Sci Fi no Cinema

Elysium de Neill Blomkamp – a crítica social como recurso de uma ficção científica engajada

ImagemUm dos maiores méritos da boa ficção científica, na literatura ou no cinema, é situar o progresso tecnológico dentro de uma questão social ou mesmo um drama psicológico. Ou as duas coisas, o que é ainda melhor. Acho muito pobre creditar à ficção científica projeções de futuro tecnológico e ponto. Todo progresso tecnológico é situado dentro de mudanças sociais. E muitas vezes a ficção científica “coloca o dedo na ferida” do progresso tecnológico seletivo: progresso para alguns apenas? Ao nos colocar essa salgada pergunta, a ficção cientifica, como arte, nos joga contra a parede o caminho que, socialmente, escolhemos e nos é “escolhido”.  E o filme “Elysium” trata justamente disto: o progresso tecnológico é algo bom, necessariamente?  Escrito e dirigido por Neill Blomkamp e tendo em seu elenco Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, Diego Luna, William Fichtner, Wagner Moura, “Elysium” retrata um planeta Terra completamente degradado no ano de 2154, quando os ricos vivem em uma estação espacial (Elysium) e os pobres em um mundo desolado e atingindo ápices de exploração humana. Neill Blomkamp possui uma marca registrada que é a forte critica social, elemento característico de seu primeiro filme (de ampla divulgação), o excelente “Distrito 9”, verdadeira metáfora contemporânea sobre migração e direitos humanos (ou alienígenas, no caso). Em “Elysium” essa mesma abordagem crítica é repetida. Agora com a diferença que um filme critico rodado em Hollywood.

ImagemNeill Blomkamp perdeu sua “marca registrada” ao lançar “Elysium” via Hollywood? Não, é minha opinião. Ao contrário, só reforçou essa característica e ampliou-a, agora usando Hollywood para tanto. O debate sobre a desigualdade social é intenso, intenso no sentido de apontar, claramente, que existe um progresso tecnológico para poucos, voltado a uma elite vivendo acima da Terra, numa estação espacial parasitária conhecida como “Elysium”. Os contrastes entre a Terra e Elysium são reforçados o tempo todo no filme. E quando os recursos da Medicina da Terra e de Elysium são apresentados, é chocante o retrato que esse abismo de oportunidades em saúde do filme é representativo da realidade da saúde pública e privada nos EUA e em muitos outros países do mundo.

 A trama acompanha Max (Matt Damon) em busca da cura para sua enfermidade, mas em meio a uma crise política em Elysium. Neill Blomkamp trabalha muito o filme a dicotomia entre excelentes atores e atrizes. Spider (Wagner Moura), o hacker ativista e gangster é a “antítese” de Delacourt (Jodie Foster), secretaria de Segurança de Elysium. Mas “antítese” não significa maniqueismo entre personagens, num joguinho de bem e mal. Na verdade, há uma luta por convicções: abrir ou fechar as oportunidades de compartilhamento do saber cientifico? O ritmo do filme é muito bem conduzido por Neill Blomkamp. Há ação, claro, mas o filme não é apenas isto. O filme é o retrato dos efeitos perversos dos incentivos seletivos. O incremento da desigualdade social e econômica pode realmente nos levar a acreditar que existem pessoas de subclasse. Ou subumanas. “Elysium” me trouxe essa sensação. E me fez pensar muito sobre esse modelo pouco inclusivo de desenvolvimento que impera no Brasil e outros países.  Vale muito a pena assistir “Elysium”. Eu vou reassistir.

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2 pensamentos sobre “Elysium de Neill Blomkamp – a crítica social como recurso de uma ficção científica engajada

  1. Apesar de alguns problemas que o filme tem, eu gostei muito da crítica que ele faz, algo que parece perdido pela ficção científica em muitas produções cinematográficas. As séries ainda conseguem manter um pouco disso, mas o cinema, que atinge tanta gente, muitas vezes apresenta um conteúdo desprovido de crítica e até mesmo de enredo.

    Ricos e bem aventurados trancafiados e cercados de segurança, enquanto o resto padece na pobreza. No que isso é diferente do mundo que temos hoje?

    E Wagner Moura roubou as cenas do filme todo. Alice Braga repete os mesmos papéis, desde Eu Sou a Lenda. Mas ainda assim, é uma das melhores obras de 2013 e com certeza terei na minha “videoteca” (essa foi do baú!). 😀

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