do Grant Morrison fui ao Google procurar informações sobre o artista e encontrei essa máteria.Gostei muito.Parabéns.Correrei atras das HQs dele.
    Fiquei interessadíssimo pela série Os Invisíveis,parece ser sensacional!!!
    A partir de agora seguirei seu site,um grande abraço e um feliz 2014!!!

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  3. Nao acompanhei nada mais recente dele, mas mesmo citando apenas coisas mais antigas, foi injustiça sua deixar patrulha do destino fora da lista.

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