Realidade Overpower

Mais “Princesa Leia” e menos “Branca de Neve”

Você gosta de ler? Presumo que sim, já que está separando um tempo de sua vida para ler este blog. E, também presumo, gosta de “assuntos nerd” como histórias em quadrinhos, literatura de ficção cientifica e cinema, por exemplo. Em geral, nessas “prateleiras nerd” da vida, nos identificamos com algumas personagens de ficção, em muito pelo que podem representar para nós. Se for junguian@, como eu, poderia até fazer referência aos arquétipos. Mas não é de arquétipos que quero tratar aqui. É de compartilhamento desses “assuntos nerd”. E não com adultos, mas com crianças. Não sou pai. Tenho muita vontade de ser, mas ainda não fui contemplado com essa responsabilidade. Talvez realmente porque goste de crianças. E de contar histórias para elas.

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Contar histórias é algo muito bom! Me lembro que contava inúmeras histórias para meus primos e minhas primas menores (ou para minha afilhada e para minha sobrinha), histórias que transitavam entre a ficção científica “kdickiana” e o semi horror lovecraftiano versão infantil. Lembro que minhas primas, mães das crianças, ficavam horrorizadas com as histórias e mais ainda com a vontade que as crianças tinham de ouvir mais e mais historias (e lembro que tinha de me virar nos 30 pra “criar” mais histórias, mesclando Dracula de Bram Stoker com Blade Runner, etc). Contar histórias, por mais desvairadas que fossem, era exercitar uma faculdade importantíssima: a imaginação. Para quem contava e para quem ouvia. E, nesse ponto, quero comentar algo que me chama a atenção. Diferenciamos meninas de meninos ao contar histórias? Reproduzimos, mesmo sem querer, os papeis que cada um deve exercer ao longo da vida? O herói masculino e a donzela indefesa, por exemplo? Provavelmente. É a resposta que não queria dar, mas é a que reflete maior sinceridade. Mas acredito que a coisa (o bom e velho machismo de todos os dias) vai além: até que ponto, hoje, nos preocupamos em contar histórias, se já “tem tudo pronto” bastando ligar a TV? Juntar uma coisa a outra é, particularmente, preocupante, especialmente quando temos consciência dessas situações.
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Algo que me deixa espantado é como enquadramos as crianças (e o fazemos sem querer, mas é o famoso jargão, do “Chavo del Ocho”, “sem querer querendo”). Para as meninas, me chama a atenção, na forma como as tratamos como bonecas, bonitas e bem vestidas e, muito dificilmente, indagamos sobre suas leituras, seus “desenhos animados”, etc. É quase uma “sentença” sobre a aparência ser mais fundamental que a essência. Lembro que, ao contar histórias com personagens femininas, usava duas personagens com maior regularidade: a Princesa Leia de Star Wars e a Mulher Gato.
Dois arquétipos femininos muito distintos entre si, @s nerds de plantão o sabem. Ao cita-las, desejava, realmente, indicar que existe algo, nas personagens femininas, para além do “modelo tradicional princesa da Disney” que, felizmente, vem se modificando (pra melhor, em minha opinião). Retomando, a reprodução do machismo (e do vazio do “ter” sobre o “ser”) ocorre, então, nessa toada, na naturalização dos papéis. E quando vivemos uma realidade na qual estímulos culturais (me refiro, no caso, simplesmente a cultivar a leitura) tornam-se quase instantes e não hábitos, a mudança de percepção fica mais difícil. Mas não impossível. Volto, então, ao contar histórias. E da importância desse ato para estimular a imaginação e mesmo alterar, de forma microlocalizada, a “naturalização” dos papeis sociais, que se inicia, como sempre digo, “desde o berço”. Então, porque não contar mais histórias e tratarmos nossas meninas como pessoas-crianças e não bonecas-crianças? E porque não mais “Princesa Leia” e menos “Branca de Neve”?

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2 pensamentos sobre “Mais “Princesa Leia” e menos “Branca de Neve”

  1. Eu vi um quadrinho no Feminista Cansada que falava da diferença dos presentes dados a meninos e meninas. O garoto ganhou um brinquedo todo avançado. Ele perguntou o que fazia, e o pai respondeu que ele poderia criar, montar blocos, fazer coisas bem diferentes.

    Quando a menina ganhou a boneca, ela perguntou o que ela faz? E o pai respondeu, é bonita… ¬¬ No final, alguém reclamava que havia poucas mulheres na engenharia.

    E acho que praticamente toda menina deve ter passado por isso. Uma vez, quando criança, eu fiz um escândalo porque ganhei um urso de pelúcia e um amigo ganhou um cavalo todo tecnológico, à pilha e eu queria um.

    É de chorar ver o que alguns pais têm feito com seus filhos e filhas. Se eu tivesse um filho ou uma filha, tentaria seguir um meio termo, evitaria usar as cores carimbadas para os dois gêneros, daria brinquedos no estilo Lego, quebra-cabeças… A indústria de brinquedos tem me enojado muito com essa separação absurda de brinquedos para meninos e para meninas. São crianças, KCT! Deixem-nas brincar!

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  2. As histórias infantis têm papel fundamental na formação do indivíduo, tornando-o criativo, crítico e capaz de tomar decisões. Quando se conta uma história, deve-se ter em mente que aquele momento será de grande valia para a criança, pois através desses contos será formado um banco de dados de imagens que será utilizado nas situações interativas vividas por ela. Recomenda-se que o educador faça todo um ritual antes do momento de contar histórias.

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