Literatura de Ficção Científica

Philip K. Dick e a pergunta que não quer calar: o que é o real?

O que é real?

Talvez essa seja a pergunta mais fundamental de toda a literatura Sci Fi de Philip K. Dick. Suas obras tocam, de maneira mais ou menos direta, essa pergunta e, talvez infelizmente, deixam poucas respostas concretas para seus/suas leitores/leitoras. Em minha opinião, um mérito do escritor estadunidense. A realidade, parafraseando a coletânea de contos publicados pela editora Aleph, é adaptada. E é essa adaptação que me chama a atenção na leitura e releitura da obra de Philip K. Dick. O real em K. Dick me lembra muito o conceito de impermanência do Budismo.
A transitoriedade é a única constante do universo. O apego, portanto, é lutar contra o curso normal da vida, que é a permanência. Essa luta, de acordo com o Budismo (e não importa a Escola Budista), é a causa do sofrimento. Quando relembro as obras literárias de K. Dick, seus protagonistas preenchem esse modelo de apego e luta contra a impermanência. E o que me chama mais atenção é como Philip K. Dick constrói personagens materialistas que perdem, de maneira mais ou menos sutil, os objetos de sua felicidade (embora, passe longe de felicidade o que vivem). A felicidade está naquele cargo especifico no trabalho, mas ao consegui-lo, o vazio e sua consequente angústia permanecem, os relacionamentos frígidos entre os casais porque a felicidade de cada um é depositado no outro o que a torna responsabilidade, etc.
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A realidade é transitória e muitas vezes machuca. Essa é a leitura que faço de inúmeras obras de K. Dick: “Do androids dream of electric sheep?”, “Ubik” ou “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, todas editadas e publicadas no Brasil pela Editora Aleph (as duas últimas obras) e Record (a primeira). Em “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, por exemplo, temos mais uma história que retrata a fragilidade da pessoa diante do inusitado. “Jason Taverner”, o protagonista do romance, é uma celeridade da TV estadunidense. Vive cercado de mimos pela produção de TV e pel@s fãs, ganha financeiramente bem, é casado e tem uma amante e, acima de tudo, se sente seguro nessa vida. O problema é que, num belo dia, acorda num quarto num hotel espelunca e nem faz idéia de como lá chegou. A história se desenrola a partir deste ponto, num mundo policialesco sem liberdade regido por uma espécie de Big Brother, e nos remete a personagens humanos, por isso passíveis de excessos e passividade. Neste livro, não apenas a realidade é mutável, mas assim também a nossa percepção dela. Uma coisa está ligada a outra. Quando perdemos o chão (nossa segurança oferecida pela rotina, o tão mal falado cotidiano), tudo desmorona ao redor. E a fragilidade de nossas crenças fica cada vez mais nítida. Em “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, Philip K. Dick humaniza ao extremo suas personagens. Há um conturbado incesto na história, um protagonista fútil que não deixa de reconhecer seu racismo (ainda que neste mundo, a população negra dos EUA tenha sido quase dizimada pela esterilização em massa), uma espécie de kacker vivendo sob intenso delírio, etc. Toda essa panaceia está neste livro, talvez como em nenhum outro de Philip K. Dick. Mas todos e todas envoltos pela incapacidade em identificar o que é verdadeiramente real. Talvez alguns nem se preocupem mais em identificar o que seja real ou fantasia, talvez uma coisa esteja ligada a outra. A areia movediça do cotidiano nos puxa cada vez mais, transformando o dia a dia numa verdadeira prisão.
k dick
Este é o terror de Philip K. Dick. Escrever sobre uma situação que a maioria das pessoas já pensou ou passou e descreve-la de forma próxima, quase tangível.
Philip K. Dick não se pergunta somente “quem é você?”, ele esta mais interessado em perguntar: “quando é você” ou “como é você?” junto ao “quem é você”.
Em “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, temos esse cenário que é, essencialmente, de inquirição sobre a percepção da realidade. A realidade em Philip K. Dick é mutável, não fornece a paz da segurança do cotidiano, como já ressaltei.
O real, em Philip K. Dick, é pesado demais (peso este que parece ter sido muito maior em “VALIS”, sua Sci Fi metafísica).
Me assusta muito mais o “quando é você?”, questionamento bem presente em “Valis”. Mas em “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, essa angústia novamente é dimensionada, agora com um protagonista fútil e cuja responsabilidade por sua vida é galgada aos poucos. A leitura deste livro é excelente e nos impõe algumas reflexões sobre como nos relacionamos com a realidade que nos cerca. E estamos experimentando nessa realidade. Philip K. Dick, hoje, é um verdadeiro portal literário para preparar os mergulhos nos múltiplos e profundos autores da ficção cientifica.
 Recomendo fortemente a bibliografia do autor. Todas as obras.
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2 pensamentos sobre “Philip K. Dick e a pergunta que não quer calar: o que é o real?

  1. O K. Dick me deixou estupefado com suas obras. Peguei alguns dos seus contos, Ubik, Do androids dream of eletric sheep e o homem do castelo alto – que tem um final incrível – e puxa, estou louco para continuar descobrindo mais obras do autor. O fato de se utilizar da ficção científica para explorar temas existenciais é o que me surpreende no autor, visto que ele vai um bocado mais fundo que alguns outros expoentes da FC ( não que os outros não abordem temas importantes / interessantes, mas com Dick vou bastante além em minhas reflexões). Enfim, gostei bastante do pensamento desenvolvido. A questões de realidades e “humanidades” são pontos que cheguei até a pensar, mas você deu uma aprofundada legal. Abraço!!

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