Literatura de Ficção Científica

O Cyberpunk “salvou” a literatura de ficção científica?

mona lisa overdriveApós lecionar Metodologia Científica, me encontro em minha sala na faculdade. Pensamentos desconexos multiplicam-se em minha mente, provavelmente oriundos da vontade de ir para um Café ler histórias em quadrinhos e ficção científica, mas ainda – veja bem – ainda não posso. Então, neste intervalo entre a leitura de um relatório sobre Mineração e as anotações de dois livros – sobre ecologia e políticas públicas – me peguei lembrando de um papo que tive, entre um café e outro, com o Trekker (Victor Hugo, parceiro do Ao Sugo e colaborador nerd sebento aqui do Cabaré). E o papo foi sobre o papel do Cyberpunk para a Ficção Científica. Aficcionad@s por literatura de ficção científica sabem bem que há um papo (brabo, na minha opinião) em fóruns nacionais e gringos na internet sobre como o cyberpunk “salvou” a literatura sci fi. É quase uma convicção. Mas aí que está o pulo do gato: ao mesmo tempo em que o cyberpunk, enquanto movimento literário sci fi (que remete, especialmente, a Trilogia Sprawl de William Gibson) “salvou” a literatura e, quando digo “salvar”, me refiro especialmente a renovar a abordagem do cyberpunk, retomando o clima noir da literatura (e HQ’s) pulp embebido de doses cavalares de descrição tecnológica densa, dimensionando esse cenário de alta tecnologia com personagens marginalizados e errantes por “natureza”, especialmente hackers que se tornam, nesse cenário cyberpunk, ou ronin cibernétic@s, inteligências artificiais ou iluminad@s tecnológicos. Como sub-gênero literário dentro da Ficção Científica, realmente o cyberpunk se diferenciou (e bem) da literatura mais clássica da ficção científica (pense em Asimov ou Herbert, por exemplo, pois acredito que Philip K. Dick antecipou e muito a angústia “pulp” cyberpunk) que – segundo alguns – estava praticamente esgotada enquanto campo.

O problema (se é que há) é que, ao mesmo tempo em que o cyberpunk “salvou” ou “resgatou” a literatura de ficção científica, seu teor mais “pessimista”, distópico e nada “lúdico”, “matou” a criatividade da literatura de ficção científica. Uma bobagem, até mesmo porque quem resgata é bombeiro. A própria Lady Sybylla do Momentum Saga já escreveu várias vezes sobre isto e também o Trekker do Ao Sugo (entre outr@s blogueir@s que conheço pessoal ou virtualmente). Com o Trekker, em meio a gritaria, socos na mesa e cadeiras arremessadas, chegamos a conclusão que o cyberpunk não salvou porra nenhuma e muito menos matou a porcaria da criatividade da literatura de ficção científica. E sabe porque? Hiatos de criatividade em um campo literário ou artístico são quase “naturais” e, defendo, necessários. Igual ao que ocorre com o cinema com seus ciclos de retomadas de gêneros como Western ou filmes de guerra.

A conclusão que cheguei, relembrando o papo com o Trekker, é que não vale a pena dar tanto valor a essa merda de que a ficção científica “não tem mais jeito”, que agora é a literatura de fantasia que tá com tudo e blá blá blá. Quem perde tempo com isto, na minha opinião, deveria ler (ou reler) Duna de Frank Herbert ou Fundação de Isaac Asimov. Teriam muito mais a ganhar, até mesmo porque se há algo que a ficção científica nunca se prestou é prever futuro, muito menos o literário.

 

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15 pensamentos sobre “O Cyberpunk “salvou” a literatura de ficção científica?

  1. Eu pensei muito a respeito sobre o assunto e não tinha tido nenhuma opinião até então.

    Eis que seu texto iluminou os caminhos! rs

    O que aconteceu, acredito eu, como uma fã que observa muito a ficção científica, é que a presença de Asimov, Clarke, Bradbury e Heinlein, entre outros, meio que preencheu os nichos da FC, espantando autores que quisessem entrar no universo dos robôs, das space operas ou das distopias e das FCs militares.

    Com o advento do cyberpunk, ficou parecendo que ele quebrava o “mais do mesmo”, trazendo sangue-novo a um gênero que estava em um grande hiato – se é que ele acabou. E ainda existe gente achando que não adianta escrever mais ficção científica como se os autores supracitados já tivessem esgotado tudo o que existe. O avanço tecnológico e científico podem até passar essa impressão, mas não é verdade.

    Não existem temas chatos, existem autores chatos. Um autor que saiba trabalhar o tema de robôs pode ser tão bacana quanto Asimov. A FC precisa apenas formar novos leitores e novos autores para sair deste ostracismo. 😀

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  2. Morta ou não, a literatura cyberpunk se tornou um fenômeno de sociedade. O assunto gerou reportagens em diversas publicações, desde as não especializadas como The Wall Street Journal, Times, até revistas como a Mondo 2000 e Wired, passando pela MTV. Morta ou não, a ficção cyberpunk viu em perspectiva o século XXI. A trilogia cinematográfica Matrix, baseada na obra de Gibson, mostra a atualidade do movimento. Em pleno desenvolvimento da cibercultura em nível mundial, a distopia dos autores cyberpunks parece estar se tornando uma realidade nesse século XXI. Internet, ciberespaço, vírus, hacking, mega-coorporações, vigilância, tribos de ciber-rebeldes e ativistas; todos os elementos da ficção científica cyberpunk estão entre nós. Cabe ao leitor escolher entre a pílula azul ou a vermelha.

