História em Quadrinhos

Asterios Polyp e a redescoberta de David Mazzucchelli

Qual a sensação de ler uma HQ boa, quer dizer, boa não, muito boa diante de um quadro com tantas histórias em quadrinhos medianas (as mensais de super heróis) ou as intelectobobas que começaram a proliferar pela sensação de alguns leitores de última hora de que “graphic novel” não é HQ? 

Pois é. Tive uma sensação muito boa, ainda que estranha, depois de ter terminado de ler a sensacional HQ de David Mazzucchelli chamada “Asterios Polyp”. Na verdade, nem sei bem por onde começar. Talvez pelo mais óbvio ao contemplar as páginas da HQ: a arte de Mazzuchelli. E digo o porque da surpresa ao compararmos de maneira direta a capacidade que esse artista teve de readaptar seu traço para contar visualmente uma história sobre a dualidade de um ser humano e sua incapacidade de ouvir e, então, da necessidade de aprender essa verdadeira arte. Quando me deparei com a arte de “Asterios Polyp”, fiquei intrigado. Por que? Simplesmente porque a arte de “Asterios Polyp” diferia de forma extremada da arte de “Batman Ano Um”, uma das melhores HQ’s que pude ter o prazer de ler e apreciar a arte. Tanto que Mazzucchelli foi e é até hoje meu artista preferido. Mas ao contemplar a arte de “Asterios Polyp”, o que podemos observar é outra arte e um artista que se renovou por completo (ainda mais diante do hiato de publicações que passamos), o que permitiu conduzir uma história em texto e imagem que pode figurar, tranquilamente, num Top 10 de melhores HQ’s.

“Asterios Polyp” é tudo isso mesmo como HQ?

É tudo isso e mais um pouco. A história de Asterios é a história de um gêmeo solitário (seu irmão morreu ao nascer) e, portanto, uma história de solidão, ainda que esse gêmeo solitário, Ignázio, assombre Asterios dentro de uma realidade que, aparentemente, é paralela e por isso mais assustadora porque, de certa forma, a história traz a factibilidade desse irmão e da carga negativa que imprime ao protagonista. Asterios é um sujeito completamente egocêntrico. É inteligente, mas massante. É sedutor, mas cansativo. Tudo isso há em Asterios e a trama é conduzida de uma forma tão interessante por David Mazzucchelli que podemos ver este Asterios no auge de sua carreira como teórico da arquitetura (sem nunca ter visto nenhuma obra sua disposta na realidade concreta), mas também num momento on the road, quando está separado de Hana (sua esposa) e sem mais nada que o prenda ao glamour da vida sem sentido que passou a levar, vida mergulhada em solidão pela própria escolha, mas que o consumiu de tal forma que sua derrocada na história passa a ser natural. Em especial por causa do grau de “interação” com seu gêmeo (mórbida semelhança) que o acompanha, as vezes até de maneira “real”.

Asterios, quando na estrada, vive duas realidades: a do passado que se foi com Hana e a presente, na qual é um mecânico (tornou-se mecânico numa passagem sensacional da HQ que fiquei com bastante inveja). Essa dualidade é ora aprofundada, ora contemplada de forma superficial, mas não temos como deixar de sentir uma necessidade de saber que diabos vai ocorrer a Asterios? Afinal, se antipatizamos com o Asterios “teórico” que sufoca a companheira e sempre se considera certo diante de qualquer coisa, o Asterios “prático” é diferente, ele ouve, sabe que errou e é capaz de construir algo, um momento muito bonito da HQ, quando pela primeira vez na vida ele constrói algo, no caso uma casa na árvore para o filho de seu empregador na Oficina Mecânica.

Mas o momento mais mágico é quando Asterios reencontra com Hana. Nem vou dizer o que passa e que fim levam os personagens, mas é um dos finais mais bonitos que pude ver em muitas e muitas HQ’s e mesmo livros e filmes.

“Asterios Polyp” de David Mazzucchelli foi publicado no Brasil pela Editora Quadrinhos na Companhia. E pode ser comprado clicando aqui. Boa leitura!

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Um pensamento sobre “Asterios Polyp e a redescoberta de David Mazzucchelli

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