Literatura de Ficção Científica

Favelost de Fausto Fawcett – Resenha com Cointreau

Quando terminei de ler “Favelost” de Fausto Fawcett tive uma sensação estranha, que me lembrou em muito uma trepada boa, daquelas meio ensandecidas e surpreendentes em um local não muito habitual. Favelost como livro é mais ou menos assim. Rápida, mas intensa como obra literária. Acho, inclusive, que essa minha metáfora tem muito a ver com a própria dinâmica do livro: só o sexo pode salvar da morte os protagonistas Eminência Paula e Júpiter Alighieri. E para serem salvos, os mesmos precisam se encontrar em meio a Mancha Urbana denominada “Favelost”. Fausto Fawcett, como escritor de ficção cienífica, é um ótimo artista. Espere. Não estou dizendo que o músico e dramaturgo não seja um bom escritor de ficção científica tomando o livro “Favelost” como parâmetro, mas o livro não segue uma toada sci fi básica e nem sei se deve ser considerado ficção científica. E vou explicar o porque.

Favelost

Favelost é uma Mancha Urbana que se estende de São Paulo até o Rio de Janeiro. Englobou tudo que havia entre as duas megalópoles e criou, assim, um mega megalópole completamente disforme. Nela há de tudo: indústrias, milhares delas, em todos os campos da bioeconomia; há também @s desajustad@s, estes e estas sobram em qualquer canto de Favelost. Embora existam dois protagonistas da história que precisam se encontrar e trepar para desativar um chip assassino instalado em seus corpos, Fausto Fawcett os situa apenas como “meios” para descrever o que há em Favelost. É quase uma etnografia sci fi. Mas uma etnografia sci fi que, de suas impressões nos dadas pelo narrador-autor, jorra informações sem o mínimo preparo. É tudo misturado, junto e misturado mesmo como por diversas vezes lemos nas páginas de “Favelost”. E essa característica talvez seja o maior mérito literário de Fawcett.

O autor de “Kátia Flávia, Godiva do Irajá” não está nem um pouco preocupado em esclarecer o que se passa entre os protagonistas e o porque, de verdade, estão naquela situação sexual-mortal. “Teu verbo é o meu e meu verbo é o teu”, repetem a todo momento Júpiter Alighieri e Eminência Paula. Sexo é salvação e não um soco na cara de alguém ou uma cirurgia pra extrair esse chip de ambos ou uma bomba neuronal, saídas que seriam “naturais” num livro de ficção científica estadunidense. Mas não em “Favelost”, em “Favelost” a boa e velha forma de se resolver uma pendencia ou mesmo um problema sério como este é através do sexo sem puritanismo barato, até mesmo porque não há tempo para isto. O deslocamento dos personagens ao longo de Favelost nos apresenta, ao longo dos capítulos do livro, a dinâmica da cidade e de seus habitantes: “Nada se perde, tudo se Transformer”, filosofa Fausto Fawcett como etnógrafo dessa balbúrdia contida nas páginas de “Favelost”. Há um fluxo sem fim de cultura pop nas citações que os personagens ou o narrador-etnógrafo fornece, como leitor fiquei perdido e ao mesmo tempo alucinado tentando me lembrar de onde Fausto Fawcett desenterrou aquela ideia – que poderia ter saído de um comercial de margarina ou de um filme de Almodôvar. 

Em “Favelost” muita coisa se aproveita e a trama é mais acessória que fundamental para entender essa “Dite”, cidade infernal que existe em terras brasilis. Tudo é passível de trocadilho para Fausto Fawcett, de preceitos religiosos até a ética política e tudo é explicado – quando o é – de forma rápida e se você, leitor e leitora, não pegou, azar o seu. Releia, anote, pense, repense. Embora não se diga quando se passa o momento específico da história retratado, podemos intuir que o devaneio favelostiano é futurista, mas não longínquo, mas até imediato. Na verdade, como uma “etnografia sci fi”, “Favelost” de Fausto Fawcett é um retrato crítico, muito crítico do que temos hoje. E, principalmente, do que sonhamos e ansiamos enquanto coletividade. E talvez esteja aí o maior mérito do livro enquanto uma ficção científica aos avessos, como o próprio autor, aparentemente, insiste em demonstrar nos inúmeros trocadilhos musicais ou cinematográficos que se repetem como se repete a vida moderna, no qual precisamos estar nos movimentando o tempo todo para, simplesmente, podermos ficar parados. É contradição demais. E isso, meus caros leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, é Favelost.

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2 pensamentos sobre “Favelost de Fausto Fawcett – Resenha com Cointreau

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