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  3. O cyberpunk em seu inicio correspondeu ao zeitgeist de sua época, que é na verdade o futuro versão anos 80 agora o cyberpunk se tornou retro e parodia da vida moderno, ainda existe apesar de não ter a mesma força de antes. E para mim o cyberpunk foi a ultima grande mobilização da ficção que atrai as massas e que depois cedeu o lugar para a fantasia quando a ficção cientica deixou a fantasia de lado em suas especulações.

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  4. Estava aqui pensando sobre essa “angústia pulp” que você comentou, associado ao comentário da Sybylla e acabei traçando paralelos com o próprio mercado (explosão da Fantasia, que hoje me parece extremamente distante dos Contos de Fadas) e com a minha própria “angústia” enquanto fã dos dois gêneros.

    Discutia aqui com uma amiga sobre como foi brotando a minha descrença na Ficção Científica. Não sei se é porque comecei muito cedo, se foi uma das primeiras coisas que conheci, se é por conta da minha formação de maldito humanista desconstrutivista, mas com o tempo fui desacreditando nas promessas da Ficção Científica da Era de Ouro. Apesar de genial, Asimov por exemplo já não me cala fundo como calava antes. Fui sendo paulatinamente tomado por um pessimismo absurdo pela FC.

    Essa minha amiga comentou sobre o caráter de escapismo da Ficção Científica, como um esforço intelectual legal para refletirmos sobre essas coisas, mas ainda assim, é um escapismo pé no chão, ancorado na Ciência. Como aprendi a desacreditar na Ciência, fica difícil (ou pelo menos está difícil, faz alguns anos) voltar para a FC sem algum tipo de ressalva ou preconceito. O Ben Hazrael bem sabe do martírio que é toda vez que tento começar a ler Duna… e ele também bem sabe que não é algo leviano.

    Talvez aí que esteja a explicação por eu curtir tanto o Cyberpunk, pois é a Ficção Científica que desacreditou na Ciência por si só, é um passo posterior… aqui o escapismo vira niilismo e as promessas, que agora todo mundo sabe que não podem ser cumpridas, viram algo real. O mundo é sujo mesmo, chega de esperança. A tecnologia nem é tudo isso que prometiam, dizem. Nessa postura agressiva – punk, o Cyberpunk atualizava questões fundamentais da FC para algo muito próximo da gente: não precisávamos mais imaginar um futuro cristalino fruto do desenvolvimento científico mas, pelo contrário, algo deu errado. Lembro muito claramente aqui de um conto de Mirrorshades, falando sobre a última missão da URSS na Lua…

    Sinceramente acho uma pena o Cyberpunk ter nascido com prazo de validade, pois a partir do momento em que ele passou a descrever a realidade como ela é atualmente, perdeu algumas de suas características fundamentais. O questionamento filosófico cedeu espaço para a estética, caiu na armadilha do niilismo hardcore de que, ao se questionar tudo, acaba se questionando nada. Infelizmente não tenho percebido essa questão nos movimentos punks mais novos (teslapunk, steampunk, dieselpunk, etc), a maioria tomado por uma plasticidade vazia (não terminei de ler o Windup Girl, mas o biopunk do Paolo me pareceu muito, muito promissor).

    Por fim, na questão do escapismo, acho que a Fantasia acabou me caindo bem, já que é um escapismo de chutar o balde. Pelo menos por enquanto. Não se depende da Ciência para contar histórias (com ela dando certo ou errado), parece um esforço anterior e tem o mesmo poder da FC (lógico, pois é a origem da FC) em discutir questões talvez universais. A boa fantasia, pelo menos.

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    • No fundo a propria ficção cientifica caiu na armadilha de prever o futuro, e talvez o principal problema da golden age seja por ser puramente americana e os americanos são naturalmente otimista, apesar de que a ficção cientifica nunca saiu realmente do cenario, é so ver as novas distopias que fazem sucesso com a garotada além de que tem livros de ficção cientificas nacionais muitos bons.

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  5. Pingback: “Desabafo Nerd #57 – Quando a fifização perde o sentido” | Cabaré das Ideias

  6. Quando eu falei sobre essa questão de FC ficar prevendo o futuro e a preocupação exagerada de alguns autores em ter que ficar fazendo isso o tempo todo, teve gente me tacando pedra lá no blog. Isso acabou amarrando as mãos dos autores, que poderiam ter feito muita coisa boa em seus enredos, mas se preocuparam em antecipar essa ou aquela inovação.

    Algum autor conseguiu prever a internet como é hoje? Ou usa a internet como um personagem em seus livros? Não. E por que? O foco de todo gênero literário é o ser humano e na ficção científica é na interação deste com a tecnologia, com a ciência e com a inovação.

    Aí o povo pega essa coisa linda que é a FC e FODE TUDO QUERENDO SER O PRÓXIMO ASIMOV!

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    • Disse tudo e mais um pouco! Concordo integralmente, prever o desenvolvimento tecnológico nunca foi o objetivo da FC, mas pela incrível capacidade de autores/autoras em “antecipar” alguns frutos desse desenvolvimento tecnológico, a FC terminou por ser sequestrada por um aspecto de sua totalidade. E perdemos tod@s, neste sentido.

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    • Falou bonito, Sybylla… Também acho que o trunfo da melhor FC é a capacidade de discutir a Humanidade, ou como eu gosto muito de falar, do Estatuto de Humanidade, afinal, acho que até hoje nós não nos resolvemos muito bem nessa “questã”… Como eu estou (literalmente) prejudicado capilarmente de falar, nunca se tratou de máquinas, alienígenas, planetas distantes, robôs, mas sempre foi sobre nós mesmos. Isso anda meio desaparecido…

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