Literatura de Ficção Científica

Cyber Punk e um Prazo de Validade literário?

Estava aqui pensando sobre essa “angústia pulp” que você comentou (Nota do Dono do Cabaré: o Trekker se refere a esse post “O Cyberpunk “salvou” a literatura de ficção científica?”), associado ao comentário da Sybylla (NOTA: no mesmo post anteriormente citado) e acabei traçando paralelos com o próprio mercado (explosão da Fantasia, que hoje me parece extremamente distante dos Contos de Fadas) e com a minha própria “angústia” enquanto fã dos dois gêneros.

Discutia aqui com uma amiga sobre como foi brotando a minha descrença na Ficção Científica. Não sei se é porque comecei muito cedo, se foi uma das primeiras coisas que conheci, se é por conta da minha formação de maldito humanista desconstrutivista, mas com o tempo fui desacreditando nas promessas da Ficção Científica da Era de Ouro. Apesar de genial, Asimov por exemplo já não me cala fundo como calava antes. Fui sendo paulatinamente tomado por um pessimismo absurdo pela FC.

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Essa minha amiga comentou sobre o caráter de escapismo da Ficção Científica, como um esforço intelectual legal para refletirmos sobre essas coisas, mas ainda assim, é um escapismo pé no chão, ancorado na Ciência. Como aprendi a desacreditar na Ciência, fica difícil (ou pelo menos está difícil, faz alguns anos) voltar para a FC sem algum tipo de ressalva ou preconceito. O Ben Hazrael bem sabe do martírio que é toda vez que tento começar a ler Duna… e ele também bem sabe que não é algo leviano.

Talvez aí que esteja a explicação por eu curtir tanto o Cyberpunk, pois é a Ficção Científica que desacreditou na Ciência por si só, é um passo posterior… aqui o escapismo vira niilismo e as promessas, que agora todo mundo sabe que não podem ser cumpridas, viram algo real. O mundo é sujo mesmo, chega de esperança. A tecnologia nem é tudo isso que prometiam, dizem. Nessa postura agressiva – punk, o Cyberpunk atualizava questões fundamentais da FC para algo muito próximo da gente: não precisávamos mais imaginar um futuro cristalino fruto do desenvolvimento científico mas, pelo contrário, algo deu errado. Lembro muito claramente aqui de um conto de Mirrorshades, falando sobre a última missão da URSS na Lua…

Sinceramente acho uma pena o Cyberpunk ter nascido com prazo de validade, pois a partir do momento em que ele passou a descrever a realidade como ela é atualmente, perdeu algumas de suas características fundamentais. O questionamento filosófico cedeu espaço para a estética, caiu na armadilha do niilismo hardcore de que, ao se questionar tudo, acaba se questionando nada. Infelizmente não tenho percebido essa questão nos movimentos punks mais novos (teslapunk, steampunk, dieselpunk, etc), a maioria tomado por uma plasticidade vazia (não terminei de ler o Windup Girl, mas o biopunk do Paolo me pareceu muito, muito promissor).

Por fim, na questão do escapismo, acho que a Fantasia acabou me caindo bem, já que é um escapismo de chutar o balde. Pelo menos por enquanto. Não se depende da Ciência para contar histórias (com ela dando certo ou errado), parece um esforço anterior e tem o mesmo poder da FC (lógico, pois é a origem da FC) em discutir questões talvez universais. A boa fantasia, pelo menos.

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