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O Homem de Aço: uma excelente ficção científica inspirada numa HQ

Acho que quem entrou na sala de cinema para assistir ao filme “O Homem de Aço” esperando ver um filme inspirado  apenas numa história em quadrinhos provavelmente saiu fazendo mimimi. Chorando feito um nerd sebento que exige transposição das páginas das HQ’s direto para a tela de cinema como se fossem um mesmo tipo de mídia. O Homem de Aço, filme dirigido por Zack Snyder, roteirizado por David Goyer e Christopher Nolan e produzido pelo último, é muito mais que um filme de histórias em quadrinhos (que nem gênero pode ser no cinema porque histórias em quadrinhos possuem tantas variações de gênero e temas quanto o próprio cinema ou a música). E ser mais que um filme de histórias em quadrinhos é um mérito e não um demérito. O Homem de Aço é um filme de ficção científica e isto, para mim, foi uma agradável surpresa aos olhos e ouvidos e, principalmente, ao coração DCnauta. SPOILERS ABAIXO.

O Homem de Aço já foi concebido dentro de inúmeras pressões e duas delas das mais atrozes aos seus produtores, roteiristas e diretor: (1) escapar da sombra dos filmes clássicos de Richard Donner (e da trilha sonora clássica de John Williams) (2) ter um Clark Kent/Kal-El/Superman, agora sob a interpretação de Henry Cavill, que fosse distinto do ícone sagrado nerd Christopher Reeve, (3) dar visibilidade ao universo DC no cinema que, graças a Trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, voltou a existir (e, infelizmente, só). Imaginem, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, quanto “bucha” para resolver. Evitei ao máximo assistir aos trailers. Trailer de filme estadunidense sempre engana. Tu compra que vai ser um baita filme, mas quando assiste é uma bomba de efeito desmoralizante a um cinéfilo. Evitei ao máximo assistir aos trailer, mas não consegui escapar do primeiro e do último. E neles pude ver que o filme seria diferente dos outros (incluindo aí o belo filme de Bryan Singer que não empolgou muita gente, como foi o caso do Hulk de Ang Lee), para bem ou para mal.

E foi para bem, na minha opinião.

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Em nenhuma produção cinematográfica anterior do Superman, Krypton foi tão bem retratada. E digo isso mesmo. Bem retratada. Do início ao fim (literal de seu planeta), há um visual fantástico. Além do visual (a direção de arte em filmes de Zack Snyder é sempre boa, até seus críticos reconhecem), a tensão envolvendo a guerra civil e o fim de Krypton é palpável. Em O Homem de Aço,  finalmente conhecemos melhor aquela sociedade. Quer dizer, um pouco melhor. Até nas HQ’s ela é um mistério, com poucas HQ’s dedicadas a desvendar aquele mundo (saudosas exceções a “O Mundo de Krypton”de John Byrne e Mike Mignola e “O Legado das Estrelas” de Mark Waid e Leinil Francis Yu, além da revista regular “Action Comics” sob a batuta de Grant Morrisson e Rags Morales – e All Star Superman também). Enquanto assistia aqueles primeiros vinte minutos de filme (vinte?), fiquei maravilhado com a tecnologia empregada em Krypton. E, principalmente, com a sociologia kryptoniana, dividida em castas. Inclusive, aí está um dos pontos interessantes do filme: não há espaço para “livre arbítrio” em Krypton. Ou você é algo ou é algo. Destino sócio e psico-biológico que já é solapado por Jor-El e Lara (que me faz perguntar, até que ponto realmente essa estratificação biológica era psíquica em Krypton?).

O roteiro realmente é didático. Para alguns/algumas pode ser até cansativo, mas sou da opinião que é preferível algo didático que algo mastigado, pronto e acabou! como se vê em muitos filmes. Esse caráter didático é, com toda certeza, dedo de Nolan (que o fazia muito na trilogia Cavaleiro das Trevas). Mas esse “didatismo” não estraga o filme. É parte da forma de contar sua história. O que me faz pensar em um ponto positivo do roteiro: os saltos. É como se o filme fosse dividido em três atos: 1) Krypton, 2) Nômade e 3) A batalha pela Terra. Contada desta forma, a jornada de Clark Kent/Kal-El para Superman não mostra facilidade, algo já dado com um uniforme e nasce o super herói, mas reforça uma construção e mesmo aprendizado. Com erros e acertos. E preços a pagar.

