Cinema e afins

A Nação do Medo

Quando li O Homem do Castelo Altode Philip K. Dick, minha imaginação deu um verdadeiro salto quântico devido ao formato estonteante (cruzando as histórias d@s personagens em conformidade ao I Ching) que o autor estadunidense de ficção científica trabalhou um romance de história alternativa: a vitória do Eixo na Segunda Guerra Mundial. Simplesmente devorei esse livro (e já o reli outras duas vezes) e sempre que o terminava me vinha a mente não apenas uma sensação de inquietude, mas de medo mesmo. Medo por ler sobre uma realidade catastrófica para a maioria imensa da humanidade. Se engana quem pensa que não devemos nos importar com política. Devemos sim. Devemos porque, caso não nos importemos, outros se importarão e, muitas vezes, com intenções nefastas. E tudo começa devagar. Anula-se um direito civil aqui, outro ali. Mais e mais poderes políticos são concentrados em torno de uma figura ou um grupo de extremistas (ideológicos ou teológicos) e mais alguns direitos são eliminados, em geral para a preservação da segurança. Os problemas econômicos e sociais passam a ser facilmente resolvidos devido à identificação de uma etnia (ou outro grupo que seja) “responsável” pelas mazelas sociais. Mais alguns direitos civis são eliminados, especialmente dos “diferenciados”. Livros passam a ser queimados porque propagam dúvidas e questões sempre incomodam. E tudo termina em destruição, seja de valores e ideias ou, até mesmo, de corpos.

“O Homem do Castelo Alto” é um livro intimista que, pensei, deveria ser transposto ao cinema. Ou ao menos à TV. Embora isso não tenha sido feito ainda (porque há planos de Ridley Scott em adaptar o livro para o canal Sy Fy), foi produzido um excelente filme para a HBO, na “distante” década de 1990 (mais precisamente em 1994), denominado no Brasil como “A Nação do Medo” (Fatherland no original). A premissa de sua história é simples: a Alemanha repeliu o ataque das Forças Aliadas no chamado ‘Dia D’ e venceu a guerra na Europa. Contudo, ainda se encontra em guerra com a União Soviética. São os anos de 1960 e, para dar fim a esse conflito, é articulada uma aliança entre a Alemanha e os EUA. Bem fundamentada politicamente, a premissa do filme é interessante: tanto o regime nazista quanto o regime democrático (com salvaguardas teóricas ao termo, talvez por isto prefira o termo “poliárquico” de Robert Dahl) tem um “inimigo comum”: o comunismo. Daí a ideia básica de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Mas ainda assim, na atmosfera do filme, há um delicado equilíbrio na manutenção dessa simples possibilidade de aliança. E, para dar “rosto” ao enredo do filme, temos o ótimo Rutger Hauer, que interpreta o Oficial da SS “Xavier March”, e a jornalista estadunidense Charlie Maguire (convidada para cobrir o encontro do Fuhrer com o presidente Kennedy) interpretada por Miranda Richardson. Em meio a uma trama de muito (e bom suspense), @s personagens vão se aprofundando num segredo político dos mais escabrosos e nefastos: a Solução Final. E para quem sabe minimamente história contemporânea, sabemos bem o que é: o genocídio de mais de 5 milhões de seres humanos pelo regime nazista.

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No filme, este foi um segredo muito bem guardado. E por isto, para o acerto da aliança entre a Alemanha e os EUA, é fundamental que este nefasto segredo continue como está: varrido para debaixo do tapete. “A Nação do Medo” é um filme para se assistir pensando em que mundo é este que vivemos agora. E porque, “por um fio”, as coisas poderiam ser muito, mas muito diferentes. Sempre paro para refletir sobre isto. E, justamente por essa reflexão, acho que podemos e devemos ser intolerantes (de não tolerar o desrespeito aos direitos civis) para com aqueles e aquelas que almejam solapar os direitos humanos (como o faz, quase sorrateiramente, a Bancada Religiosa no Congresso Nacional brasileiro). Atenção política nunca é demais, como nos mostra a História. 

Abaixo, os primeiros 10 minutos do filme que explicam “essa realidade alternativa”. Caso queira assistir ao filme “A Nação do Medo”, deixo o link para o Youtube. Basta clicar aqui. E bom filme.

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2 pensamentos sobre “A Nação do Medo

  1. Eu gostei muito desse filme, lembro que fiquei surpresa com o modo em que o nazismo foi tratado e por ter visto um mundo em que eles ganharam. Acho que foi a primeira vez em que vi uma distopia e me dei conta de que era uma realidade alternativa. O que eu mais gosto nesse estilo de filme é a possibilidade de fazer a pergunta “E se…?”

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    • Tive essa mesmíssima sensação. E a pergunta: “o que aconteceria se…” Nunca foi tão assustadora devido a minha convicção de a História humana funcionar numa espiral…

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