Cinema e afins

O Cheiro do Ralo, a Bunda e o Choro

Lourenço Mutarelli é um dos quadrinistas mais geniais e sem-noção que conheço. Suas HQ’s são pitorescas, meio desajustadas. Pra falar a verdade, ele usa e abusa de um humor permeado de sarcasmo. Não um sarcasmo britânico, mas um sarcasmo tipicamente brasileiro, inclusive com todo o sofrimento tragicômico inerentemente brasileiro. “O Dobro de Cinco” ou “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa” (entre outras HQ’s e romances) são exemplos excelentes desse sarcasmo inteligente (sem ser chato e enfadonho) que me faz rir e muito. 

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Nada mais natural que esse autor tivesse suas obras – romances e/ou HQ’s – fossem levadas para a tela do cinema. E como as HQ’s e romances de Mutarelli são escrotas e permeadas de um humor cinzento, nada mais necessário que a adaptação de uma obra sua fosse conduzida por pessoas competentes. E “O Cheiro do Ralo”, filme produzido e distribuído para fãs (e ainda não fãs na época) em 2007, atingiu em cheio o perfeito equilíbrio que uma adaptação de um autor fantástico como Mutarelli demanda. Heitor Dhalia (que dirigiu Nina, excelente filme com a Guta Dresser inspirado em Crime & Castigo de Dostoiévski) na direção e com Selton Mello como protagonista. Dizer o que mais? Era certeza de um bom filme. E foi.

Em “O Cheiro do Ralo” rimos com Lourenço (Selton Mello), um antiquário numa rota livre de desequilíbrio emocional, que rompe noivado, compra e revende quinquilharias sob critérios completamente desajustados e, muito importante, é apaixonado por uma bunda de uma garçonete. Quer dizer, A BUNDA, uma entidade quase autônoma e metafísica.  É claro que essa bunda é uma metáfora. E uma metáfora ligada justamente ao ralo que, por meio de seu cheiro, consome a lucidez de Lourenço. Tudo ali está ligado. E acompanhar o aumento do desequilíbrio de Lourenço é muito, muito divertido (desde que não nos coloquemos no lugar do infeliz). Quando compra o “olho” e passa a divulgar que aquele era o olho de seu pai, morto na Segunda Guerra Mundial. O dinheiro é completamente fútil, mas é a única coisa que dá sentido a existência de Lourenço, já que a todo momento repete que não ama ninguém (talvez seu pai Frankenstein). Não há nada além do dinheiro, do pagar pelo prazer para obter poder. Outro exemplo: quando Loureço diz que adoraria pagar pra ver aquela BUNDA. E aí está o X da questão do filme: PAGAR.

Para Lourenço, tudo se resume a dinheiro (e mesmo assim não há critério sobre o que faz algo valer. Talvez não carregar sentimento algum o objeto, o que é impossível para quem quer vender porque necessita). Quando a garçonete (de nome impronunciável por conter a mescla de outros três nomes – do pai, da mãe e de um artista de novela) lhe diz que o deixaria ver A BUNDA de graça, o equilíbrio de Lourenço vai para o ralo. Ver, tocar aquela BUNDA, usar aquela mulher que não tem nome e é apenas um objeto reflete a própria solidão de Lourenço. Ele chora, chora muito (que momento tragicômico do filme!). Solidão e caráter podre este de Lourenço, podre como o cheiro do ralo. Ah, aí está o ralo novamente. O ralo simboliza o inferno que consome Lourenço e, ao se recusar a comprar um violino Stradivarius por um preço justo, o violinista diz que aquele lugar fede. E o fedor não era do ralo. Era de Lourenço.  Tudo está conectado.

a bunda e o choro

O “Cheiro do Ralo” é um filme genial que merece ser assistido mais de uma vez. Selton Mello está simplesmente fantástico (pra variar um pouco). É um filme que dimensiona bem o tamanho da importância que damos ao dinheiro, quase como um deus que, descontrolado, consome sentimentos e nos deixa apenas um cheiro podre que, como desculpa usual, dizemos vir ali do ralo. Para assistir ao filme, deixo abaixo o vídeo. Para quem assistiu, assista novamente, para quem não assistiu, assista. Vale muito a pena.

 

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2 pensamentos sobre “O Cheiro do Ralo, a Bunda e o Choro

  1. Assisti a este filme hoje, e depois de assisti-lo tive que procurar algum comentário sobre o que acabei de ver. O seu foi o melhor que achei, o cheiro do ralo vem de nós mesmos.

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