Se no filme anterior de Bryan Singer muito se reclamou da ausência de lutas, neste O Homem de Aço não faltaram combates. E destruição maciça de Metropolis e Smallville.  O General Zod (interpretado brilhantemente por Michael Shannon) representa um personagem que não pode ser classificado claramente como vilão. Ele mesmo diz que foi “feito” para tomar decisões difíceis, algumas inclusive relativas a genocídio (como desejou fazer com a população da Terra). E está aí algo que a DC tem de melhor: vilões. Se @s marvetes dizem que os heróis da DC são como deuses, os vilões da Marvel são extremamente simplórios. E que terminam por deixar as tramas ainda mais simplórias, veja o caso do filme “Os Vingadores”, baita filme, mas que até hoje, depois de assistir umas oito vezes, não entendi minimamente o que queriam os Chitauri e muito menos o Thanos com a Terra. No caso do General Zod em O Homem de Aço, ele queria simplesmente criar um Novo Krypton para seu povo. 

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A maioria dos elementos clássicos do universo do Superman estão no filme: Perry White, um editor casca grossa e honesto, Jonathan e Martha Kent, os pais de criação que transmitem a herança terráquea ao último filho de Krypton e Lois Lane. Ela, de certa forma, é um dos fios condutores da humanidade na trama de batalha entre kryptonianos. Sua investigação sobre o misterioso “alienígena” a leva a conhecer Clark Kent antes de conhecer o Superman. E está aí uma mudança no filme que não me agradou inteiramente. Não por mimimi que não é dos quadrinhos, mas pelo fato de que perde-se a dualidade entre Clark Kent/Superman na relação dos dois, neste filme e em possíveis e prováveis continuações. Mas não é algo que vai me fazer ter chilique como muito nerd que conheço (na vida real e virtual). 

E os easter eggs, Ben Hazrael? Existem. Mas são poucos. Letreiros da LexCorp e satélite da Wayne Enterprise. Pouco pra dar esse link de um Universo DC, mas já é alguma coisa. O mais importante, acredito, é o reforço do fato de que o aparecimento do Superman e das tropas de Zod é um marco na história da humanidade. Nada será como antes. Inclusive, um gancho que notei no filme foi a câmara de êxtase aberta e outra com algum/a kryptoniana morta na nave de exploração kryptoniana (onde Lois Lane e Clark Kent se conhecem) perdida na Terra por mais de vinte mil anos. Seria Kara Zor- El? Eis uma boa questão para um próximo filme. Ou para a Liga da Justiça, caso Darkseid seja o vilão (lembram-se da saga em que Supergirl é levada para Apokolips e treinada para ser uma Fúria de Darkseid?). Trazer Faora novamente para uma luta com a Mulher Maravilha foi quase um clamor durante o filme.

E, para terminar essa resenha, já escutei muito mimimi sobre o Superman matar o General Zod ao final. Quem reclama, deve reclamar por esporte. Só pode. A situação de tensão (Metrópolis é quase destruida inteiramente pela luta entre Superman e Zod) é palpável. Zod deixa claro que vai destruir toda a humanidade. Superman tinha uma única escolha: deter o kryptoniano de forma definitiva (os outros kryptonianos foram reenviados para a zona fantasma junto com o Professor Hamilton, algo interessante para uma continuação). Caso contrário, sua escolha pela humanidade seria completamente inútil. E nos quadrinhos, Superman já passou por isto. Lembram-se quando, numa Terra Alternativa, ele precisa eliminar Zod, Ursa e Non depois que os três eliminam a humanidade completamente? Ou Apocalypse? Nenhuma novidade. O interessante é ver o peso dessa morte de Zod para o Superman num próximo filme. 

E um próximo bom filme é tudo que um apreciador de filmes inspirados em histórias em quadrinhos (e em ficção científica) precisam. 

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2 pensamentos sobre “O Homem de Aço: uma excelente ficção científica inspirada numa HQ

  1. Nas palavras do presidente da Warner Bros , Alan F. Horn, “Eu achei que Superman – O Retorno (2006) foi um filme muito bem sucedido, mas acho que deveria ter feito 500 milhões de dólares em todo o mundo. Deveríamos ter tido um pouco mais de ação, para satisfazer o público jovem masculino. ” US$ 175 milhões é o orçamento máximo para ‘Superman – O Homem de Aço’.

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  2. Parabéns pela crítica! Foi uma das melhores e mais imparciais até agora, retratou bem a opinião da maioria dos que assistiram ao filme, sem dar razões aos chorões nerds.

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